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Projeto A Sala

Críticas

Antártida (2026)

Por Marcelo Paiva

Os diálogos podem destruir um filme?

Essa é a reflexão que Antártida deixa ao fim da sessão de abertura da nova edição do Festival de Cinema de Gramado. A premissa é chamativa: acompanhamos a missão de brasileiros no continente gelado, enquanto um dos invernos mais rigorosos se aproxima. Para completar o quadro, os geradores de aquecimento da estação estão apresentando falhas.

Mas, uma “premissa boa” só funciona quando existe um roteiro à altura. E esse não é o caso de Antártida. Falta sutileza. Algo indispensável quando o principal enredo do filme é sobre um abuso que acontece nessas circunstâncias de isolamento.

Marina Ruy Barbosa interpreta aqui Inês, pesquisadora recém-chegada à estação, que logo na sua primeira noite, após uma festa regada a bebidas, é violentada por um desconhecido na calada da noite.

A trama ambiciona aprofundar temas como machismo estrutural, violência doméstica e, principalmente, a negligência social em lidar com situações de violência sexual. E é justamente por lidar com um tema de extrema sensibilidade que ele não podia ser tão forçado e expositivo demais. Porque aqui isso não prejudica apenas a forma. Quando tudo precisa ser explicado, o próprio assunto acaba banalizado. As emoções perdem espaço, a violência vira quase uma ferramenta de roteiro e tudo começa a soar estranhamente artificial. As ações são sempre faladas, as motivações quase sempre explicadas e falta muita margem para não deixar seus personagens unidimensionais.

É por isso que tudo soa tão falso, plástico, raso. E sinceramente, fazer um “whodunit” usando o abuso como tema central é um exercício, no mínimo, potencialmente traiçoeiro. Ou você domina radicalmente o seu texto, ou ele vai te levar a reboque. Ele te engole.

Andrea Beltrão como comandante da estação, contudo, segura o filme do completo marasmo. Ela é a única personagem que transmite verdade ali, que não parece presa a um texto medíocre.

Dirigido por Bruno Safadi, Antártida prova que ser uma “superprodução” não te protege de um roteiro insosso, perdido e falastrão.

E que fique claro que as suas ideias não são necessariamente ruins, mas exigiam muito mais do que parecem à primeira vista. As sutilezas em um filme não o tornam simplesmente em algo “diferentão”, como alguns dirão, mas permitem que ele crie camadas, subtextos e tons. Ferramentas poderosas para retratar um dos assuntos mais importantes do nosso tempo. Sem isso, o que temos é um filme tão gelado quanto o seu título sugere.

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