Projeto A Sala

Críticas

Pânico (1996)

Por Lucas Costa

Diz a anedota que, enquanto o roteirista Kevin Williamson assistia a um programa sobre o serial killer conhecido como o Estripador de Gainesville, entrou em paranoia com medo de que alguém, realmente, tentasse invadir a sua casa. Então, ligou para um amigo, na esperança de que este o tranquilizasse. Do outro lado da linha, porém, seu amigo começou a provocá-lo citando vários clássicos filmes Slasher.

Não demorou para que a chamada se convertesse em um jogo de conhecimentos sobre o gênero, um quiz de perguntas e respostas, fazendo, enfim, com que Kevin se esquecesse de seu medo.

Este episódio o inspirou a escrever o que viria a ser a cena inicial de Pânico, na época, ainda sob o nome de “Scary Movie”, em que o assassino liga para a garota e testa seus conhecimentos sobre filmes de terror.

Era o começo de uma revolução. Pois, à partir disso, e levando em conta seu grande amor por Halloween: Noite do Terror e A Hora do Pesadelo, todo o passado do terror Slasher passaria a constituir o enredo do filme como uma de suas características principais. Williamson queria, a um só tempo, parodiar e homenagear os filmes que o influenciaram.

A própria escalação de Drew Berrymore para a sequência de abertura opera nesse sentido. Estrela em ascensão na época, a atriz aparecia nos principais pôsters de Pânico. Sua morte, logo no começo, estabelece um diálogo com Psicose, que usa o artifício de escalar uma atriz famosa, na época, como falsa protagonista nos primeiros minutos do filme. Ao mesmo tempo, subverte as expectativas, já que Jamie Lee Curtis, além de Halloween, estrelou A Morte Convida para Dançar e O Trem da Morte e, portanto, ver uma estrela da época no início de um Slasher indicava ao público, por si só, que ela seria a Final Girl.
Pânico, ao nos apresentar seu mundo, segue a cartilha: A virgem candidata a Final Girl, a patricinha, o nerd, o palhaço e o bonitão descolado. No aniversário de um evento traumático acontece um assassinato que abala a pequena cidade de Woodsboro e a chacina, levada a cabo por um assassino mascarado, se desenrola no período de dois dias, aterrorizando o grupo de jovens que, nem por isso, deixa de dar uma festa no auge do terceiro ato.

Um a um, os tropos que constituem o Slasher vão sendo subvertidos e descontruídos, mas isso só é possível porque Pânico parte de todos eles e os menciona a todo instante. Não apenas Randy, o nerd que trabalha na locadora, domina as regras dos filmes de terror, mas o próprio Ghostface e todos os outros personagens. Lembrar constantemente dessas regras pode ser a chave para sobreviver e descobrir quem está por trás da matança.

A fantasia de Ghostface o despersonaliza por inteiro. Não é possível, por exemplo, dizer se é um homem ou uma mulher. Ele corre, tropeça, cai. Diferentemente de outros assassinos que mal se movem e conseguem exercer grande poder psicológico, fazendo com que suas vítimas é que tropecem em todo e qualquer obstáculo ou se esconda no lugar errado. Seu gênero é menos explícito, mas sua humanidade fica escancarada. Reitera-se, com isso, uma das maiores forças do Slasher. O horror sai de dentro do próprio dia a dia, da vida comum que começa a diluir-se. Não é um demônio ou criatura de outro planeta mas, não apenas um humano, alguém de seu próprio ciclo de pessoas a fazer a normalidade da vida ir pelo ralo. Nenhum gênero traz, tão fortemente, a sensação de que o cotidiano está sempre por um fio e que algo de sombrio subjaz a toda normalidade. E mais: Ghostface são duas pessoas. Esse é um aspecto que ironiza, diretamente, a onipresença de Jason ou Michael Myers.

A primeira parceria de Wes Craven e Kevin Williamson, para além da assimilação autoconsciente do terror, tem um forte apelo junto aos jovens. Engraçado, sem chegar a ser um filme de comédia, é curiosamente próximo das Teen Comedys, como American Pie, e mantém até hoje um certo frescor. O roteiro, mas também a escolha do elenco, alcança um feito parecido com o que John Hughes fez na década anterior. Seus filmes de amadurecimento como Curtindo a Vida Adoidado ou Clube dos Cinco, captura o coração da personalidade, ansiedades e esperanças dos adolescentes da época. Pânico tem a habilidade de fazer exatamente a mesma coisa em um filme de terror.
O auge do momento metalinguístico, a transmissão de Halloween, durante a festa, enquanto Randy explica as regras do Slasher é o auge técnico do filme.

O recurso do Mis En Abyme (o filme dentro do filme) sobrepõe Halloween e Pânico. A montagem paralela mostra Randy falando enquanto Sidney perde a virgindade com Billy. Há uma relação de espelhamento entre o que se passa na TV e o que acontece na festa. Inclusive, quando Randy tenta avisar Jamie Lee Curtis que o assassino está logo atrás dela e Ghostface se aproxima lentamente, há uma camada a mais para quem sabe que o ator de Randy chama-se Jamie na vida real. As duas trilhas sonoras passam a intercalar e a música de Halloween é que cria o suspense da cena. Ao final, revelados os Ghostface, com Sidney consolidando-se um novo tipo de Final Girl, a televisão, com Jamie Lee Curtis segurando uma faca, cai em cima de Stu, um dos Ghostface.

Auge técnico porque, através desse recurso, Pânico assimila o Slasher através de Halloween e o supera, “liberta-se” de suas regras sem deixá-las de lado. Dos tropos narrativos aos movimentos de câmera, Pânico é resultado de um acúmulo técnico que se torna consciência de si e faz com que um gênero considerado “segundo escalão” se eleve acima de seus clichês, partindo de dentro dos próprios.

O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.