Por Marcelo Paiva
Guadagnino ousa, derrapa e tem saldo final ambíguo e até perigoso.
Ainda existe “verdade” no mundo de hoje? Essa é uma pergunta provocadora, mas profundamente relevante. Muitas vezes, porém, ela nos leva a um beco perigoso: o esvaziamento concreto de debates urgentes. De um lado, vozes raivosas e estridentes contra uma suposta “cultura woke”; do outro, movimentos identitários tão fragmentados que perderam parte da sua força coletiva. Essa divisão é, logicamente, simplificada ao extremo, mas ajuda a denunciar o contexto em que vivemos: hoje, mais do que a verdade em si, o que se disputa é como ela é apresentada e percebida.
A verdade existe, claro. Nunca deixou de existir. O que mudou é o campo de batalha: cada vez mais a disputa acontece muito mais nas interpretações, nas alusões, percepções e nos julgamentos que cada pessoa faz. E é exatamente isso que Luca Guadagnino explora em Depois da Caçada (2025). O filme nos coloca diante de versões contraditórias e escolhas guiadas ora por convicções, conveniências ora por manipulações, sem nunca revelar o que realmente aconteceu.
A história acompanha Maggie (Ayo Edebberi), jovem negra LGBT, que acusa seu professor Hank (Andrew Garfield), homem branco e hétero, de ultrapassar limites sexuais. No meio desse conflito está Alma (Julie Roberts), tutora acadêmica de Maggie e envolvida afetivamente com Hank. Alma se apresenta involuntariamente como mediadora, quase uma árbitra das partes. À primeira vista, parece imparcial. Mas sua neutralidade é sempre hesitante. Ela oscila entre obrigações e desejos acadêmicos, uma sororidade mais estratégica que natural e seus próprios laços afetivos. Alma se move conforme pressões e conveniências não manifestas, mostrando que a imparcialidade pode ser só uma aparência.
O público não chega a conhecer os fatos de verdade. Guadagnino mostra apenas os diferentes pontos de vista, as suspeitas e as escolhas morais dos personagens, deixando a verdade concreta sempre fora do alcance. Maggie pode ter inventado tudo. Hank pode ser culpado. Alma pode se posicionar de acordo com o que mais lhe convém. O que conta verdadeiramente aqui são as disputas de interpretação e as consequências sociais que elas provocam.
Essa abordagem gera momentos muito fortes. Mostra como, hoje, a imagem pública e a performance podem pesar mais que os fatos. Os personagens, em geral, agem menos pelo que conhecem e mais pelo que precisam parecer. Maggie não precisa necessariamente de provas para obter justiça, mas encara dilemas internos sobre culpa e cumplicidade de gênero. Hank precisa parecer inocente, mesmo que guarde impulsos perigosos. Alma, com sua neutralidade instável, revela que a imparcialidade nem sempre existe — muitas vezes é apenas uma fachada.
O problema é que Guadagnino nem sempre mantém esse equilíbrio. Em alguns momentos, a trama se apoia mais em enquadramentos sofisticados do que na força dramática da história. A sombra de Woody Allen aparece de forma nítida: muito estilo, pouca substância. Isso fragiliza o filme e abre espaço para leituras que o acusam de conservadorismo ou misoginia. Ainda assim, há momentos em que a falta de clareza se torna potência.
Guadagnino usa planos que captam gestos e olhares, sugerindo histórias paralelas e nuances invisíveis no conflito principal. Esses detalhes mostram que a questão central não é descobrir quem está certo, mas perceber como as expectativas sociais moldam o comportamento de cada personagem.
No fim, Depois da Caçada é um ato de ousadia. Guadagnino eleva sua obsessão pela filmografia da identidade a um novo patamar, mas talvez tenha feito isso apressado demais, preso à própria lógica de estilo, em plena era Trump — marcada por polarização e espetáculo midiático. Nesse contexto, falar sobre performance sem um argumento sólido, que contrapusesse de verdade a encenação exagerada dos personagens, é quase um risco iminente: tudo está sob julgamento, e é preciso ser contundente para que o filme se sustente.
As consequências reais — o abuso, a carreira destruída, vidas afetadas — ecoam aqui como sombras que deveriam ter mais peso, lembrando que as ações têm sim efeitos concretos para além das aparências. Não se trata de impor uma resolução simples ou definitiva à trama, mas de equilibrar melhor as múltiplas variáveis que Guadagnino propõe ao longo do filme. Curiosamente, é o próprio tribunal que ele constrói na tela — feito de julgamentos morais, expectativas sociais e aparências — que pode se voltar contra o diretor, tornando-o vulnerável às mesmas ambiguidades e contradições que apresenta. O resultado é uma sensação inquietante: por mais potente que seja a proposta, o veredicto permanece incerto e ambíguo, refletindo a instabilidade do tempo em que vivemos.