Depois da Caçada (2025) – Luca Guadagnino

Críticas Depois da Caçada (2025) – Luca Guadagnino Por Marcelo Paiva Guadagnino ousa, derrapa e tem saldo final ambíguo e até perigoso. Ainda existe “verdade” no mundo de hoje? Essa é uma pergunta provocadora, mas profundamente relevante. Muitas vezes, porém, ela nos leva a um beco perigoso: o esvaziamento concreto de debates urgentes. De um lado, vozes raivosas e estridentes contra uma suposta “cultura woke”; do outro, movimentos identitários tão fragmentados que perderam parte da sua força coletiva. Essa divisão é, logicamente, simplificada ao extremo, mas ajuda a denunciar o contexto em que vivemos: hoje, mais do que a verdade em si, o que se disputa é como ela é apresentada e percebida.A verdade existe, claro. Nunca deixou de existir. O que mudou é o campo de batalha: cada vez mais a disputa acontece muito mais nas interpretações, nas alusões, percepções e nos julgamentos que cada pessoa faz. E é exatamente isso que Luca Guadagnino explora em Depois da Caçada (2025). O filme nos coloca diante de versões contraditórias e escolhas guiadas ora por convicções, conveniências ora por manipulações, sem nunca revelar o que realmente aconteceu. A história acompanha Maggie (Ayo Edebberi), jovem negra LGBT, que acusa seu professor Hank (Andrew Garfield), homem branco e hétero, de ultrapassar limites sexuais. No meio desse conflito está Alma (Julie Roberts), tutora acadêmica de Maggie e envolvida afetivamente com Hank. Alma se apresenta involuntariamente como mediadora, quase uma árbitra das partes. À primeira vista, parece imparcial. Mas sua neutralidade é sempre hesitante. Ela oscila entre obrigações e desejos acadêmicos, uma sororidade mais estratégica que natural e seus próprios laços afetivos. Alma se move conforme pressões e conveniências não manifestas, mostrando que a imparcialidade pode ser só uma aparência. O público não chega a conhecer os fatos de verdade. Guadagnino mostra apenas os diferentes pontos de vista, as suspeitas e as escolhas morais dos personagens, deixando a verdade concreta sempre fora do alcance. Maggie pode ter inventado tudo. Hank pode ser culpado. Alma pode se posicionar de acordo com o que mais lhe convém. O que conta verdadeiramente aqui são as disputas de interpretação e as consequências sociais que elas provocam. Essa abordagem gera momentos muito fortes. Mostra como, hoje, a imagem pública e a performance podem pesar mais que os fatos. Os personagens, em geral, agem menos pelo que conhecem e mais pelo que precisam parecer. Maggie não precisa necessariamente de provas para obter justiça, mas encara dilemas internos sobre culpa e cumplicidade de gênero. Hank precisa parecer inocente, mesmo que guarde impulsos perigosos. Alma, com sua neutralidade instável, revela que a imparcialidade nem sempre existe — muitas vezes é apenas uma fachada. O problema é que Guadagnino nem sempre mantém esse equilíbrio. Em alguns momentos, a trama se apoia mais em enquadramentos sofisticados do que na força dramática da história. A sombra de Woody Allen aparece de forma nítida: muito estilo, pouca substância. Isso fragiliza o filme e abre espaço para leituras que o acusam de conservadorismo ou misoginia. Ainda assim, há momentos em que a falta de clareza se torna potência. Guadagnino usa planos que captam gestos e olhares, sugerindo histórias paralelas e nuances invisíveis no conflito principal. Esses detalhes mostram que a questão central não é descobrir quem está certo, mas perceber como as expectativas sociais moldam o comportamento de cada personagem. No fim, Depois da Caçada é um ato de ousadia. Guadagnino eleva sua obsessão pela filmografia da identidade a um novo patamar, mas talvez tenha feito isso apressado demais, preso à própria lógica de estilo, em plena era Trump — marcada por polarização e espetáculo midiático. Nesse contexto, falar sobre performance sem um argumento sólido, que contrapusesse de verdade a encenação exagerada dos personagens, é quase um risco iminente: tudo está sob julgamento, e é preciso ser contundente para que o filme se sustente. As consequências reais — o abuso, a carreira destruída, vidas afetadas — ecoam aqui como sombras que deveriam ter mais peso, lembrando que as ações têm sim efeitos concretos para além das aparências. Não se trata de impor uma resolução simples ou definitiva à trama, mas de equilibrar melhor as múltiplas variáveis que Guadagnino propõe ao longo do filme. Curiosamente, é o próprio tribunal que ele constrói na tela — feito de julgamentos morais, expectativas sociais e aparências — que pode se voltar contra o diretor, tornando-o vulnerável às mesmas ambiguidades e contradições que apresenta. O resultado é uma sensação inquietante: por mais potente que seja a proposta, o veredicto permanece incerto e ambíguo, refletindo a instabilidade do tempo em que vivemos. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.
