Por Lucas Costa
Este é o filme que melhor faz jus, a meu ver, aos altos parâmetros estabelecidos por Pânico e isso não é pouca coisa.
Desde o lançamento do clássico de Wes Craven e Kevin Williamson, em 1996, o Neo-slasher alçou-se a uma nova febre que não pôde se manter por muito tempo. Afinal, a fórmula do assassino mascarado que persegue um grupo de amigos jovens e mata um a um, geralmente, em um curto espaço de tempo, acabou se esgotando rápido logo após a inventividade de obras como Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado e Premonição. A década seguinte acabou marcada por remakes sem muito brilho de clássicos dos anos 80, por um lado, e a exploração ad infinitum da nova fórmula, de assassinos deformados na floresta a loopings temporais, por outro, pendendo ora para o cinismo da autoparódia pós-moderna, ora para uma seriedade estanque que dispensa elementos essenciais do gênero.
Morte Morte Morte, primeira parceria da diretora Halina Reijn com a A24, soube trabalhar com esse esgotamento e conservar o coração do Neo-Slasher para espelhar o aspecto mais feio da Geração Z.
Tudo começa quando Bee viaja para conhecer os velhos amigos de sua nova namorada, Sophie, que estão festejando durante a passagem de um furacão até que, claro, as coisas começam a dar errado. De cara, somos apresentados a tipos específicos: Gregg, o cara mais velho e “good vibes”; David, dono da casa, garoto mimado, invasivo e ególatra; Alice, uma podcaster falastrona e espalhafatosa; Jordan, conserva um ar contido e hostil como uma espécie de bastião da moral; Sophie tem problemas com drogas e esconde suas recaídas. Todos muito ricos e ociosos, com excessão da própria Bee.
Está coreografado o jogo de forças que move a trama entre estas personalidades fúteis, às vezes impulsivas e explosivas, seus conflitos de relacionamento e a incapacidade de uma elaboração crua e honesta da linguagem. Fazem parte de uma geração deslocada do mundo dos adultos. A principal força do filme está aqui. O terror tem lugar privilegiado em condensar as angústias específicas de cada época e os demônios com os quais cada geração deve lutar, sejam eles as guerras, doenças venéreas, o consumo ou a sexualidade. É assim desde Nosferatu e sua detecção do antissemitismo, foi assim com os Giallo e a urbanização da Itália pós-guerra e também com Pânico e as metamorfoses das relações sexuais e de gênero na década de 90. Em Morte Morte Morte, os personagens fazem parte estão deslocados do mundo dos adultos sem ferramentas para lidar com a realidade. Estão crônicamente online e tiram das dinâmicas das redes sociais o padrão medida para a ética da própria vida.
Por este mesmo aspecto, o filme é engraçado sem tornar-se, exatamente, uma comédia. Não é um “terrir”. Mas no simples retrato do conjunto de hábitos e valores faz com que seus personagens soem como caricaturas sem que o sejam. É uma certa imbecilidade indispensável para o terror funcione e, ao mesmo tempo, espelho ingrato de certa juventude.
Entre acusações e inseguranças, todas essas máscaras que escondem coisas comuns e fúteis vão caindo, mas isso é demais para esses jovens. Há um Foreshadowing no começo do filme em que uma das personagens volta ao carro para usar o espelho e, depois que ela sai, vemos a câmera se aproximar do espelho com um adesivo de “Perigo” logo ao lado, mostrando que realmente as relações pautadas no culto e proteção da imagem serão determinantes para o caos.
Pois, em Morte Morte Morte, o assassino é a própria fragilidade das gerações Z e Millenial diante de sua inserção particular na Sociedade do Espetáculo, essa geração que produz o Espetáculo de si mesma para não olhar-se verdadeiramente no espelho e que tem na cultura do cancelamento que reina na internet o palco para sua violência cega. No filme, as frases “ele tem a lua em libra, logo não pode ser o assassino” ou “eu me afastei de vocês porque vocês me dão gatilho” são realmente levadas a sério e isso soa verossímil porque nossa geração também leva isso a sério.
Um filme tenso sem deixar de ser engraçado e levando a sério o seu elemento ridículo enquanto mantém os personagens verossímeis, Morte Morte Morte honra a tradição do terror autoconsciente ao elevar essa estupidez das redes sociais que esconde a nossa incapacidade de lidar com o mundo, em uma assassina implacável que nos mata pelas nossas próprias mãos.