Por Marcelo Paiva
Quando o cinema denuncia as fronteiras invisíveis – Um desabafo cansado sobre a precariedade dos nossos acessos brasileiros.
Ainda busco compreender a razão pela qual nossos streamings insistem em desprezar a força das cinematografias africanas. Não é por falta de qualidade, tampouco por ausência de público interessado. O problema parece ser outro: um desinteresse estrutural, que nos condena a permanecer alheios a obras capazes de dialogar diretamente com as urgências do nosso tempo. Paraíso Prometido, longa dirigido pela tunisina Erige Sehiri, é prova incontornável dessa negligência. O filme circula por festivais internacionais, conquista público e crítica, e mesmo assim permanece praticamente invisível para o espectador brasileiro comum.
Não é a primeira vez que nos deparamos com essa barreira. Em nosso portal, já apresentamos ao público títulos fundamentais vindos do continente africano, como Você Morrerá aos 20 Anos (Sudão), Cabo de Guerra (Tanzânia) e On Becoming a Guinea Fowl (Zâmbia). Em todos esses casos, a experiência de acesso no Brasil foi a mesma: precária, restrita a exibições pontuais em festivais ou a plataformas estrangeiras de difícil alcance. Há sempre um contraste doloroso entre a potência dessas obras e a fragilidade dos caminhos de circulação. O resultado é que, mesmo quando conseguimos trazer à tona vozes que merecem reconhecimento, sua presença se esvai com rapidez, soterrada pela ausência de distribuição formal.
E o que se perde com essa ausência? Uma narrativa rara, que transforma o drama da imigração em matéria viva de cinema. Sehiri nos conduz à Tunísia contemporânea, onde três mulheres migrantes da África Subsaariana tentam costurar existências frágeis em meio à intolerância crescente. Marie, figura de resistência e fé, sustenta sua casa como um último abrigo contra a violência cotidiana. Jolie, jovem estudante de engenharia, encara a precariedade como obstáculo diante de seus sonhos de independência. E Naney, arrancada da filha, vê sua dignidade corroída pelas negativas burocráticas que a transformam, a cada novo documento recusado, em alguém sem lugar no mundo.
O impacto do filme não nasce apenas do retrato da dor. Sehiri sabe que limitar-se à denúncia seria pouco. O que Paraíso Prometido oferece é mais profundo: a escuta atenta da intimidade dessas mulheres, o gesto de devolver humanidade a quem a xenofobia insiste em apagar. A câmera percorre corpos e espaços, enfatizando as marcas de uma perseguição que não é grandiloquente, mas banal — está nos olhares desconfiados, nos interrogatórios sem motivo, na violência burocrática que condena à clandestinidade. É nesse detalhe cotidiano, mais do que nos atos espetaculares, que o filme revela a verdadeira dimensão da crueldade.
Trata-se, afinal, de uma obra que expõe as rachaduras não só da Tunísia, mas de todo um sistema global que transforma migrantes em números descartáveis. E o faz sem cair na armadilha da vitimização absoluta. Há afeto, há momentos de esperança, há vínculos frágeis que se reinventam. O que Sehiri constrói é uma crítica feroz à promessa de pertencimento que nunca se cumpre — o “paraíso” sempre adiado, sempre reservado a outros, nunca a elas.
Em um mercado audiovisual que insiste em nos oferecer fórmulas repetidas, perder a chance de exibir Paraíso Prometido é abrir mão de uma das críticas mais poderosas do cinema recente. Este filme não pede complacência; exige que olhemos de frente para a crueldade do presente. E nos lembra que, em um mundo dividido entre terras de sonho e terras de dor, a vitória de uns é sempre erguida sobre o apagamento de muitos. Se existe uma terra prometida, é preciso reconhecer: ela não é para todos.