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Críticas

Jogos de Guerra (1983)

Por Mariana Moreira

É tanto algo impressionante quanto chocante pensar que um filme há mais de quarenta anos pôde de certa forma “prever” os próximos passos que a tecnologia iria dar. Lançado em 1983 Jogos de Guerra trouxe Matthew Broderick e Ally Sheedy como típicos adolescentes americanos que ao ultrapassarem os limites humanos do que os computadores os oferecem, se descobrem envolvidos em uma intriga governamental que pode dar início a um novo conflito militar. Diante desta situação nos perguntamos, o que aconteceria se um simples jogo colocasse o mundo à beira da destruição nuclear?

David Lightman (Matthew Broderick) é um adolescente curioso e habilidoso com computadores. Ao tentar invadir sistemas para acessar jogos, acaba entrando em um supercomputador militar norte-americano. Sem perceber, inicia uma simulação de guerra nuclear que o Pentágono acredita ser real. Agora, David, ao lado da colega Jennifer (Ally Sheedy), precisa provar sua inocência e impedir que o mundo seja destruído por um erro tecnológico.

Três anos antes de ganhar notoriedade por seu papel como Ferris Bueller, aqui Matthew Broderick entrega uma performance convincente e real, sendo que suas habilidades com computadores serviram para popularizar o arquétipo de personagens considerados “hackers”, além de ter influenciado debates sobre segurança digital.

Ironicamente, ou nem tanto, o longa não apenas mantém profunda relevância atualmente, como na época de seu lançamento trouxe às telas uma história que misturava suspense, tecnologia e política internacional em um momento em que o medo de um conflito nuclear realmente pairava sobre o mundo. Dirigido por John Badham, Jogos de Guerra não foi responsável por apenas entreter milhões de espectadores, mas por também levantar questões sérias sobre o poder dos computadores e os riscos da automação militar.

 

Além disso, o longa foi lançado durante a Guerra Fria, momento de tensão política entre Estados Unidos e União Soviética. Neste sentido pode-se ser considerado tanto uma provocação quanto um gesto de ousadia e coragem de Hollywood ao tentar mesmo que de maneira ficcional representar tais temas no cinema, sendo que graças a corrida armamentista e o avanço da informática criava-se um cenário propício para histórias sobre máquinas que poderiam decidir o destino da humanidade. Jogos de Guerra reflete tanto o fascínio quanto o medo da sociedade diante da crescente dependência de computadores, assim como sua popularidade deva seu crédito também ao avanço da informática nos anos 80.

David Lightman representa tanto a curiosidade juvenil quanto a falta de consciência e ética sobre as consequências de suas ações. O computador WOPR simboliza a frieza das máquinas diante das decisões humanas. O personagem foi inclusive inspirado em um hacker da vida real chamado David Scott Lewis, que como é de se imaginar, não tem permissão de discutir se realmente conseguiu hackear um computador militar ou não. Um detalhe curioso é que o ato de hackear na verdade não era considerado ilegal quando o filme foi lançado. Isso apenas aconteceu ao ser aprovada a Lei Abrangente de Controle do Crime em 1984, sendo posteriormente expandida a Lei de Fraude e Abuso de Computadores em 1986. Outras curiosidades incluem inspiração em casos reais de invasão de sistemas, repercussão na mídia e governo dos Estados Unidos a ponto de reforçarem seus sistemas de segurança e detalhes de bastidores, como o uso de computadores reais da época dentro da produção.

A direção mantém um ritmo ágil e envolvente, equilibrando tensão e humor adolescente. Enquanto isso sua atmosfera contém uma trilha sonora e cenários que reforçam a sensação de urgência e paranoia. O filme foi indicado a três estatuetas do Oscar, incluindo Melhor Roteiro Original e ganhou o BAFTA na categoria de Melhor Som.

 

O que mais me surpreende dentro de uma produção vinda da indústria do entretenimento é a capacidade de criar e narrativas que não apenas nos entretém, mas nos trazem reflexões sobre temas presentes naquele momento e até mesmo, são capazes de apresentar discussões sobre questões futuras.

No caso de Jogos de Guerra, este é mais do que um thriller adolescente: é uma obra que antecipou debates sobre cibersegurança e inteligência artificial. Mais de quatro décadas depois, sua mensagem continua atual – afinal, ainda nos perguntamos até que ponto podemos confiar nossas vidas às máquinas.

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