Projeto A Sala

Críticas

Aurora (2025), de João Vieira Torres

Um filme-ensaio que parte em direção a uma maldição tão particular quanto universal, extrapolando gêneros, normas e fronteiras.

Filmes podem ser pessoais e íntimos, mas terão de desafiar, em algum nível, os limites do seu particularismo. Escrever para si mesmo hoje pode parecer quase um sinônimo de ofensa, como se uma ideia tivesse que servir ao ideal do outro, para completar sua jornada de síntese. Quem ousa escrever para poucos? Essa é uma falácia que, quando dita inúmeras vezes, torna-se uma perigosa armadilha. Todo ato de escrever é pessoal, poderia se aventar como uma linha de defesa. Mas há algumas camadas que – felizmente – dificultam a vida daqueles que se baseiam em extremos. Aurora, de João Vieira Torres, longa vencedor do prêmio de melhor fotografia no Festival Internacional de Curitiba é um excelente estudo de caso nessa matéria. Na contramão de filmes formulaicos e genéricos que assolam nossas salas de cinema, o filme se desenha a partir de uma obsessão bem intimista do diretor.

Aparentemente, uma maldição recaiu sobre sua família, de origem sertaneja baiana, que persegue a figura do feminino de seus parentes. A ênfase na “figura do feminino” não é à toa: com uma abordagem também queer, João se inclui entre os amaldiçoados, mesmo não se auto reconhecendo ele mesmo, como uma mulher. O que pode soar ao leitor um convite a um filme de terror, merece uma ressalva. Aurora é também um filme de terror – mas sua inscrição extrapola o sentido duro dos gêneros. A maldição aqui mencionada é tão social quanto espiritual, tão política quanto etérea. Êxodos forçados, casamentos arranjados, comportamentos homofóbicos constroem a trama do feminino em Aurora, longe do lugar de sagrado, tão fortemente veiculado no imaginário religioso local. No limite, o feminino aqui é um fardo, obrigado a carregar o peso do mundo criado pelas artificialidades da tradição.

Manter, cultivar, criar e proteger – funções atribuídas as trajetórias das mulheres na sua família, que também reverberam na jornada pessoal de João, que no corpo de uma criança LGBTQIA+, desvia da sua função moral e social esperada. Aliás, qualquer desvio da imponente linha reta, tão imaculadamente planejada pelo padrão heteronormativo nos rincões da Bahia – e voltaremos a falar sobre isso – desagua, de forma inevitável, à desgraça. Assassinatos e desaparecimentos dão conta dessa ramificação na árvore genealógica de João, evidenciando mais uma vez a maldição que disparou a necessidade em fazer Aurora. Àquelas que se sujeitaram – de forma imposta e forçada, é claro – à lógica da função social de suas vidas fugiram da desgraça, mas encontraram também uma outra natureza violenta: a da dor e a da tristeza ocultadas e soterradas pela narrativa de “mulheres que deram certo”. Uma maldição, portanto, que encerra potencialidades dentro de um espectro acinzentado de alternativas. De um lado, a morte. Do outro, a tristeza. Mas João não se furta a retratar também as alegrias em meio às dores.

Até porque, como dito, Aurora não é só um filme de terror. É também um filme que celebra a resiliência, pois como podemos ver na sua metade final, outros laços de cumplicidade são também criados ao longo desse processo de apagamento ao feminino. Mulheres que também apoiam suas outras mulheres, mães que aceitam – mesmo que de forma reticente – a sexualidade considerada desviante do seu filho. Um tipo de afeto que grita resistência e que assim como a própria maldição, também guarda força, além de coragem e empatia. Eis portanto a chave desse filme: mesmo se propondo a revisar o passado – em uma perseguição tão obcecada pela dor – descobre – e se autodescobre – cercado por um véu de conforto e afago. Afinal, nem tudo é sombra. Essas subjetividades – tão maltratadas pelo tempo – também carregam brilho próprio, algo que mal nenhum foi capaz de sufocar. E ao fim, uma certeza tão firme encerra o filme: de que essa história não é tão particularista quanto parece ao olho descuidado.

Ela dialoga com inúmeras outras trajetórias, mesmo àquelas que não surgiram do agreste baiano. O lugar dessa história deixa de lado sua territorialidade para acessar outros planos – dentre eles, o espiritual e também o social. Todos nós carregamos – ou conhecemos alguém que carregou – as chagas dessa mesma maldição. E é por isso que Aurora brilha em sua proposta. Afinal, escrever para poucos aqui é uma armadilha que será vencida ao final do filme, para aqueles que realmente estejam dispostos a ouvir algo que pode parecer distante, mas que na verdade, está mais próximo do que parece estar. Aurora, que é o nome dado a sua vó parteira a quem ele sonha constantemente, e que serviu como gatilho para o retorno às suas raízes sertanejas, na verdade é só a linha que João puxa primeiro, para então, criar uma representação da sua genealogia que se constrói pelo afeto, pela transgressão e no fim, pela resolução. Não aquela que se encerra em si mesmo, mas aquela que triunfa sabendo que boas histórias não terminam, mas ecoam por muito tempo.

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