Por Lucas Costa
Dirigido por Sergio Martino, que raramente é mencionado entre os nomes de alto escalão do Giallo, como Mário Bava e Dario Argento, Torso foi o filme que me introduziu ao gênero. Agora, depois de passear por algumas de suas principais obras, esta continua figurando como uma das mais essenciais do Giallo e, também, uma das principais antecipações do Slasher, seu filho estadunidense.
Lançado em 1973, Torso acompanha um grupo de universitárias que, após a morte de algumas amigas, resolve se refugiar por alguns dias em uma casa no interior. Ali, elas passam a ser aterrorizadas por um assassino mascarado, cuja principal arma é um lenço.
É curioso pensar que, no ano seguinte, seria lançado Natal Negro, nos Estados Unidos, com inúmeras semelhanças formais e de enredo: um grupo de garotas em uma casa isolada que acaba por ser invadida e a câmera mostrando o ponto de vista do assassino, por exemplo. Este último, recurso que também teria grande impacto em Halloween. O interessante é que Torso foi lançado na América apenas dois anos depois, prova de que o Slasher já vinha sendo organicamente gestado pelo espírito do tempo.
Para além destes dois aspectos, a máscara também era uma novidade, já que as luvas é que costumavam ser a marca registrada dos filmes de serial killer italianos. Aqui já aparece também uma amostra da emblemática Final Girl que, após a matança geral, é a única sobrevivente depois da luta um a um contra o vilão.
O aspecto sexual, já bastante presente nos Gialli predecessores, é elevado a tema e motivação. O olhar masculino que transforma o corpo feminino em uma plataforma vazia e objetificada de fantasias por um lado, e o homem que encontra gratificação sexual em matar e mutilar as suas vítimas mulheres são as linhas de força desta história que une desejo e violência de maneira tão forte quanto Sexta-Feira 13, mas com bem menor carga moralista.
O que o mantém firme na tradição dos mestres Bava e Argento é o tempo da história, que atravessa vários dias de tensão e investigação policial; e a atmosfera única de suspense e mistério, tributária da literatura pulp, como a de Agatha Christie, que influenciou inclusive o nome do subgênero por conta de suas habituais capas amarelas. (Giallo significa “amarelo”)
A maravilhosa sequência da primeira morte, na floresta, dá esse tom com maestria, mas é apenas durante todo o terceiro ato que esse elemento alcança seu auge.
Por fim, ao descobrir que tudo gira em torno das questões psicológicas e do trauma do passado, Torso conecta-se firmemente a uma leva de filmes que explora a relação da Itália com a memória de seu passado fascista.
Não é à toa que mestres de filmes sangrentos, como Tarantino, tem em alta conta essa obra que, tardiamente, entrou para panteão das grandes obras do terror e do cinema italiano.