Uma Mulher Delicada (1969) – Bresson, Jung e Deleuze

Críticas Uma Mulher Delicada (1969) – Bresson, Jung e Deleuze Por Edgar Dino Em Uma Mulher Delicada (1969), Robert Bresson filma a queda silenciosa de Elle (Dominique Sanda), figura que já nasce como enigma. Seu suicídio, revelado logo no início, não é a resolução de uma narrativa, mas o ponto de partida de uma espiral de memórias, fragmentos e impressões. O tempo se organiza como fluxo de imagens e lembranças — mais próximo daquilo que Deleuze chamaria de imagem-tempo: não mais uma sucessão linear de ações, mas um cinema da duração, da memória e da falha na comunicação. O marido, Luc (Guy Frangin), revisita o passado na tentativa de compreender o gesto final da esposa. Mas esse gesto permanece suspenso, inatingível: como uma sombra que não pode ser capturada. Na chave junguiana, Elle encarna o arquétipo da anima que escapa ao controle. Delicada, mas também hostil em seus silêncios, é uma mulher que se recusa a ser reduzida a objeto. Através dela, emerge o confronto entre inconsciente e persona: Luc, o penhorista, vive na rigidez material, na ordem das posses, no valor do que pode ser avaliado. Ela, por sua vez, habita uma dimensão mais simbólica e fluida, de olhares, ausências e pequenos gestos. Essa tensão — o peso do patriarcado e a leveza do ser que não aceita ser reduzido a coisa — é o que abre a brecha para o trágico. O suicídio, então, não é apenas desespero, mas uma recusa arquetípica: uma libertação pela morte, atravessada pela ambiguidade de vítima e agente. Bresson, ao contrário de Bergman, que trabalha semelhante tema em Cenas de Um Casamento (1973, não busca o calor do diálogo ou do conflito verbal. Sua mise-en-scène é de silêncios, de gestos contidos, de corpos que deslizam como modelos e não como personagens psicológicos. Há uma espiritualidade sem transcendência, uma dor que se esconde no não-dito. Essa escolha estilística potencializa a leitura junguiana: o inconsciente não se mostra pelo discurso, mas por símbolos sutis: os animais enjaulados no zoológico, a peça de Shakespeare que antecipa a tragédia, a cruz de Cristo refletida no olhar da esposa. São imagens que funcionam como sonhos diurnos, condensações simbólicas do destino dos personagens. A fotografia e a cinematografia do filme traduzem esse estado de suspensão. Sendo seu primeiro trabalho em cores, Bresson recusa o esplendor cromático: as cores são suaves, quase apagadas, como se já anunciassem a morte que pesa sobre a narrativa. A câmera é austera, fixa, rigorosa em sua geometria. Não há excessos de movimento; há contenção, como se o olhar cinematográfico também estivesse aprisionado junto com Elle, repetindo a experiência do cativeiro. A luz, discreta e quase natural, recorta os rostos e os objetos com uma frieza distante, lembrando que para Bresson cada detalhe é um signo, cada gesto um destino. Deleuze diria que aqui o cinema não organiza o real pelo encadeamento lógico de ações, mas o desorganiza pelo vazio pela impossibilidade de alcançar o sentido último do suicídio. A morte de Elle não é explicada, mas exposta como fenda no real, imagem pura do enigma. Nos parece que essa fenda é o inconsciente irrompendo, desvelando o que não se suporta viver no cotidiano. Assim, Uma Mulher Delicada não é apenas a narrativa de um casamento infeliz. É um poema fúnebre sobre a impossibilidade de tradução entre mundos internos, sobre a solidão que cresce mesmo na intimidade. É um filme onde os corpos não se encontram, onde a palavra falha, onde a cor desbota, onde a câmera registra o inexprimível. Bresson faz da fragilidade de Elle um espelho da fragilidade humana diante do amor, da posse, da morte. Um cinema simples e enganoso, como você bem clamou: nele, o silêncio é mais eloquente que qualquer grito. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.
