Por Lucas Costa
Hayao Miyazaki já expressou desconforto com o excesso de representações do passado japonês protagonizadas por samurais, as quais abundam nos animes e, mesmo, na obra de mestres, como Akira Kurosawa.
Em Princesa Mononoke, obra de 1997, o autor busca referências nos povos Emishi, grupo étnico que viveu no norte do Japão até cerca de 500 anos atrás, para a construção de seu herói, Ashitaka.
Este é um filme que carrega todas as principais características da obra de Miyazaki: grande presença do Shintoísmo, luta entre natureza e civilização, o elemento fantástico e fortes personagens femininas. É, sem dúvida, também, o filme mais violento já produzido pelos estúdios Ghibli.
Após proteger sua vila e acabar sendo amaldiçoado por um deus raivoso, transformado em demônio por ser vítima de uma bala de canhão, o príncipe Ashitaka parte em uma jornada para tentar reverter o seu destino. Ele encontra Lady Eboshi e sua cidade-fortaleza, que são a causa do mal que lhe acometeu. Ela vive em constante conflito com os espíritos da floresta, sobretudo, com uma garota que foi criada por lobos e que tem, como principal objetivo, matá-la para libertar a floresta de sua destruição.
Na construção desses conflitos, não há nenhum tipo de maniqueísmo. Lady Eboshi deixa clara sua ambição de destruir os animais e espíritos para tomar posse da floresta. Mas sua cidade é mantida, principalmente, pelo trabalho de mulheres que ela salva da prostituição. Além disso, ela mantém uma ala médica em que cuida dos leprosos enquanto, em troca, eles trabalham na confecção de armas. Por outro lado, todos os Kami, os deuses, nutrem profundo ódio pelos humanos pelo desequilíbrio causado, já que vêem, cada vez mais, seu mundo ruir.
Este é um tema que aparece com muita clareza, também, em Vidas ao Vento. O progresso, essencial ao nosso desenvolvimento enquanto civilização, mas que, inevitavelmente, se faz à partir da destruição e da exploração desenfreada. A fortaleza de Lady Eboshi representa este polo com todas as suas contradições.
O tema do filme, em geral, e até da obra do autor, é enunciada, em diálogo, por um dos homens leprosos: estamos todos amaldiçoados, mas desejamos continuar vivendo.
Desta vez, em vez da Guerra, no mundo real do século XX, Miyazaki situa o embate em um passado mítico.
Como efeito, o que se captura, é o desenvolvimento da modernidade como agente do Desencantamento do Mundo, como teorizado pelo sociólogo alemão Max Weber. É o que acontece quando os canhões de Lady Eboshi matam o grande Espírito da floresta e a espiritualidade passa, então, a existir como “algo em geral”.
Ashitaka se vê interpelado por todos os lados, interrogado sobre por quem está lutando e quais são seus interesses. Em busca de ver a verdade com os olhos livres de ódio, o príncipe faz alianças pontuais com diversas forças opostas na busca, sobretudo, de evitar que a natureza seja destruída.
A destruição é inevitável, mas a maldição é revogada. Enquanto o Espírito, encarnado na figura do animal, morre, e parte da fortaleza é destruída, o final traz um instigante e inesperado ar de esperança. Afinal, as pessoas estão vivas e, mesmo em meio às ruínas, é possível continuar vivendo.