Projeto A Sala

Críticas

Quero Ser Grande (1988)

Por Mariana Moreira

Os anos 80, por mais que não tenham sido exatamente a década ideal para propósitos políticos ou econômicos, certamente foram um estouro dentro do universo da cultura pop. Filmes que marcaram tanto o público quanto a crítica e muitos deles para nossa sorte seguem mantendo sua essência e originalidade ao terem o mesmo nível de impacto aos olhos de futuras gerações. Certamente muitos de nós ouviram falar de Tom Hanks, mas será que a maioria está a par da obra audiovisual responsável por catapultar o ator para o sucesso? “Quero Ser Grande” ou “Big” em seu título original, foi lançado em 1988 e mistura de forma geniosa elementos de comédia dramática com fantasia, reflexões e, acima de tudo, aprendizados dentro do contexto do crescimento sem deixar nossa criança interior de lado.

Josh Baskin, um garoto de 12 anos frustrado com as responsabilidades e limitações que lhe cabem, faz um pedido a uma máquina chamada Zoltar em um parque de diversões, para no dia seguinte se encontrar no corpo de um adulto. Com a aparência física transformada, porém mantendo a mesma mentalidade com camadas de pureza, simplicidade e certa ingenuidade, Josh agora deve mergulhar de cabeça em situações divertidas e ao mesmo tempo delicadas: o menino que agora veste terno, trabalha em uma empresa de brinquedos, descobre que o mundo dos adultos não é tão simples quanto parecia.

Acredito que para os que assistiram ao filme, a primeira cena que não associemos a ele seja o momento clássico do piano tocado na loja de brinquedos FAO Shwarz. A cena se tornou uma peça icônica dentro da linguagem cinematográfica ao mostrar Tom Hanks e Robert Loggia tocam juntos “Chopsticks” e “Heart and Soul” com os pés nas teclas do gigante piano da loja. Este momento virou símbolo da produção e até hoje é lembrado como uma das sequências mais alegres do cinema dos anos 80. Não só isso, mas outros fatores que fazem a cena ser tão especial são sua espontaneidade, magia da infância e memória cultural, sendo que a sequência virou referência em programas de TV, comerciais e até inspirou réplicas do piano em lojas de brinquedos. Uma curiosidade a mais se deve a loja FAO Schwarz, onde a cena foi filmada, ter se tornado ponto turístico por causa do filme. Muitos visitantes iam até lá apenas para experimentar o famoso piano gigante.

Algo de suma importância dentro da produção audiovisual não é apenas revolucionar no contexto cultural, mas ter igualmente um apelo social. No caso de “Quero Ser Grande”, a diretora Penny Marshall tornou-se primeira mulher a dirigir um filme que arrecadou mais de 100 milhões de dólares nos Estados Unidos. Esse feito marcou a história de Hollywood e consolidou sua carreira como cineasta, o que abriu espaço para mulheres da indústria na direção de grandes produções, embora ainda em pleno século XXI, haja um longo caminho a ser trilhado dentro da representação em filmes da indústria hollywoodiana. O olhar sensível e divertido de Penny Marshall deu ao filme o equilíbrio perfeito entre fantasia e emoção. Sua direção em “Quero Ser Grande” é lembrada pela delicadeza com que retratou a transição entre infância e vida adulta, tendo sido pioneira em um mercado dominado por homens, mostrando que mulheres podiam comandar filmes de grande orçamento e sucesso.

Para Tom Hanks, o filme foi o grande divisor de águas em sua carreira, consolidando-o como estrela de Hollywood. A produção lhe rendeu sua primeira indicação ao Oscar de Melhor Ator e abriu caminho para que fosse reconhecido como um dos intérpretes mais versáteis e carismáticos do cinema.

Na minha opinião, cavando mais fundo para além da cena marcante do piano, um determinado momento do filme por pouco me toca mais: a última cena em que Josh se despede de Susan, sua colega de trabalho e interesse romântico interpretada por Elizabeth Perkins. Por mais que a cena mostre um breve diálogo entre os personagens sobre como ambos marcaram as vidas um do outro, do momento em que Josh volta a ser uma criança em um terno e sapatos grandes demais para seu tamanho e troca olhares com Susan, ao som da trilha sonora de Howard Shore, que mistura temas orquestrais suaves com momentos mais lúdicos, vemos que na singularidade do breve momento em que os personagens se olham uma última vez está uma mensagem profunda: não irão esquecer um do outro, assim como dentro da construção da cena sem o uso de um diálogo forçado, há um tom mágico e delicado que reforça o contraste entre infância e vida adulta.

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