Aurora (2025), de João Vieira Torres

Críticas Aurora (2025), de João Vieira Torres Um filme-ensaio que parte em direção a uma maldição tão particular quanto universal, extrapolando gêneros, normas e fronteiras. Filmes podem ser pessoais e íntimos, mas terão de desafiar, em algum nível, os limites do seu particularismo. Escrever para si mesmo hoje pode parecer quase um sinônimo de ofensa, como se uma ideia tivesse que servir ao ideal do outro, para completar sua jornada de síntese. Quem ousa escrever para poucos? Essa é uma falácia que, quando dita inúmeras vezes, torna-se uma perigosa armadilha. Todo ato de escrever é pessoal, poderia se aventar como uma linha de defesa. Mas há algumas camadas que – felizmente – dificultam a vida daqueles que se baseiam em extremos. Aurora, de João Vieira Torres, longa vencedor do prêmio de melhor fotografia no Festival Internacional de Curitiba é um excelente estudo de caso nessa matéria. Na contramão de filmes formulaicos e genéricos que assolam nossas salas de cinema, o filme se desenha a partir de uma obsessão bem intimista do diretor. Aparentemente, uma maldição recaiu sobre sua família, de origem sertaneja baiana, que persegue a figura do feminino de seus parentes. A ênfase na “figura do feminino” não é à toa: com uma abordagem também queer, João se inclui entre os amaldiçoados, mesmo não se auto reconhecendo ele mesmo, como uma mulher. O que pode soar ao leitor um convite a um filme de terror, merece uma ressalva. Aurora é também um filme de terror – mas sua inscrição extrapola o sentido duro dos gêneros. A maldição aqui mencionada é tão social quanto espiritual, tão política quanto etérea. Êxodos forçados, casamentos arranjados, comportamentos homofóbicos constroem a trama do feminino em Aurora, longe do lugar de sagrado, tão fortemente veiculado no imaginário religioso local. No limite, o feminino aqui é um fardo, obrigado a carregar o peso do mundo criado pelas artificialidades da tradição. Manter, cultivar, criar e proteger – funções atribuídas as trajetórias das mulheres na sua família, que também reverberam na jornada pessoal de João, que no corpo de uma criança LGBTQIA+, desvia da sua função moral e social esperada. Aliás, qualquer desvio da imponente linha reta, tão imaculadamente planejada pelo padrão heteronormativo nos rincões da Bahia – e voltaremos a falar sobre isso – desagua, de forma inevitável, à desgraça. Assassinatos e desaparecimentos dão conta dessa ramificação na árvore genealógica de João, evidenciando mais uma vez a maldição que disparou a necessidade em fazer Aurora. Àquelas que se sujeitaram – de forma imposta e forçada, é claro – à lógica da função social de suas vidas fugiram da desgraça, mas encontraram também uma outra natureza violenta: a da dor e a da tristeza ocultadas e soterradas pela narrativa de “mulheres que deram certo”. Uma maldição, portanto, que encerra potencialidades dentro de um espectro acinzentado de alternativas. De um lado, a morte. Do outro, a tristeza. Mas João não se furta a retratar também as alegrias em meio às dores. Até porque, como dito, Aurora não é só um filme de terror. É também um filme que celebra a resiliência, pois como podemos ver na sua metade final, outros laços de cumplicidade são também criados ao longo desse processo de apagamento ao feminino. Mulheres que também apoiam suas outras mulheres, mães que aceitam – mesmo que de forma reticente – a sexualidade considerada desviante do seu filho. Um tipo de afeto que grita resistência e que assim como a própria maldição, também guarda