Por Lucas Costa
Clássico do cinema brasileiro, com Norma Bengell e Odete Lara no elenco, Noite Vazia, de Walter Hugo Khouri, foi lançado em 1964.
A trama acompanha Luisinho e Nelson, dois amigos que saem pela noite em busca de prazer e luxúria. Após rodar pela cidade sem encontrar diversão satisfatória, os dois encontram, por acaso, duas prostitutas sofisticadas e as levam para um apartamento emprestado.
É possível reparar, de início, uma dualidade posta. Luisinho tem uma família, um filho e ainda veste o terno do trabalho. No começo da jornada, encontra pessoas que fazem parte de sua vida diurna. Coloca-se uma relação entre o mundo da família e do trabalho, das relações às claras, com o que seria seu lado desregrado e subterrâneo. E é nesse subterrâneo que a verdade do Todo se revela.
Os dois homens apresentam uma postura diferente em relação a seu itinerário e que se completa ao encontrar as duas mulheres: Nelson introduz a negação e o desconforto. Não quer sair, mas vai mesmo assim. O tempo todo mantém a expressão austera como se mantivesse distância de tudo que faz; Luisinho, por outro lado, é insistente e resignado. Diante do tédio e da frustração, resolve sempre insistir na mesma coisa, afirmando que procurar por diversão sempre no mesmo lugar é quase como uma obrigação para sentir que aproveita a vida. “Nunca sei, direito, se gosto ou não gosto”, afirma, em dado momento.
Sua estada no apartamento parece guardar relações com o filme de Billy Wilder, mas ao contrário da comédia, aprofundando o drama, as tensões, e as questões existenciais daqueles personagens.
Assim como Luisinho, Regina parece não se importar com certo vazio de sentido de toda a empreitada noturna e, além disso, com sua repetição. Marta e Nelson, por outro lado, se aproximam por uma postura distanciada e reflexiva, nitidamente incômoda.
Os movimentos de câmera, junto da trilha sonora original de Rogério Duprat, mostram a inquietude interna onde quase não há movimento externo e transformam a busca por prazer em sequências de profunda agonia e mal-estar.
Em dado momento, umas das personagens afirma que a noite não é mais a mesma. É como o sentido da vida boêmia que inspirou tantos poetas e aventureiros agora estivesse esvaziado e aquelas pessoas andam em círculos por suas ruínas. Tudo termina em tédio e frustração, apenas para começar de novo, evidenciando na obra sua dimensão trágica e até absurda.