Por Lucas Costa
Mesmo não sendo o primeiro, este talvez seja o filme paradigmático do Mumblecore, reunindo com muita clareza e, a meu ver, excelência, todas as principais características do movimento e contando com umas melhores atuações de uma jovem Greta Gerwig.
Hannah Take The Stairs é uma dramédia intimista de caráter experimental, permeada de improviso, imersiva e inteligente. Acompanha a recém formada Hannah e seu itinerário de insatisfação amorosa entre três rapazes enquanto não sabe o que fazer da vida. Para os fãs de certo segmento da cultura pop, soa quase mágico por contar com vários dos principais nomes do cinema underground americano da época ainda em começo de carreira – Gerwig, Mark Duplass, Kent Osborne, Joe Swanberg – juntos em uma obra colaborativa e de baixíssimo orçamento.
O filme é errático, superfícial, impermanente em um bom sentido. A não ser pela mudança de interesse amoroso, nada progride, como se suas partes pudessem estar em outra ordem sem, com isso, afetar a forma final. Hannah pula de relação em relação sem expressar motivação alguma, sem que nenhum drama ou psicologia seja aprofundado.
Espelho da inaptidão para a vida adulta, a protagonista desliza na superfície onde suas emocões estão expostas e o pensamento escondido. Gerwig condensa nas expressões, na voz, no corpo errante a subjetividade incerta e evasiva da sua personagem, de modo que podemos ver o embate de idéias confusas que se passa internamente. Ela se aproxima e se afasta, experimenta, se empolga e entedia-se. É, de fato, um tanto incômodo. Isso chateou, na época, alguns críticos da ShortEnd Magazine que disseram ser uma personagem com a qual você não se importa. Não existe aqui, um arco dramático tradicional em que a personagem se transforma ao final.
Ao contrário, Hannah, atravessa suas experiências sem, essencialmente, mudar. Ela descreve um contínuo de variação e experimentação que não se conclui com a formação de um Eu ao fim de uma jornada. A obra tem estilo contemplativo e organiza sua narrativa de modo que surja um tempo de duração, um tempo afetivo, mais do que cronológico, causando um efeito imersivo por seu realismo íntimo e seus planos demorados. Também os diálogos não explicam ou avançam, funcionando quase como colagens, independentes da trama e dando conta de uma vastidão de assuntos que emergem da situação, embora sejam o principal motor para nos colocar naquele mundo e apresentar seus habitantes.
O resultado é um cativante filme Millenial em cada um dos seus aspectos. A pós modernidade se caracteriza, entre outras coisas, por sujeitos sem lastros firmes com o mundo que navegam por relações frágeis e fragmentadas, encapsulados em seus pequenos ecossistemas. As personagens tem trejeitos estranhos, movimentos inesperados e sem sentido somados à mencionada falta de motivação. O naturalismo radical do estilo se transforma na captura da vida de uma geração sem habilidade para a vida adulta que navega irregularmente à mercê das suas emoções mais imediatas.