Projeto A Sala

Críticas

O Cavalo de Turim (2011)

Por Lucas Costa

Desde o longo plano-sequência de abertura somos absorvidos pelo mecanismo de lentidão e expectativa que compõe O Cavalo de Turim. Aqui, Béla Tarr usa de seu característico alargamento temporal para inverter a lógica hollywoodiana dos filmes de catástrofe e refletir a experiência contemporânea.

A máxima de Mark Fisher acerca de ser mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo não cessa de ser confirmada pela grande indústria cinematográfica. Um imaginário alimentado pelo rápido avanço da crise climática e pelos crescentes diagnósticos de sua irreversibilidade. Assistimos a um “boom” dos filmes de desastres naturais, na década de 90, até a proliferação dos mundos pós-apocalípticos, em que reinam as produções de narrativas épicas e cheias de ação onde uma grande hecatombe marca o fim da vida na Terra como a conhecemos.

Béla Tarr faz tudo ao contrário. Mergulhamos em um cotidiano insosso onde a narrativa é quase ausente. O apocalipse acontece ao redor daqueles personagens mínimos que mal conseguem percebê-lo, salvo por alguns estranhos sinais. O cavalo que se nega primeiro a andar, depois a sair do estábulo; os cupins que param de roer o telhado e deixam os personagens envoltos apenas pelo som da tempestade. Os elementos da natureza funcionam como signos precursores de uma tragédia sempre iminente, mas que nunca chega. A trilha original de Mihály Víg, consistindo na repetição hipnótica do mesmo tema, reforça este aspecto com maestria. As claustrofóbicas sequências interiores são preenchidas com lentas coreografias dos gestos cotidianos através atuações austeras e concisas dos protagonistas.

Todo o clima de espera e manutenção da precariedade diante do absurdo vai de encontro às reflexões do filósofo alemão Günther Anders, um dos principais pensadores do que chamamos “tempo do fim” e pioneiro dos que vieram a ser conhecidos como “estudos do apocalipse”.

Por esta chave, a invenção da bomba atômica marca, irreversivelmente, uma nova experiência de tempo. Ficamos sempre à iminência de uma grande explosão que pode colocar ponto final à vida humana e que está apenas a um botão de distância. Mesmo que ela nunca ocorra, sua mera possibilidade instaura uma existência em torno da expectativa, transformando o tempo presente em uma grande antessala do abismo, uma kafkiana espera perpétua que nos desmobiliza de transformar o próprio futuro já dado como inimaginável.

Esta leitura, a meu ver, ganha força quando um personagem de fora, talvez um vizinho, em breve visita, cita Nietzsche para anunciar que a cidade já está em ruínas, pois os homens perceberam que já não são possíveis e resolveram acabar com tudo. Pois Nietzsche é quem fala de tomar posse da própria vida conectando-se com as forças que a atravessam, e o apocalipse profano contemporâneo não é uma grande catástrofe derradeira, mas uma existência em que se está despossuído de si mesmo e da autonomia, em uma repetição trágica de gestos cada vez mais esvaziados de sentido.

O Cavalo de Turim recusa a espetacularização e nos infecta lentamente com seu ritmo arrastado e seus planos demorados. Já não há para onde ir. Percebe-se que, pouco a pouco, enquanto esperávamos, aquele mundo já estava acabado. Ao dilatar o tempo e converter a expectativa em linguagem, Béla Tarr nos devolve ao núcleo duro da experiência contemporânea de impossibilidade da elaboração do futuro.

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