Projeto A Sala

Críticas

O Morro dos Ventos Uivantes (2026)

Por Mariana Moreira

Que o cinema tem como uma espécie de tradição adaptar histórias clássicas para as telonas, isso já sabemos. Mas será que todas elas funcionam? Algumas chegam praticamente ao mesmo nível de qualidade e recepção positivas que o material que as inspirou, enquanto outras deixam questões em aberto e têm como maior desafio atingir o legado e influência que tiveram geração após geração. A versão de O Morro dos Ventos Uivantes de Emerald Fennel já levantou controvérsias e foi alvo de polêmicas mesmo antes de sua estreia, a começar pela escalação do galã em ascensão Jacob Elordi. O ator australiano, embora charmoso e com talento versátil, deixou grande parte do público um tanto insatisfeito ao ser escalado como intérprete do personagem Heathcliff, que no livro de Emily Brontë é descrito como um “cigano de pele mais escura”, sendo justamente esse o motivo de Heathcliff ser tratado com dureza e crueldade, enquanto Elordi tem o tom de pele caucasiano.

Esse é apenas mais um exemplo de que, embora a indústria cinematográfica, hollywoodiana principalmente, tenha evoluído em termos de representação social, o embranquecimento ainda assim continua como um assunto em pauta que se deve ficar de olho.

O filme, do meu ponto de vista, merece mais destaque direcionado aos aspectos técnicos e artísticos da produção do que pela narrativa em si. A fotografia talvez seja o mais deslumbrante, com uma paleta de cores que remete a uma atmosfera melancólica e pesada. O figurino tem roupas vibrantes e chamativas, sendo exclusivamente feito para essa versão da obra e segundo a figurinista vencedora do Oscar Jacqueline Durran, não está atrelado a uma determinada época específica.

As atuações dos protagonistas vividos por Margot Robbie e Jacob Elordi têm sua intensidade, porém ambos os personagens Catherine “Cathy” Earnshaw e Heathcliff são pouco carismáticos.

No caso de Cathy, a protagonista vai de uma jovem de espírito livre a uma mulher submissa vivendo uma vida que lhe é imposta quando renuncia à sua felicidade.

Já Heathcliff talvez para mim seja o personagem menos gostável, não apenas porque ao não ser escolhido por Cathy se torna um homem de caráter dominador e vingativo, além de vazio e amargurado, mas também por ser um personagem cujas camadas não são devidamente exploradas, embora no fundo de seus olhos secos possamos ver como a falta de amor tanto o marcou quanto o transformou em alguém por quem até o público seja capaz de nutrir certo desprezo.

Emerald Fennell traz uma adaptação do livro de Emily Brontë ao seu estilo, algo que para os fãs da obra original pode ser motivo de desagrado, remetendo a certos elementos mostrados em seus longas-metragens anteriores Saltburn e Bela Vingança, este último que deu a Fennell o Oscar de Melhor Roteiro Original. Em “Wuthering Heights” sua direção e roteiro, embora precisas, são primordialmente marcadas por momentos de sensualidade e erotismo, assim como por um excesso de melodrama e foco na dependência emocional entre o casal protagonista.

Devo admitir que, em um contexto geral, O Morro dos Ventos Uivantes é uma história atemporal e reflexiva, mas também questionável e capaz de dividir opiniões. Na época de seu lançamento, o livro de Emily Brontë foi alvo de críticas não apenas porque autoras mulheres eram malvistas naquele período, mas também por se distanciar significantemente dos romances tradicionais ao abordar um relacionamento tóxico e conturbado entre os protagonistas.

Então, uma dica: se você se considera um fã do livro, a adaptação de Emerald Fennell pode ser algo um tanto diferente do que se estava imaginando. Sendo assim, espere um “romance” que, por mais que retratado diversas vezes ao longo dos anos, envolve tanto um toque mais ousado quanto um estilo mais excêntrico.

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