Projeto A Sala

Críticas

Vidas ao Vento (2013)

Por Lucas Costa

À maneira dos romances filosóficos do século XX, Vidas ao Vento coloca em relevo as relações humanas em suas minúcias, de um lado, e os grandes conflitos histórico – mundiais, de outro,  contando uma história de guerra e de amor, de doença e de sonho. É a obra que sintetiza as principais características e preocupações de Miyazaki situando-se no tempo histórico e costurando-se por acontecimentos reais: o grande terremoto de 1923, a Segunda Guerra Mundial, a figura de Jiro Horikoshi. Ao mesmo tempo, desde a epígrafe retirada de um poema de Paul Valéry, cujo livro, é ponte para o encontro entre Jiro e Nahoko, até as incursões n’A Montanha Mágica de Thomas Mann, a literatura funciona como uma clave na partitura, balizando os principais temas e sua temperatura.

A epígrafe, “O vento se ergue, devemos tentar viver”, ecoa o centro de gravidade de toda a obra do autor, a exemplo de uma outra frase dita em Princesa Mononoke. “Estamos todos amaldiçoados, mas ainda desejamos viver” – diz o leproso cuidado por Lady Eboshi. Essa dualidade, as múltiplas facetas do conflito entre tecnologia e natureza que atravessa e ultrapassa o ser humano, onde bem e mal, pureza e corrupção, violência e altruísmo não operam à partir de uma lógica maniqueísta.

Ao contrário, ali a fortaleza de Lady Eboshi é uma imagem da civilização moderna e suas contradições assim como a aviação o é em Vidas ao Vento e assim como a própria animação é para Hayao Miyazaki. Para além de seu interesse pessoal nos aviões, as muitas declarações negativas do autor em relação à artificialidade e degeneração dos animes e de algumas das novas tecnologias usadas na sua criação evidenciam sua aproximação com o protagonista sob o signo do sonho que se tornou amaldiçoado, mas ainda é apaixonadamente perseguido.

É conhecida a imagem de Walter Benjamin onde o progresso é uma tempestade que sopra, incessantemente, em direção ao futuro, deixando para trás o passado em ruínas em que o encadeamento de acontecimentos históricos pode ser visto como uma única e grande catástrofe. Essa imagem ilustra o desenvolvimento técnico desenfreado, ideologicamente, estimulado e pensado como autônomo enquanto, na verdade, guarda estreito vínculo com as necessidades do acúmulo irrestrito de Capital, este sim, verdadeiro padrão de medida das relações entre tecnologia, natureza e sociedade.

Quando a razão deixa de pensar a legitimidade de seus fins e meios e abandona a reflexão sobre valores para limitar-se a cálculo, eficiência e utilidade, já não importa se o que está sendo desenvolvido é uma arma de guerra com potencial para destruir uma cidade inteira. A isso, os pensadores da Escola de Frankfurt chamaram Razão Instrumental. Nesse modus operandi, natureza e civilização convertem-se em objeto a ser dominado e explorado sem escrúpulos em nome do progresso e o Capital, nesse quadro, atua como o único sujeito verdadeiramente autônomo. A Guerra e o Nazismo são dois dos resultados desse excedente de material.

Vale lembrar que não apenas a ciência passa por esse processo mas também a cultura e, portanto, a feitura das obras de arte. Cada vez menos autônomas, dão lugar à produção industrial de bens culturais para consumo rápido e que reificam comportamentos e subjetividades estereotipadas.
Através da biografia fictícia e romanceada do designer do caça japonês, Hayao Miyazaki é um animador refletindo sobre o próprio ofício e sobre o destino muitas vezes sombrio dos empreendimentos humanos mais apaixonados.

Toda a preocupação do filme com o detalhe e a minúcia, das lágrimas aos parafusos, está condensada e contém todo o embate desses grandes temas na retidão e disciplina de seu protagonista. Jiro tem em si um mundo de sentimentos e desejos que, sem explosões ou melodramas, são obstinadamente buscados. Quando as duas tramas se encontram sob a égide do Destino aos moldes da Tragédia Grega, é em sonho que seu mentor o convida para tomar vinho e sua amada o instiga a continuar a viver, repetindo a frase da epígrafe para concluir a jornada.

Através de Jiro, experienciamos, a um só tempo, com profunda paixão e frieza estóica, nosso itinerário pelos conflitos da existência moderna coletiva. Mesmo após os mais contundentes fracassos, o espectador é guiado à catarse pela disciplina em celebrar a vida na construção insistente dos sonhos – seja o de voar ou o de fazer belas animações.

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