Por Lucas Costa
Na base de todo projeto dedicado a instaurar o sonho americano há um reservatório subterrâneo para aqueles condenados a habitar suas margens, relegados à condição das ruínas do que não coube no espetáculo.
Projeto Flórida, de Sean Baker, compõe uma partitura da precariedade que sustenta a sociedade estadunidense ao retratar o cotidiano de um conjunto habitacional no Estado famoso pela presença da disneylândia.
Por meio de planos longos e demorados que assimilam uma vida repetitiva, arrastada e de poucas possibilidades além do mostrado, adentramos naquele mundo pelo ponto de vista de Moonie, cujas tardes de brincadeiras com os amigos tem a potência de dissolver qualquer projeto civilizatório como uma verdadeira máquina de guerra deleuzeana. Sua visão infantil não organiza o mundo, mas o experimenta de modo que a criança não é a promessa de um futuro moral mas uma força de rearranjar da realidade diante da conflituosa apatia dos adultos. A árvore onde brincam e a frase da garotinha são a imagem para sua função e, pela tangente, da dinâmica de todos no entorno: está tombada mas continua crescendo.
Baker acerta em não moralizar e nem psicologizar ou exceder em melodrama. A tridimensionalidade e a ambiguidade das personagens são retratada sempre em relação àquela partitura sistêmica, mostrando ação e reação, de modo que não impede de serem, também, tipos: sobrevivem àquele mundo da forma que podem ao mesmo tempo em que o conservam.
Então, ainda que faltem ações transformadoras, a figura de Moonie impede que Projeto Flórida seja mero retrato da miséria. A ruptura final pode ser lida tanto como fuga criadora quanto como fantasia escapista, mas não deixa de emocionar o espectador por seu espírito ingênuo, amoral e inconformado.