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Críticas

Valor Sentimental (2025)

Por Mariana Moreira

Estava muito curiosa para conferir este filme desde que soube mais dele e realmente é tão bonito e profundo como eu estava esperando. Não sou uma grande consumidora do cinema europeu, mas sou obrigada a reconhecer o nível de qualidade e cuidado de suas narrativas, além de o continente europeu ter algo semelhante ao Brasil ao contar com um grande número de patrocinadores para dar vida às obras cinematográficas, algo que particularmente considero uma iniciativa nobre e necessária, ainda mais para os cineastas em começo de carreira ou independentes.

Valor Sentimental é um longa norueguês do gênero dramático dirigido por Joachim Trier, que também assina o roteiro junto de Eskil Vogt. As obras de Trier foram descritas como “meditações melancólicas preocupadas com questões existências de amor, ambição, memória e identidade.” Mesmo Valor Sentimental sendo o primeiro filme de Trier a que assisti, de fato posso afirmar com toda convicção que em apenas um filme dentre tantos outros as questões que costumam ser retratadas em suas obras são retratadas de forma autêntica e realista, sem apelar para o melodrama.

Algo que descobri logo após assistir ao filme são suas semelhanças com a obra anterior de Joachim Trier, intitulada A Pior Pessoa do Mundo. A principal ligação é a parceria criativa da equipe técnica e artística, focando em dramas familiares complexos, traumas e relações humanas profundas. Enquanto A Pior Pessoa do Mundo focava nas crises existenciais e relacionamentos da juventude, Valor Sentimental explora o legado do trauma e um relacionamento conturbado entre pai e filhas.

O principal fator responsável pelo andamento e funcionamento do longa está na metalinguagem. Trier utiliza o cinema como ferramenta narrativa em Valor Sentimental, com personagens ligados à produção artística, reacendendo conflitos familiares. 

Na minha opinião, o que mais merece destaque diante de uma produção incrível são as atuações. Certamente conhecia Stellan Skarsgård de demais filmes da indústria americana, mas neste papel o ator se aproxima mais de suas raízes de nascença ao abordar um cineasta veterano do cinema que parece ter colocado sua carreira como prioridade e nisso, criaram-se feridas nunca totalmente cicatrizadas na relação com suas filhas. O ator ganhou o Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante e, honestamente seguindo minhas apostas, acho que não apenas deve como merecia levar para casa o Oscar nesta mesma categoria. As atrizes do cinema norueguês Renate Reinsve e Inga Ibsdotter Lilleaas são rostos que foram introduzidos a mim através deste retrato sensível são o conforto em meio às relações familiares que foram distanciadas e receberam suas primeiras indicações ao Oscar de Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante, respectivamente.

O longa aposta em uma direção e fotografia intimistas, complementadas por uma trilha sonora discreta e foco nos dramas íntimos. O que mais me pareceu como ponto forte para engrenar a narrativa não foram tanto os aspectos técnicos, mas principalmente o uso dos diálogos e emoções transbordadas entre os personagens em muitas cenas. A ambientação e estética visual são outros elementos que reforçam a tensão familiar, com maior uso de planos fechados e foco em um ambiente específico. Neste caso, o uso de espaços fechados serve também para intensificar a carga emocional.

Assim como obras anteriores da filmografia de Joachim Trier, Valor Sentimental tem como fio condutor da narrativa um forte viés psicológico, com temas principais como: relações familiares e ressentimentos, ambição, legado e reconciliação e o choque cultural com a presença da atriz americana. Aí que entra a personagem de Elle Fanning, que forma por último uma das pontas do losango dentro do convívio familiar. Estava esperando um papel que demonstrasse uma atriz arrogante e pretensiosa, mas Fanning interpreta uma jovem que por mais que sonhe alto em termos de carreira, ainda assim tem a percepção e bom-senso de saber se deve mesmo ir a fundo em um projeto que fora pensado sob uma perspectiva especialmente pessoal.

Estava de fato esperando um filme que trouxesse um retrato belo e humano de como mesmo as relações familiares podem ser complexas, mas com um pouco mais de compreensão, abertura e empatia é possível reestabelecer aos poucos os laços que haviam sido rompidos e pode-se começar como um novo convívio com tanto significado quanto anteriormente. Recomendo este filme não apenas para quem gosta de dramas familiares e cinema europeu contemporâneo, mas para quem se identifica ou procure uma história que consiga sem exageros mostrar que errar é humano, mas reconhecer tal erro e tentar se remediar como ser humano, isso ainda pode ser algo raro.

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