força, além de coragem e empatia. Eis portanto a chave desse filme: mesmo se propondo a revisar o passado – em uma perseguição tão obcecada pela dor – descobre – e se autodescobre – cercado por um véu de conforto e afago. Afinal, nem tudo é sombra. Essas subjetividades – tão maltratadas pelo tempo – também carregam brilho próprio, algo que mal nenhum foi capaz de sufocar. E ao fim, uma certeza tão firme encerra o filme: de que essa história não é tão particularista quanto parece ao olho descuidado. Ela dialoga com inúmeras outras trajetórias, mesmo àquelas que não surgiram do agreste baiano. O lugar dessa história deixa de lado sua territorialidade para acessar outros planos – dentre eles, o espiritual e também o social. Todos nós carregamos – ou conhecemos alguém que carregou – as chagas dessa mesma maldição. E é por isso que Aurora brilha em sua proposta. Afinal, escrever para poucos aqui é uma armadilha que será vencida ao final do filme, para aqueles que realmente estejam dispostos a ouvir algo que pode parecer distante, mas que na verdade, está mais próximo do que parece estar. Aurora, que é o nome dado a sua vó parteira a quem ele sonha constantemente, e que serviu como gatilho para o retorno às suas raízes sertanejas, na verdade é só a linha que João puxa primeiro, para então, criar uma representação da sua genealogia que se constrói pelo afeto, pela transgressão e no fim, pela resolução. Não aquela que se encerra em si mesmo, mas aquela que triunfa sabendo que boas histórias não terminam, mas ecoam por muito tempo. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.
Fudêncio e seus amigos (2005-2011)

Críticas Fudêncio e seus amigos (2005-2011) Tipo o south park, só que brasileiro… O João Gordo, que é uma referência no movimento punk brasileiro afirmou em uma entrevista nos anos 2000 que tinha um boneco chamado “Fudêncio”, o tal boneco em questão tinha uma aparência exótica e era completamente punk em atitudes, o próprio João afirmou que era “boneco demoníaco”. Mesmo não tendo uma ligação direta com o seriado, o nome do boneco de certa forma serviu de inspiração para o seriado. A emissora MTV juntamente com o criador Thiago Martins, Marco Pavão e Flávia Boggio desenvolveram o seriado Fudêncio e seus amigos, em 2005 se estendendo até 2011. Como se trata de um desenho com caráter adulto, passava após a meia noite na MTV (muitos pré-adolescentes assistiam escondidos dos pais). Em suma, Fudêncio é um desenho politicamente incorreto, com vários palavrões, cheio de situações absurdas onde o protagonista em questão (Fudêncio) um garoto punk com más intenções e que sempre se dá bem em qualquer situação que seja. Em contrapartida, o personagem Conrado (que é um caqui humano) sempre é prejudicado em todos os episódios, possuindo até um bordão específico “eu só me f*do nessa porr*”. Claro que nos anos 2000 muita coisa absurda era passada na televisão abertamente – como pessoas seminuas em uma banheira do Gugu aos domingos de tarde. Eram outros tempos, as pessoas não tinham o pensamento crítico que têm atualmente e muita coisa errada era completamente banalizada. Em alguns episódios de Fudêncio por exemplo, um aluno “se apaixona” por uma professora e todos acham normal. Já outro episódio ocorre a distribuição de drogas para as crianças “melhorarem o desempenho” e por aí vai. A impressão que deixa é que Fudêncio é praticamente o south park brasileiro, mas que envelheceu mal. É possível assistir todos os episódios online, no YouTube. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.
