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Críticas

Onibaba - A Mulher Demônio (1964)

Por Lucas Costa

Enquanto em 1964 o Japão se preocupava em transmitir ao mundo uma imagem moderna, limpa e economicamente estável sendo, inclusive, palco das Olimpíadas, Kanedo Shindô filma uma realidade miserável e moralmente ambígua em Onibaba, retratando o Japão medieval para iluminar aspectos obscuros da condição do país no pós-Guerra.

O filme acompanha duas mulheres, nora e sogra, habitando um pântano de juncos, em situação de luto, e que sobrevivem matando e saqueando os pertences de samurais remanescentes da guerra da guerra civil que cruzam seus caminhos, até que um homem aparece e desestabiliza a relação entre as duas por despertar seu desejo.

O cenário, o som, a excelente fotografia e as atuações constroem um clima único de desconforto e apreensão onde o o espaço se relaciona – e torna público -, o mais íntimo da vida daquelas personagens fazendo com que a interioridade emocional esteja constantemente exposta. Os close-ups têm papel fundamental, aproximando a obra da linguagem do terror, mas também como veículo dessas forças que movem o conflito.

Em nenhum momento vemos a guerra de fato. Vemos seus resíduos, escutamos seus sons. Vemos os corpos cansados e os restos morais e materiais. A honra e o heroísmo, tão característicos da vida espiritual japonesa pré-Guerra estão esgotados. As personagens falam das dificuldades de matar em uma guerra e evidenciam seus momentos de covardia, suas fugas. A vida espiritual também é reduzida à sua condição animalesca, onde anda-se em círculos para garantir as necessidades materiais básicas à sobrevivência e qualquer resquício de prazer se mostra como gota de água no deserto.

Após a Segunda Guerra Mundial e a invasão estadunidense que sofre o Japão, o país passa por uma série de abalos que transforma Espírito de sua nação. Havia a crença de que o imperador descendia diretamente dos deuses, plenamente enraizada entre a população e que o general norte americano obrigou o próprio imperador a desmentir em uma transmissão radiofônica. Dois polos que fundavam a base de sua cultura, a firmeza militar e a delicadeza, dão lugar à sistemática ocidentalização e ao monstruoso desenvolvimento tecnológico que vieram a desfigurar sua noção de identidade. Ao filmar o deserto que rondava que a guerra civil do período medieval, o esvaziamento dos seus corpos e valores, Shindô torna evidente os resultados da Guerra Mundial em seu povo.

A máscara, núcleo catalizador dos múltiplos significados da obra, é um elemento inspirado no teatro Nô. Neste teatro, cuja característica é a precisão na transmissão das emoções de maneira firme e econômica, a máscara retrata, simultaneamente, humanos, espíritos e animais, a depender do jogo de luz e comumente usada na transformação de humano em demônio.

O filme larga o suspense e abraça o terror – sem, em nenhum momento, deixar de lado uma pitada de humor cruel – no momento em que a sogra se funde à máscara. O desejo e a morte, Eros e Tânatos, fundem-se em uma metáfora moral trágica onde o verdadeiro terror é a prisão na condição demasiadamente humana.

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