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Críticas

A Mão Assassina (1999)

Por Lucas Costa

Revisitar Mão Assassina quase trinta anos depois de seu lançamento é encontrar um documento deliciosamente fiel do que era a cultura pop ao final da década de 90. Uma comédia de horror que consegue ser bastante única e, dentro dessa singularidade, manter-se um testemunho estético do clima e da personalidade da época.

Anton, interpretado por Davon Sawa, é um jovem colegial maconheiro e preguiçoso que, ao dar-se conta da morte dos pais (um tanto tardiamente), percebe que sua mão ganhou autonomia diabólica e, agora, anda cometendo assassinatos por aí. Ele conta com a ajuda dos amigos Mick (Seth Green) e Pnub (Elden Henson) para quebrar a maldição a tempo de proteger seu interesse amoroso, Molly, interpretada por Jessica Alba.

Em 1996, Pânico revitaliza o terror com um filme jovem, engraçado e autoconsciente, desencadeando uma breve, mas significativa onda de “neo-slashers” como Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado, Prova Final, Lenda Urbana, Comportamento Suspeito e Medo em Cherry Falls. Todos estes filmes subvertendo, em algum grau, a etiqueta de regras do slasher clássico à partir da assimilação das ansiedades e transformações da época, como a popularização da internet, a ampliação do debate sexual e a intensificação da mídia massiva e sensacionalista que teve como paradigma o caso OJ Simpson.

Mão Assassina surfa essa onda enquanto coloca-se ao lado de uma outra. American Pie, lançado no mesmo ano de 1999, gera um outro “boom” das teen comedys com forte teor sexual, humor escrachado e arcos de amadurecimento em meio a aventuras absurdas e picarescas.

Como resultado, segue-se uma obra  de comédia absurda com elementos de slasher que, a seu modo, é, também, um filme de zumbis e terror sobrenatural; um filme de amigos desajeitados se metendo em enrascada por conta de um interesse amoroso onde todos os caminhos culminam, claro, no baile de Halloween da escola; uma stoner comedy onde as principais piadas e o clima do humor passa pelo elemento cannábico como ficou fixado por Cheech e Chong.

Enquanto abundam a escatologia e os elementos de gore com as mortes bizarras e erupções sangrentas, a temperatura das atuações, preocupações e interações entre as personagens está sempre mais próxima da teen comedy. Rodman Flender já havia dirigido um episódio de Dawson’s Creek, “The Scare”, uma paródia de Pânico e, também, alguns episódios do terror Contos da Cripta, que contava com tiradas sarcásticas no começo e fim de cada episódio e se ancorava na construção de uma atmosfera única de estranhamento e mistério. 

Daí tira o clima genuinamente adolescente e aquela ambientação esquisita e sombria reforçada pela prevalência da iluminação verde que preenche a obra.

A trilha sonora é escolhida a dedo para espelhar estes mesmos dois aspectos e reforça ainda mais a ancoragem histórica da obra. O Nu Metal e o pop punk eram os gêneros de rock em alta. O primeiro, com guitarras simples e pesadas, percussões marcantes e mistura com hip-hop era a atração principal do Woodstock 99. Enquanto o segundo contava com lançamento recente de Enema of State, do Blink-182 e começava a tomar conta das paradas do mundo com bandas como Jimmy Eat World e Sum 41. Os dois oscilavam entre a introspecção, o drama familiar, a depressão e o desajuste social, por um lado, e a festa, a despreocupação, irrupção da libido e a cultura de rua, por outro.

O Nu Metal e o pop punk eram dois pólos da personalidade jovem, majoritariamente masculina, que expressava seus traumas mais profundos ao mesmo tempo que suas preocupações mais fúteis, como conseguir uma namorada ou ir às festas. No filme, White Zombie e X-Factor ditam uma vibe mais pesada enquanto o Offspring é a banda que toca no baile da escola. Além disso, Tom Delonge, vocalista do Blink-182, aparece rapidamente em uma das cenas.

Com toda essa heterogeneidade consciênciente e bem amálgamada, Mão Assassina ainda conseguiu fazer-se, de maneira ácida e despretensiosa, uma metáfora moral e crítica do hedonismo impulsivo do jovem colegial ocioso.

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