Por Lucas Costa
“Como assim, ‘Um Lobisomem Americano em Londres?'” é comum perguntarem quando menciono esse filme, muitas vezes, acreditando se tratar de alguma sátira ou algo mais “Lado B”.
É curioso que essa obra hoje passe batida por muitos, já que não apenas foi um sucesso à época do seu lançamento, como se firmou, logo de saída, uma das mais influentes da cultura pop.
Jack e David são dois amigos americanos viajando pela Inglaterra. Após não serem bem recebidos em uma taberna local, acabam sendo atacados por um lobo. Um deles acaba sobrevivendo mas começa a ter visões do amigo morto que o avisa que, em breve, se tornará um monstro e matará mais pessoas.
Este é um filme singular por inúmeros motivos. Um deles é a junção de comédia com terror, que abriria caminho, por exemplo, para Sam Raimi e seu Evil Dead. O próprio diretor, John Landis, comenta que as pessoas implicavam tentando ora entendê-lo como assustador demais para uma comédia, ora engraçado demais para um terror, sem conceber como um filme poderia ser tanto das duas coisas. Terror e comédia compartilham uma proximidade por certas mecânicas como quebra de expectativa, exagero e associação que podem gerar riso ou susto a depender de tom e timing. Explorando as situações do ponto de vista do próprio personagem que se transforma em lobisomem, o título do filme entra em cena, já que tudo passa pelo estranhamento da sua condição de estrangeiro. Ao entrarem na taberna ou na cena do zoológico, temos a impressão de ver um norte-americano jogado em um esquete do Monthy Pyton.
As piadas surgem com naturalidade do choque da visão dos garotos com os tipos propriamente britânicos e do absurdo que invade o dia a dia da viagem. Em nenhum momento, porém, o filme se torna uma sátira ou paródia. Não há nada de cínico ou irônico neste lobisomem. Ao contrário, há profunda honestidade e muito coração, de modo que caímos na gargalhada e, logo depois, estamos assustados ou, até mesmo, tristes e apreensivos por estes personagens.
A abordagem original da mitologia deste monstro passa pela chave central do filme: a culpa. Não há balas de prata, tudo é muito mais mundano. Inclusive, os personagens tentam antecipar o que vai acontecer relembrando o clássico protagonizado por Bela Lugosi, mostrando a assimilação e superação conscientes do gênero.
Voltando ao elemento da culpa, ele é dado no diálogo nos primeiros minutos da obra e retomado ao longo da narrativa. David não foi capaz de proteger Jack e tomou decisões que contribuíram para a morte do melhor amigo. Jack aparece cada vez mais decomposto e degradado avisando seu amigo que ele precisa tirar a própria vida para interromper a maldição e, enfim, libertar a sua alma.
Ocorre a cisão que faz com que David busque contato com a sua família, tenha pesadelos, tente ser preso e entre num relacionamento com a enfermeira em que ela se atrai por sua fragilidade e, ele, por seu cuidado. David busca se agarrar nas formas seguras e estáveis que escapam irreversivelmente por suas mãos e, assim, o estranhamento/estrangeirismo é a raiz da bestialidade desde rapaz que já não suporta o fardo de ser um homem.
Mais do que os méritos de um filme de monstro engraçado ou de um filme de comédia aterrorizante, Um Lobisomem Americano em Londres logra alcançar maior profundidade psicológica, emocional e existencial do que os filmes de terror e comédia haviam conseguido até então, abrindo novas possibilidades para tudo o que seria feito depois.