Por Marcelo Paiva
Uma cinebiografia atropelada pelas próprias metades.
Antes de qualquer coisa, existe uma informação fundamental para entrar nesse filme: ele parte do livro Se Não Eu, Quem Vai Fazer Você Feliz?: Minha História de Amor com Chorão, escrito por Graziela Gonçalves. Portanto, embora Chorão esteja no centro da narrativa, a proposta nunca foi exatamente construir uma cinebiografia tradicional sobre sua trajetória. O filme nasce do olhar de Grazi e do relacionamento que os dois viveram. Esse recorte é legítimo e poderia, inclusive, produzir um retrato muito mais íntimo do cantor. O problema é que o filme também não consegue sustentar plenamente esse ponto de vista.
Existe um enorme problema de estruturação de roteiro. O começo atropela passagens importantes em busca de explosões emocionais muito rápidas. Mortes e acontecimentos trágicos são tratados como grandes momentos catárticos, mas envolvem pessoas importantes na vida de Chorão que recebem pouco espaço além de algumas cenas na orla de Santos. A intenção dramática está clara, mas falta preparação. O roteiro exige uma reação intensa da audiência sem ter criado previamente o vínculo necessário para que essa emoção realmente aconteça.
Isso fica ainda mais evidente na carreira de Chorão. Existe um principiante e, pouco depois, existe um artista conhecido nacionalmente. O caminho entre essas duas coisas praticamente desaparece. A formação do Charlie Brown Jr., o amadurecimento artístico, a construção de uma identidade e o crescimento daquela figura pública são condensados em sequências de shows, montagens e passagens rápidas. O filme acredita que esse material produz uma sensação de trajetória. Não produz. Ele informa que Chorão cresceu, mas raramente nos deixa acompanhar esse crescimento.
José Loreto entrega uma performance competente, principalmente no trabalho físico, na voz e na energia de palco. Existe uma preocupação evidente em reproduzir Chorão sem transformar a atuação numa caricatura. Ao mesmo tempo, a interpretação permanece muito presa a um regime de segurança. Falta o espaço mais desconfortável do personagem, aquele que permitiria ultrapassar os gestos reconhecíveis e chegar a alguma coisa mais difícil de organizar.
E esse talvez seja o maior limite do filme. Existe um medo constante de invadir o próprio biografado. Chorão aparece, sofre, ama, explode e se contradiz, mas quase sempre existe alguma distância protegendo essa figura. O roteiro se aproxima e recua. Quando surge uma possibilidade de investigar seus impulsos, seus excessos ou suas contradições, a narrativa muitas vezes prefere avançar para o próximo episódio.
O resultado é um filme fragmentado. Existe material para uma história sobre amor, fama, dependência emocional, criação artística, exposição pública e deterioração de uma relação. Mas essas camadas raramente conseguem existir juntas. Cada uma recebe algum espaço, uma cena forte, uma discussão, uma música, e logo é substituída por outra.
Isso também prejudica Grazi. Se o filme assume sua memória como ponto de partida, seria natural que ela fosse a verdadeira estrutura dramática da narrativa. Só que nem sempre isso acontece. Em diversos momentos, sua perspectiva perde força justamente quando deveria conduzir melhor aquilo que estamos acompanhando. O filme fica dividido entre contar Chorão, contar o casal e reproduzir acontecimentos conhecidos. Nenhuma dessas frentes assume completamente as rédeas.
Por isso, o problema não está no fato de o filme escolher um recorte específico. Uma cinebiografia não precisa dar conta de uma vida inteira. O problema é que esse recorte também parece construído sem coragem suficiente. Falta decidir até onde aquela relação pode nos levar para dentro de Chorão e até onde o filme está disposto a observar Grazi para além do papel de parceira de uma figura famosa.
Sem esse mergulho, sobra uma reconstituição episódica. Existem músicas, shows, conflitos, momentos reconhecíveis e uma atuação empenhada no centro de tudo. Mas falta musculatura dramática para transformar esse conjunto em retrato. Falta nervo. Falta oxigênio entre uma passagem e outra.
No fim, a experiência é frustrante porque o filme parece sempre muito perto de alguma coisa que nunca alcança. Chorão merecia um retrato mais complexo. Grazi também merecia uma narrativa que confiasse mais no ponto de vista que deu origem ao próprio projeto. O filme tenta existir entre essas duas forças, mas termina incompleto, atropelado pelas próprias metades e aquém daquilo que sua premissa prometia.