Por Lucas Costa
Desde muito anos atrás, antes, mesmo, que eu assistisse a Millennium Mambo, o rosto da atriz Shu Qi, sob forte luz amarela e azul, sempre pairou no meu imaginário.
A razão disso se mostra logo na primeira cena. Sua personagem, Vicky, caminhando, em câmera lenta, dentro de um túnel, sob a música eletrônica, parece saída de um sonho ou de uma memória distante. O filme todo é repleto dessas cenas duradouras e marcantes, com forte apelo sensorial.
Acompanhamos a inquieta e insatisfeita Vicky, sobretudo em seu relacionamento conturbado com Hao-Hao, um rapaz violento e autodestrutivo. Durante este mergulho na vida noturna, boêmia e marginal de Taipei, em Taiwan, descobrimos que o filme não segue uma lógica linear. Ao contrário, através de planos bastante demorados e hipnóticos, vemos fragmentos desordenados da vida do casal.
A câmera, muitas vezes desfocada, às vezes, parece tentar acompanhar o ritmo das personagens sem alcançá-las. Outras, os enquadra encobertos ou em constante movimento. Filma muitos vazios e lacunas. É um gesto técnico que, não apenas assimila a vida incerta, experimental e ansiosa da juventude em Taiwan, na virada do milênio, como, principalmente, fixa uma das questões principais do filme: a incomunicabilidade da experiência.
A jornada pelo relacionamento dos dois jovens que, tão logo se conhecem em uma boate, vão morar juntos, construída por seu comportamento impulsivo, pelo excesso de estímulo sensível, suas repetições de comportamentos destrutivos, por cenas inconclusas, é uma jornada pela impossibilidade, mesma, de sua vida amorosa. Ou mais: pela impossibilidade de sua mudança de vida, em geral.
Em dado momento, Hao-Hao diz que os dois pertencem a mundos diferentes, embora Vicky esteja habitando o mundo dele. Deste modo, como poderiam se entender?
Ou seja, não é o caso, como quiseram alguns críticos, de serem personagens superficiais e bidimensionais. Vicky e suas fugas que oscilam com retornar à relação com Hao-Hao. O ócio e a vida marginal que Hao-Hao leva, assumem uma trágica, imutável.
O filme, ainda, faz paralelos entre a vida íntima do casal, o estilo de vida da geração e questões profundas da identidade e independência do Taiwan. Como na cena em que o mágico mostra ter apenas moedas americanas e uma das personagens comenta: escravo da moeda estrangeira. Mas, limito-me, aqui, neste texto a apenas constatar esse aspecto.
Fato é que, a exemplo de Wong Kar Wai, Hou Hsao Hsien cria cenas oníricas fortíssimas, para registrar, com forte estetização e apelo sensorial, os desafios da incomunicabilidade do cinema e da experiência amorosa contemporânea.