Viajo porque preciso, volto porque te amo (2009)

Críticas Viajo porque preciso, volto porque te amo (2009) Um retrato sobre a solidão. Esse filme é um daqueles que vai prender sua atenção, independente de qualquer coisa… primeiro por ser gravado em primeira pessoa, acompanhamos em tempo real a narração e vivência de um geólogo que é enviado para o interior do nordeste brasileiro, narrando principalmente sobre a cidade pacata e os moradores que ali habitam. Karin Ainouz (mesmo diretor de “céu de Suely”) consegue em pouco mais de 100 minutos carregar a solitude do protagonista, pior, nós ficamos mergulhados nela… o narrador personagem é José Renato (Irandhir Santos) que com sua atuação, promove uma imersão realista acerca da solidão principalmente em grandes viagens. Um destaque no filme é o diálogo da personagem Paty (que é dançarina e faz programa nas horas vagas) que introduz o conceito de “vida lazer”: que para ela significa estar com a filha e com o companheiro ao lado, para esquecer esses momentos ruins que passou na vida, ressaltando ainda com a frase “é triste gostar sem ser gostada”. Esse pequeno vídeo viralizou no TikTok e Instagram, muitas pessoas assistiram o filme devido a isso. A impressão a que temos assistido é que o próprio José Renato é quem está fazendo o filme, sem filtros, CGI, apenas com uma câmera na mão é capaz de transmitir emoção, veracidade, fúria, realidade com um toque bem pessoal e cru. A cidade pacata, os moradores, as festas, os diálogos, e o trabalho, junto com as memórias amorosas de José são o palco perfeito para a poesia presente no cotidiano, principalmente a marginal (que fica às margens, não a poesia polida). O filme está disponível no YouTube, caso alguém queira assistir realmente vale a pena. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.
O céu de Suely (2006)

Críticas O céu de Suely (2006) Parece um conto de fadas brasileiro Esse filme parece simples, mas aborda muita complexidade e questionamentos principalmente nas entrelinhas, as ações dos personagens falam mais do que os próprios diálogos – o que nos causa uma empatia, principalmente pela atuação impecável da atriz Hermila Guedes. No longa, conhecemos Hermila (Hermila Guedes) uma mãe solo que volta para sua cidade natal no interior do Ceará na esperança da qual o pai do seu filho volte, e tenham uma família. Mas o passar do tempo mostra um tom agridoce, o homem não volta e Hermila se vê sem um propósito. Querendo abandonar o interior a qualquer custo, mas completamente sem dinheiro, Hermila então tem uma ideia de rifar seu corpo para um homem por uma única noite, chamada “noite no paraíso” adotando assim o codinome “Suely”. A rifa faz muito sucesso, até que chega ao conhecimento da família da Hermila (Suely) que desaprova a atitude. O filme conta com 130 minutos, e pode ser assistido no globoplay e na Netflix, aborda liberdade sexual, empoderamento, relações familiares, dificuldades socioeconômicas, discriminação, abandono parental, relacionamentos e desilusão amorosa. É um filme nu, cru e com uma direção incrível de Karim Aïnouz (as câmeras são estáticas, lembrando quase uma novela) nos garante uma proximidade com os personagens. Gravado nos anos 2000, temos um granulado natural (ocasionado pela resolução câmera utilizada), principalmente no início do filme onde enxergamos o sonho de Suely – Hermila, no qual o espectador desavisado pode até achar que se trata de um conto de fadas ou filme de romance, mas o desenvolvimento da trama nos mostra algo bem mais complexo que isso. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.
