Por Mariana Moreira
Na minha opinião, poucos filmes conseguem retratar as avalanches físicas e emocionais que passamos ao transitarmos da infância para a adolescência como “Meu Primeiro Amor”. Tanto para meninos quanto meninas, mas principalmente meninas, a maneira como os acontecimentos da narrativa tomam partido dentro da vida da personagem Vada não só traz delicadeza e cuidado ao retratar o cotidiano através dos olhos de uma menina que busca um porto seguro, como também autenticidade e coragem necessárias ao falar sobre temas como a inocência do primeiro amor e mesmo a primeira menstruação (o que infelizmente continua sendo um assunto alvo de tabus mesmo atualmente).
Lançado em 1991, “Meu Primeiro Amor” retrata o cotidiano e as vivências de Vada Sultenfuss (Anna Chlumsky), uma menina de 11 anos vivendo em uma pequena cidade americana durante as férias escolares de verão. Sua vida não poderia ser mais fora do comum: seu pai Harry (Dan Aykroyd) é o dono de uma funerária, o que faz a menina desde cedo criar uma espécie de obsessão com a morte e, de acordo com sua percepção, achar que está sempre com algum sintoma. Sua mãe faleceu quando ainda era um bebê e ela encontra seu único refúgio diante de pessoas que não a compreendem totalmente ou lhe dão a devida atenção na amizade Thomas J. (Macaulay Culkin), um garoto doce, sensível e alérgico a quase tudo, mas que compartilha com ela momentos de descoberta e inocência. A chegada de Shelly (Jamie Lee Curtis), nova funcionária da funerária, e os sentimentos confusos de Vada por seu professor de inglês completam o mosaico de emoções.
A produção teve direção de Howard Zieff e roteiro assinado por Laurice Elehwany. Seu título original “My Girl” se refere à música clássica homônima de 1964 do grupo The Temptations, tocada nos créditos finais. Sou suspeita, pois de fato a música é uma das que mais gosto dos anos 1960, mas acho que sua letra, arranjo e melodia se encaixam mais do que bem na atmosfera narrativa e visual que o filme entrega.
Partindo para um lado mais psicológico da história, a mim não apenas o filme me parece demonstrar sem exageros os dilemas enfrentados por Vada durante as descobertas da infância. Também para aqueles que procuram uma obra audiovisual que contenha um retrato atencioso e verdadeiro com um charme a mais sobre temas que supostamente seriam considerados “adultos”, “Meu Primeiro Amor” é a escolha certa. Embora à primeira vista a personagem Vada possa parecer um tanto emblemática, se olharmos fundo veremos uma menina de coração puro começando a enxergar a vida em suas diversas nuances, que na falta de ter alguém com quem possa contar, busca aquilo que lhe falta dentro de casa na companhia de Thomas J. O fato de não ser um garoto popular e, de certa forma, ter alguma carência emocional entre outros de sua idade faz com que ele e Vada sejam companheiros de aventuras assim como preencham o espaço vazio um do outro nos pontos que têm em comum.
Na falta de uma figura feminina na vida de Vada, a chegada de Shelly à funerária inicialmente ocupa este lugar, mas, ao mesmo tempo, mexe com os sentimentos adormecidos de Harry, que depois de perder a esposa se afundou em suas mágoas e se fechou para o mundo ao seu redor. Ao mesmo tempo que a personagem de Jamie Lee Curtis se torna uma figura materna, acaba por ser tanto objeto de ciúmes em Vada quanto alguém que faça o pai vivido por Dan Aykroyd refletir sobre sua ausência na vida da filha e a falta que esta sente de sua atenção e carinho.
Se tornou um sucesso de bilheteria nos Estados Unidos, superando expectativas e consolidando-se como um clássico do gênero dramédia. A crítica destacou a coragem da produção em tratar temas considerados “pesados” para um público jovem, sem perder a delicadeza. O filme retrata a transição delicada entre a inocência infantil e os primeiros contatos com a realidade adulta. Ao contrário de outras produções voltadas para jovens, “Meu Primeiro Amor” não evita o tema da morte, tratando-o de forma honesta e impactante. A relação entre Vada e Thomas J. é retratada com pureza, sem idealizações românticas, mas como um vínculo genuíno de afeto e descoberta.
“Meu Primeiro Amor” é mais do que um filme sobre a infância: é uma reflexão sobre como aprendemos a lidar com sentimentos complexos desde cedo. Sua força está em mostrar que crescer envolve tanto descobertas encantadoras quanto perdas dolorosas — e que ambas moldam quem nos tornamos.