Projeto A Sala

Críticas

Superbad (2007)

Por Lucas Costa

Às vezes é necessário se tomar uma distância adequada para ver as coisas como realmente são. Superbad, um tanto incompreendido à época de seu lançamento, é um desses casos e, quase vinte anos depois, firma-se como uma das comédias mais relevantes do século.

Misturando o espírito de  A Vingança dos Nerds, Clube dos 5 e American Pie, o filme era exageradamente comparado a estes, sendo uma comédia de formação retratando protagonistas nerds e lançada num momento onde os filmes de festa em que homens virgens desesperados por transar, como Eurotrip ou Road Movie, estavam em alta. Toda essa filiação é nítida já que as obras de Seth Rogen e Evan Goldberg costumam ser cartas de amor ao cinema que prestam homenagem às suas referências, mas engana-se quem tenta encaixar Superbad em uma caixinha ou outra. Antes, a obra se vale das convenções desses gêneros para elevá-los a uma coisa nova: Suberbad é a obra prima e exemplo paradigmático da chamada Raunchy Comedy.

Judd Apatow e sua trupe – Seth Rogen, James Franco, Jonah Hill, Evan Goldberg, Leslie Man, Rose Byrne – no início dos anos 2000, pegam carona no esgotamento das comédias românticas e tomam emprestados os seus principais tropos para explorar as dinâmicas da amizade masculina. Assim, a Raunchy Comedy planta seus pés em algumas máximas da RomCom:

  1. o personagem traça sua jornada através da vulnerabilidade e tira sua força, justamente, dessa vulnerabilidade;
  2. o compartilhamento da intimidade com o outro é o motor do conflito e o lugar da transformação interna.

Suberbad acompanha Seth, Evan e Fogell na luta para comprar bebidas e impressionar (transar com) as garotas Jules e Becca em uma festa na casa de Jules. Prestes a se formar no colégio, os amigos inseperáveis não lidam bem com o fato de que irão para universidades diferentes e tentam aproveitar uma última oportunidade de se dar bem com o sexo oposto.

São garotos deslocados, “goofy guys”, “manchild” que não tem nenhum traquejo para falar com meninas e nenhum prestígio com meninos populares. Jonah Hill e Michael Cera, aliás, já estão muito bem adequados aos tipos que vieram a desenvolver ao longo da carreira, sobretudo Cera, que se manteve no lugar do nerd bobão. Repetem falas e comportamentos machistas, sempre as colocando como objeto sexual. Vemos a obsessão com o pênis, frequentação excessiva de pornografia, bebedeiras insalubres e o check up completo de uma masculinidade abobalhada em formação. O conflito central se coloca quando a mãe de Evan pergunta se os dois vão sentir saudade um do outro e os moleques ficam sem jeito com a pergunta. “Não”, respondem. “We don’t miss each other”. Está colocado o estereótipo do homem que não mostra sentimentos.

A genialidade se encontra no fato de que o próprio núcleo deste novo gênero de comédia, conservado das histórias de romance, a saber, a intimidade e a vulnerabilidade, são o problema a ser trabalhado em Evan, Seth e Fogell. Enquanto os dois primeiros partem numa jornada desastrosa, mergulhando nas suas falhas e inseguranças, Fogell encarna diretamente o alter-ego Mclovin quando dois policiais fanfarrões resolvem, o que o possibilita saltar direto para um novo tipo de comportamento.

Por trás da perseguição a garotas bonitas e por encher a cara, entre usos de drogas e brigas em festa, a verdade do filme vem à tona primeiro quando os Seth e Evan são recebidos como heróis na festa mas acabam por não transar com Jules e Becca. Becca se joga pra cima de Evan mas ele percebe que o estado de embriaguez da menina torna a situação desfavorável. Ele próprio recusa o ato. Por outro lado, Seth planejava embebedar Jules para que ela se interessasse por ele e se surpreende quando a garota (primeiro papel de Emma Stone na telona) diz que não bebe e que se interessaria por Seth de qualquer forma, já que ele é engraçado e se divertido. A bebida faz com que ele abra o coração e exponha suas inseguranças consigo mesmo e diante dos outros pela primeira vez, antes de apagar “black-out-drunk”. O comportamento misógino e objetificador não é recompensado com a conquista do sexo.

Depois, a verdade vem à tona quando os dois, em fuga da polícia, discutem a própria relação. Quando Evan confronta Seth por seu comportamento escroto, agressivo e egoísta, o amigo confessa que tudo se trata de ciúmes. Um ciúmes que, até então, o personagem não tinha ferramentas para expressar e botava pra fora em uma espécie de retorno do recalcado.

O filme tem seu clímax quando, conscientes de si mesmos, enfim, os meninos se abraçam, bêbados e confessam um ao outro que se amam. A cena é pura catarse, como se tivessem descoberto uma nova palavra que agora desbloqueia uma nova maneira de estar no mundo, mais honesta e corajosa. O que possibilita, também, conversar normalmente com Jules e Becca e estabelecer, com elas, uma relação respeitosa e saudável. A maturidade é atingida quando se reconhece suas fragilidades e aceita-se o amor por seus iguais.

Por fim, Superbad é um clássico hilário, uma aula de roteiro, que consegue capturar o Espírito de seu tempo e se firmar como obra atemporal. Em mundo em que se proliferam Incels e Redpills, a mensagem é simples, verdadeira e universal: respeite as garotas, expresse seus sentimentos, ame seus amigos.

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