(500) dias com ela (2009)

Críticas (500) dias com ela (2009) Um filme problemático e superestimado Vou evitar adicionar spoilers, apesar de não ser um filme novo, sei que existem algumas pessoas que ainda não assistiram. Era pra ser um filme de romance? Não, o próprio filme nos mostra isso no início mas vai se criando um apelo muito forte nos protagonistas (principalmente “Tom” Joseph Gordon Levitt). Na verdade, esse é um clássico filme onde “um cara bonzinho” se apaixona por uma mulher “que o decepciona” no final, apesar de ser um ícone cult o longa é sim bastante problemático se analisar minuciosamente. As pessoas confundem atração física com amor, e vem misturado de carência e dependência emocional… Tom estava muito tempo sozinho e “mergulhou de cabeça” ao conhecer Summer (Zoey Deschanel) ignorando completamente o fato de que ela não queria relacionamento. Fica um sabor agridoce e com um toque de “incel”, afinal o Tom era tão legal porque ele não ficou com Summer? Simplesmente porque ela não quis, e tá tudo bem isso. O erro na verdade foi a criação de expectativa onde tinha traços desde o início que era incerto. Existe um diálogo no filme onde a Rachel (Chloe Grace Moretz – ainda criança) diz a seguinte frase “só porque ela gosta das mesmas coisas que você não significa que é o amor da sua vida”. A verdade é uma só: esse filme muda as nossas percepções com o passar do tempo. Lembro de ter assistido quando lançou (eu era adolescente) e me identifiquei muito com Tom, ora com Summer também… assistindo novamente agora já adulto, tenho a percepção que na verdade todos os personagens deveriam fazer terapia nesse filme, principalmente Summer ao deixar a relação ir longe demais. Não existe vilão no filme, mas condições adversas que seriam resolvidas facilmente com psicologia. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.
A Garota Ideal (2007)

Críticas A Garota Ideal (2007) Já vi cenas desse filme em compilados de memes na internet, principalmente sobre o ator Ryan Gosling mas recentemente me permiti uma chance para assistir, e fui surpreso positivamente… O filme apesar de possuir uma premissa relativamente simples, muda da água para o vinho entre o segundo ato e o clímax. No longa, conhecemos Lars (Ryan Gosling) um homem extremamente tímido que não interage muito socialmente – mas consegue trabalhar e ir a igreja aos domingos. O irmão de Lars – Gus (Paul Schneider) é casado com Karin (Emily Mortimer) que possui um fascínio para a socialização de Lars, praticamente Karin fica forçando a barra para que Lars jante com o irmão, o agarrando e nitidamente deixando em uma situação bem desconfortável. Tudo muda quando o colega de trabalho de Lars – Kurt (Maxwell McCabe-Lokos) mostra um site para comprar bonecas sexuais reais, Lars escolhe a aparência da mulher ideal e isso é o estopim para a narrativa do filme. Acontece que Lars encontrou em Bianca (boneca) uma relação afetuosa que não construiu com nenhuma outra pessoa. O fato de mostrar isso para outras pessoas gera um tom de humor ácido, cenas hilariantes, desconfortáveis e ao mesmo tempo, emotivas… O roteiro de Nancy Oliver toma um rumo completamente inesperado, a ponto do espectador ter empatia por Bianca ao mesmo tempo que acompanhamos a evolução comportamental de Lars, que vai ficando mais sociável a medida que o relacionamento com Bianca avança (aliás, um adendo: em momento algum no filme, mostra uma relação sexual de Lars e Bianca). Inclusive, o casal possui até uma discussão de relacionamento acalorada, e a “morte” de Bianca é emotiva com toda a comunidade e ao mesmo tempo que é um recomeço para Lars. O longa possui 102 minutos, vale muito a pena assistir pois possui um ritmo descontraído e leve – está disponível no prime video e na mubi… se eu pudesse avaliar esse filme, eu daria 4 estrelas de cinco. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.
