Por Mariana Moreira
Me lembro vagamente de assistir a esses dois filmes na TV aberta transmitidos pelo canal Disney Channel, se não me engano. Eis aí um irônico contraste, pois quando via “Querida, Encolhi as Crianças” ou sua continuação, tenho uma curta memória de não assistir aos filmes por inteiro, então o que me restava eram apenas alguns trechos de um ou de outro. Anos depois, com a curiosidade atiçada, resolvi vê-los no streaming e que bela dose de nostalgia que foi. Mesmo quando criança não tendo visto os dois filmes o suficiente para tê-los recordado, sempre fiquei pensado se eram tudo isso que falavam. E, na minha opinião, entregaram aquilo que eu estava esperando de maneira jeitosa.
O Quintal como Selva
Em “Querida, Encolhi as Crianças”, somos introduzidos ao excêntrico e atrapalhado inventor, Wayne Szalinski, interpretado pelo ator e comediante Rick Moranis que traz sua autenticidade, carisma e jeito simpático para o papel. O filme marcou a estreia do artista de efeitos visuais Joe Johnston como diretor (mais tarde, este dirigiria “Jumanji” estrelado por Robin Williams). A narrativa gira primordialmente em torno dos filhos de Wayne e os filhos do casal vizinho percorrendo literalmente rios e montanhas para atravessar o quintal de volta para casa e voltarem a seus tamanhos originais. O longa sabe muito bem entregar aquilo que promete em sua fórmula original, com um roteiro cativante e personagens distintos, como também efeitos visuais visionários, acabou sendo um sucesso de crítica e, inesperadamente, de bilheteria. Com isto, se tornou o live-action da Disney de maior bilheteria de todos os tempos, um recorde que manteve durante cinco anos. Não apenas me parece que toda a recepção calorosa em torno do filme se deve simplesmente aos fatores comerciais ou de divulgação, mas também pelo gênero de comédias com apelo familiar terem estado em alta no final dos anos 1980 e começo-meio dos anos 1990 e podendo ser considerado um gênero que nunca sai totalmente de moda por entregar filmes que despertam o interesse e curiosidade de diferentes tipos de público. O primeiro filme é um dos maiores exemplos de inovação visual, colocando em perspectiva a seguinte leitura cultural, ao demonstrar o encolhimento como metáfora da vulnerabilidade infantil e da necessidade de cooperação para sobreviver em um mundo hostil. Esse fator pode explicar uma narrativa ampla que mistura suspense, humor e fantasia. Cada detalhe banal – uma gota de orvalho, uma formiga, um biscoito recheado – ganha proporções monumentais. O resultado é uma experiência que coloca o espectador diante daquilo que o cinema faz de melhor: transformar o ordinário em extraordinário.
O Bebê Gigante e o Caos Urbano
Já em “Querida, Estiquei o Bebê”, a fórmula se inverte. Quando assistia a pedaços da sequência, me lembro de me divertir com o crescimento desproporcional do filho mais novo de Wayne Szalinski e as confusões que se resultam em torno disso. Embora não tendo atingido o mesmo nível de sucesso crítico e comercial e sendo levemente inferior ao seu antecessor, o segundo filme apesar de menos inventivo sabe manter o charme da premissa e reforça o caráter lúdico da franquia. Nele, o bebê Adam, atingido por uma onda de energia, cresce descontroladamente e passa a causar caos em Las Vegas. Semelhante ao primeiro, o filme foi lançado quando os efeitos visuais ainda estavam em estágio inicial. Portanto, a produção se apoiou fortemente em métodos tradicionais de efeitos visuais para criar a devida atmosfera e estética visual surpreendentes que o espectador vê. Um detalhe interessante entre o filme original e a continuação é a transição entre os efeitos práticos dos anos 1980 e início da era digital nos anos 1990, o que cria um contraste histórico entre as épocas de produção dos dois filmes. Mesmo voltado mais para o humor físico e pastelão, ainda assim o longa privilegia o espetáculo visual sobre a densidade dramática, apostando igualmente na sátira da vida urbana. Contrário ao filme anterior, neste o crescimento pode ser interpretado como metáfora da expansão da infância e dos medos parentais diante do imprevisível. Uma curiosidade que pode passar despercebida é que o segundo filme da franquia introduziu Keri Russell em um de seus primeiros papéis no cinema, antes de se tornar uma atriz conhecida por grandes produções como a série da Netflix “A Diplomata”.
Tanto “Querida, Encolhi as Crianças” quanto “Querida, Estiquei o Bebê” permanecem como cápsulas culturais em uma era em que o cinema familiar ousava brincar com a imaginação tecnológica. São filmes que, ao revisitar hoje, revelam tanto a nostalgia dos efeitos práticos quanto a eterna fascinação pelo extraordinário escondido no cotidiano. Ambos dialogam com o imaginário científico da época, em que invenções mirabolantes e experimentos domésticos se tornavam metáforas para os desafios da vida familiar. Entre o microscópico e o gigantesco, os filmes revelam como a tecnologia pode ser tanto ameaça quanto oportunidade de crescimento – literal e simbólico.