Projeto A Sala

Críticas

Ensina-me a Viver (1995)

Por Mariana Moreira

Alguns filmes passam despercebidos, sendo descobertos tempos depois, outros recebem atenção demais ou ganham uma reputação de viverem no esquecimento. Se escrever um roteiro audiovisual costuma ser algo que envolve um trabalho duro, adaptá-lo tendo como fonte principal uma obra literária é algo ainda mais desafiador, ainda mais quando quer se fazer aquilo com cuidado e fidelidade. Ensina-me a Viver ou The Grass Harp em seu título original, pode ser considerado um dos exemplos de obras cinematográficas que embora não tenham gerado tanta notoriedade da parte da crítica ou bilheteria, são lembradas com afeto pelo público por abordarem determinada obra literária com sutileza e um certo charme que de início não parece tão óbvio.

O longa teve sua estreia no TIFF (Toronto International Film Festival) em setembro de 1995, sendo lançado nos Estados Unidos em outubro do ano seguinte. Contou com a direção de Charles Matthau. Baseado na obra literária homônima de Truman Capote, o roteiro é adaptado da peça teatral pelo ganhador do Oscar Stirling Silliphant, sendo este seu último trabalho. A narrativa acompanha Collin Fenwick (Edward Furlong), um jovem órfão que vai morar com duas primas solteiras em uma pequena cidade no sul dos Estados Unidos nos anos 1930. Entre a rígida Verena (Sissy Spacek) e a sonhadora Dolly (Piper Laurie), Collin encontra refúgio em um mundo de imaginação e afeto. Quando Dolly decide se rebelar contra a tirania da irmã, ela, Collin e a perspicaz empregada Catherine (Nell Carter) passam a viver em uma casa na árvore, criando uma comunidade alternativa marcada por liberdade e poesia.

O elenco reúne nomes de peso: Piper Laurie transmite ternura e fragilidade como Dolly, enquanto Sissy Spacek dá vida a autoritária Verena, criando um contraste entre as personagens que embora tenham um parentesco próximo, têm personalidades significantemente distintas. Edward Furlong encarna a inocência e vulnerabilidade juvenil de Collin.

Isso sem contar com participações marcantes de Walter Matthau, Jack Lemmon e Mary Steenburgen, que trazem riqueza à trama com interpretações sensíveis e reforçam o caráter coral da narrativa.

Charles Matthau imprime ao filme um tom nostálgico e contemplativo. A fotografia de John A. Alonzo privilegia cores suaves e paisagens bucólicas, mantendo uma atmosfera de conto de fadas. O ritmo é deliberadamente lento, convidando o espectador a mergulhar nos silêncios e nos detalhes, em sintonia com o espírito literário da obra de Capote. Esta escolha estética, por mais que possa afastar parte do público acostumado a narrativas mais dinâmicas, é justamente o que dá ao filme sua cadência tranquila onde encontra força poética.

Entre os temas centrais, destacam-se a infância e a imaginação, representadas pela casa na árvore como espaço de liberdade criativa; os conflitos familiares, que revelam diferentes visões de mundo e de afeto; e a memória, que permeia toda a obra como uma ode às lembranças e às pequenas histórias que moldam a vida. Capote, em sua novela, buscava capturar a música invisível das experiências humanas, e o filme procura ecoar essa melodia através da delicadeza das imagens e dos diálogos, além de ser conduzida com sintonia pela trilha sonora instrumental de Patrick Williams.

Embora não tenha alcançado grande sucesso comercial, The Grass Harp foi reconhecido por sua fidelidade ao espírito da obra literária de Capote e pelo elenco estelar. Alguns críticos apontaram o ritmo lento como um desafio, mas também destacaram a sensibilidade da direção e atmosfera poética como qualidades que tornam o filme uma experiência única.

The Grass Harp é uma produção que se destaca por sua sensibilidade e olhar carinhoso sobre a infância, a família e a memória, assim como centralizar a ânsia pela liberdade e a força poética. Uma obra que, mais do que contar uma história, busca transmitir uma sensação: de ouvir a “harpa da relva” que ecoa nas lembranças e nos afetos de cada espectador.

O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.