No Entres (2024)

Críticas No Entres (2024) Por Ricardo Rodrigues No Entres (2024) .. Ou seria melhor “não assista”? Sem spoiler O longa encontra-se em cartaz nos cinemas brasileiros, foi lançado no Brasil dia 10/04/25. Sinceramente não vi ninguém falando desse filme, logo, assisti sem expectativa e não me decepcionei (mas não fiquei surpreso). Uma premissa repleta de clichês com uma narrativa tão batida que mesmo ao incorporar uma crítica sobre o uso da internet para ganhar likes e visualizações, não torna o filme inovador. Na narrativa conhecemos dois personagens que são os protagonistas: Aldo e Cristian, são adultos que interpretam jovens querendo ser famosos na internet, e que são capazes de entrar em uma casa abandonada para almejar a fama virtual, mas como todo bom clichê de filme de terror, obviamente as coisas saem fora do esperado e uma tragédia se aproxima. O formato do filme é na maioria das vezes em found footage, o que deixa subentendido ser uma produção com baixo orçamento, isso não seria um problema se a direção, roteiro e atuações fossem impecáveis (o que não é o caso desse filme). Apesar de ter alívios cômicos, cenas que de fato tiram uma risada bem leve, o filme não passa mais do mesmo: jump scares fracos, câmera tremendo, pessoas se ferrando por mexerem/zombarem de espíritos, devaneios e umas maquiagens/figurinos medianos (aparece um suposto demônio no filme, com uma duração menor que dois segundos, com uma roupa que parece ser comprada na shoppe), mesmo com o “plot twist” próximo do final, o filme não surpreende o espectador. Existe uma cena pós créditos que deixa no ar se haverá ou não uma possível continuidade, que caso exista, sinceramente não vale a pena assistir. Se eu pudesse avaliar o filme em uma nota de zero a cinco, eu daria 2,5. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.
Looney Tunes – O Filme: O Dia Que A Terra Explodiu

Críticas Looney Tunes – O Filme: O Dia que a Terra Explodiu (2024) Por Marcelo Paiva Looney Tunes – O Filme: O Dia Que A Terra Explodiu é a fórmula certa para a franquia da Warner! Inserir uma nova vida útil – e de preferência, longa – para um universo animado que já possui mais de 90 anos, não é tarefa fácil. Afinal, mesmices cinematográficas estão aos montes por aí e até hoje, por exemplo, a Marvel não sabe como recuperar o fio da meada, após o sucesso de Vingadores. Mas, os roteiristas do novo filme do Looney Tunes parecem ter acertado na dose. Em seu último lançamento, acompanhamos a jornada de Gaguinho e Patolino em um script habitual para o estúdio: o espaço sideral e a sua sempre firme ameaça universal. Se, à primeira vista, parece que o longa irá persistir no enredo clássico dos live-actions do passado, a história mostra que não foi esse o destino do Dia que a Terra Explodiu. Na trama, a dupla carismática vive em uma cidade dominada pela indústria do chiclete e, logo na primeira metade, descobre que um ser alienígena alterou a fórmula da mais nova edição da goma de mascar para fins nefastos. Esse é o fio lógico do filme, isto é, o único ponto racional da trama, já que nada em Looney Tunes é para ser verossímil. Com personagens secundários que justificam sua existência – acredite, isso é talvez um dos maiores desafios para os estúdios de animação hoje em dia – é muito divertido acompanhar a interação criada para a dupla de desajeitados, que representam uma ameaça muito maior para o mundo do que qualquer plano maquiavélico orquestrado por um extraterrestre. Brincando com a máxima de que serão eles a única esperança da Terra, o longa entretém, não cansa e até consegue emocionar. Para um legado que precisa – urgentemente – se encaixar no novo mundo digital da geração Alpha (nascida nos anos 2010), isso já é certamente um dever mais que cumprido. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.