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Projeto A Sala

Críticas

Justino - Nos Bastidores do Reino (2026)

Por Marcelo Paiva

O exposed necessário da Igreja Universal.

Dirigido por José Eduardo Belmonte, Justino: nos bastidores do Reino já se impõe no Festival de Gramado como uma das biografias mais inflamáveis de 2026. O filme acompanha Mario Justino, um dos pregadores mais populares da Igreja Universal nos anos 90, até conhecer de perto o lado mais sombrio da própria instituição.

Belmonte se aproxima do biografado sem medo das contradições e encontra um equilíbrio raro dentro de uma cinebiografia: o rigor formal acompanha a complexidade do personagem, enquanto o roteiro preserva suas nuances sem transformá-las em atalhos dramáticos. O filme respira nas transições e muda de textura conforme atravessa as diferentes fases da vida de Justino. Enquadramentos, granulação e tratamentos de imagem distintos não apenas situam essas épocas, mas encontram uma temperatura emocional própria para cada uma delas.

Christian Malheiros entrega uma performance poderosa, visceral e nunca caricatural. Seu Justino carrega o fervor do fiel, o magnetismo do pregador e a vulnerabilidade de alguém profundamente moldado pela religião. Malheiros faz essas forças coexistirem no corpo do personagem, mesmo quando elas parecem puxá-lo em direções opostas.

A sexualidade do protagonista, sua relação afetiva com a religião e a necessidade de pertencimento aparecem como partes de uma mesma experiência. Justino compreende com muita precisão como a fé também pode criar vínculos de dependência quando se mistura a afeto, poder e promessa de acolhimento. O longa não força essas tensões em uma explicação única. Ele permite que elas permaneçam contraditórias.

É também um recorte muito preciso de um Brasil histórico. A expansão da Igreja, o poder adquirido por suas lideranças e a intimidade cada vez mais atravessada pela religião ajudam a olhar para aquele período e, ao mesmo tempo, entender parte do país que se formou ao redor dele.

O diagnóstico de HIV atravessa essa trajetória de maneira decisiva e conduz a um dos episódios mais duros do filme: o afastamento de Justino do trabalho religioso. O longa trata esse momento sem suavizar a covardia e a crueldade envolvidas, deixando que o próprio gesto institucional revele sua violência.

Caio Blat também entrega um trabalho impressionante. Seu bispo é imediatamente reconhecível, mesmo sem que o filme precise mencionar Edir Macedo. A postura, a cadência da fala e o controle do corpo bastam para construir uma referência muito precisa, sem reduzir a atuação a uma imitação.

Existe uma sinergia finíssima em Justino. As dúvidas, as zonas obscuras e as contradições da vida do protagonista se tornam matéria dramática e dão espessura à própria biografia. O filme encontra força justamente porque aceita que essas camadas coexistam sem precisar enquadrá-las em uma leitura única. É dessa complexidade que nasce a sensação de verdade que atravessa a narrativa.

O filme parece correr no trecho final, quando ainda havia espaço para aprofundar melhor as consequências de uma vida tão atribulada. Mesmo assim, Justino: nos bastidores do Reino entrega um dos trabalhos mais revigorantes de 2026. Uma cinebiografia que encontra força porque sabe que, diante de uma trajetória assim, qualquer simplificação seria também uma forma de falsificação. E o filme é melhor justamente porque se recusa a tornar essa vida mais fácil do que ela foi.

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