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Projeto A Sala

Críticas

Pele de Rinoceronte (2026)

Por Marcelo Paiva

Os ecos de um feminicídio vivido por dois ângulos diferentes

Dirigido por Marcello Ludwig Maia, Pele de Rinoceronte parte de um caso inspirado no assassinato de Angela Diniz, nos anos 1970, mas escolhe não reconstituí-lo. O crime já aconteceu quando a história começa. O que interessa é a repercussão desse caso e a forma como ela alcança duas mulheres que passam a lidar com ele por lugares muito diferentes.

Uma delas é uma jornalista, vivida por Débora Falabella. A outra é uma advogada criminal, interpretada por Naruna Costa. É por meio delas que o filme acompanha os desdobramentos de um feminicídio e, sobretudo, a violência de uma defesa sustentada pela tese da “legítima defesa da honra”.

A força do filme está na distância entre essas duas personagens e no modo como essa distância vai diminuindo sem que elas precisem dividir a cena. A jornalista começa olhando para o caso como parte de seu trabalho, até perceber que aquela violência também encontra correspondências em sua própria vida. A advogada, uma mulher preta e mãe, enxerga no julgamento algo que ultrapassa aquele processo e alcança o futuro das filhas.

É um recorte especialmente fértil porque a história se passa em um momento em que a violência doméstica ainda ocupava outro lugar no debate público e na própria Justiça. O caso vai ganhando novos sentidos à medida que essas mulheres também passam a enxergá-lo de outra forma. O que parecia restrito à intimidade de um casal se revela parte de algo muito mais amplo, presente nas relações, nas instituições e na maneira como a violência contra mulheres era aceita e justificada.

Nesse movimento, Pele de Rinoceronte também encontra uma ideia de sororidade bastante potente. Ela não nasce de uma aproximação direta entre as personagens, mas de uma espécie de reconhecimento à distância. As duas chegam ao mesmo problema por caminhos distintos e, de alguma forma, passam a se perceber dentro dele.

A estrutura, no entanto, nem sempre acompanha a força dessa ideia. O filme é muito dependente dos diálogos e, em alguns momentos, essa escolha deixa a narrativa excessivamente explicativa. O ritmo perde fluidez, e certas cenas parecem carregar sozinhas uma intensidade que o restante do filme não consegue sustentar. Surge, então, a sensação de um material que talvez encontrasse mais precisão em uma duração menor.

Ainda assim, Pele de Rinoceronte funciona melhor quando confia nessas pequenas aproximações entre o caso e a vida de suas personagens. Há uma delicadeza interessante na maneira como o filme mostra que um crime nunca termina apenas no fato em si. Ele continua produzindo efeitos, mudando percepções e revelando violências que já estavam ali, muitas vezes naturalizadas. É nessa observação que o longa encontra sua leitura mais forte, mesmo que a forma nem sempre consiga acompanhá-la com a mesma precisão.

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