Projeto A Sala

O Homem sem Face (1993)

Críticas O Homem sem Face (1993) Por Mariana Moreira Sabe quando estamos buscando sobre determinado filme e nos deparamos com outro que nem sequer tínhamos ouvido falar, mas imediatamente despertam nosso interesse? Particularmente acho interessante quando acontece, pois, além de sempre poder aumentar o repertório relacionado a cinema, também podemos ter uma boa surpresa ao nos depararmos com uma história capaz de nos comover e nos fazer refletir. O Homem sem Face, intitulado em seu idioma original como The Man Without a Face, é um filme do gênero dramático estrelado por Mel Gibson, que também marca sua estreia na direção do longa-metragem. O roteiro escrito por Malcolm MacRury se baseia no livro homônimo escrito por Isabelle Holland, lançado em 1972. Embora a adaptação tenha suas diferenças em relação ao material de origem, a mensagem principal da narrativa se mantém a mesma com um significado universal e atemporal: estar aberto a aceitar, compreender e acolher aqueles que são vistos como “diferentes”. Este é um dos filmes que nos atraí por parecer falar diretamente do coração, não apenas por sua história, mas pela forma como nos convida a olhar para além das aparências. A trama e seus silêncios O jovem Chuck Norstadt (Nick Stahl) sonha em entrar para a academia militar, mas enfrenta dificuldades acadêmicas e emocionais. É nesse contexto que ele se aproxima de Justin McLeod (Mel Gibson), um ex-professor que vive isolado após um acidente que deixou seu rosto desfigurado. O que começa como uma relação de tutoria se transforma em um vínculo profundo, onde cada um aprende a lidar com suas próprias dores e expectativas. O filme não se apressa: prefere os silêncios, os olhares e os gestos contidos para construir a confiança entre os personagens.   A direção de Gibson A estreia de Mel Gibson como diretor não foi marcada por grandiosidade épica – como veríamos depois em Coração Valente -, mas por um drama intimista que se concentra na relação entre um homem marcado por cicatrizes e um garoto em busca de direção. É curioso perceber como Gibson, em sua primeira experiência por trás das câmeras, escolhe um tom delicado e quase contemplativo em uma direção que foi recebida com elogios pela crítica. A fotografia de Donald McAlpine, com paisagens costeiras do estado de Maine nos Estados Unidos e luz suave, reforça a sensação de isolamento e ao mesmo tempo de possibilidade de renovação. A trilha sonora de James Horner, um de meus compositores favoritos, acompanha esse ritmo, sem melodrama excessivo, mas com emoção suficiente para sublinhar momentos de descoberta e afeto. Temas que ressoam Preconceito: McLeod é julgado não apenas por sua aparência, mas por rumores que o cercam, revelando como a sociedade pode ser cruel com o diferente. Mentoria: a relação entre professor e aluno mostra como o aprendizado vai além dos livros, envolvendo confiança e humanidade. Redenção: tanto Chuck quanto McLeod buscam superar traumas e encontrar novos caminhos, e é no encontro entre eles que surge a possibilidade de cura. Embora não tenha se tornado um grande sucesso de bilheteria ou um clássico popular, O Homem sem Face conquistou respeito por sua abordagem sensível e pela atuação de Gibson, que soube equilibrar a dureza do personagem com sua vulnerabilidade. Nick Stahl, ainda adolescente, entrega uma performance que dá credibilidade ao arco de crescimento de Chuck.    Assistir à esta obra é revisitar um drama que fala sobre ver além das cicatrizes – sejam físicas ou emocionais. É um convite a reconhecer que, muitas vezes, o verdadeiro aprendizado está na capacidade de enxergar o outro em sua complexidade. O Homem sem Face é uma estreia digna de nota, que revela a ambição artística de Mel Gibson e entrega uma narrativa tocante sobre aceitação e transformação. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.

Princesa Mononoke (1997)

Críticas Princesa Mononoke (1997) Por Lucas Costa Hayao Miyazaki já expressou desconforto com o excesso de representações do passado japonês protagonizadas por samurais, as quais abundam nos animes e, mesmo, na obra de mestres, como Akira Kurosawa.Em Princesa Mononoke, obra de 1997, o autor busca referências nos povos Emishi, grupo étnico que viveu no norte do Japão até cerca de 500 anos atrás, para a construção de seu herói,  Ashitaka.Este é um filme que carrega todas as principais características da obra de Miyazaki: grande presença do Shintoísmo, luta entre natureza e civilização, o elemento fantástico e fortes personagens femininas. É, sem dúvida, também, o filme mais violento já produzido pelos estúdios Ghibli.Após proteger sua vila e acabar sendo amaldiçoado por um deus raivoso, transformado em demônio por ser vítima de uma bala de canhão, o príncipe Ashitaka parte em uma jornada para tentar reverter o seu destino. Ele encontra Lady Eboshi e sua cidade-fortaleza, que são a causa do mal que lhe acometeu. Ela vive em constante conflito com os espíritos da floresta, sobretudo, com uma garota que foi criada por lobos e que tem, como principal objetivo, matá-la para libertar a floresta de sua destruição.Na construção desses conflitos, não há nenhum tipo de maniqueísmo. Lady Eboshi deixa clara sua ambição de destruir os animais e espíritos para tomar posse da floresta. Mas sua cidade é mantida, principalmente, pelo trabalho de mulheres que ela salva da prostituição. Além disso, ela mantém uma ala médica em que cuida dos leprosos enquanto, em troca, eles trabalham na confecção de armas. Por outro lado, todos os Kami, os deuses, nutrem profundo ódio pelos humanos pelo desequilíbrio causado, já que vêem, cada vez mais, seu mundo ruir.Este é um tema que aparece com muita clareza, também, em Vidas ao Vento. O progresso, essencial ao nosso desenvolvimento enquanto civilização, mas que, inevitavelmente, se faz à partir da destruição e da exploração desenfreada. A fortaleza de Lady Eboshi representa este polo com todas as suas contradições.O tema do filme, em geral, e até da obra do autor, é enunciada, em diálogo, por um dos homens leprosos: estamos todos amaldiçoados, mas desejamos continuar vivendo. Desta vez, em vez da Guerra, no mundo real do século XX, Miyazaki situa o embate em um passado mítico. Como efeito, o que se captura, é o desenvolvimento da modernidade como agente do Desencantamento do Mundo, como teorizado pelo sociólogo alemão Max Weber. É o que acontece quando os canhões de Lady Eboshi matam o grande Espírito da floresta e a espiritualidade passa, então, a existir como “algo em geral”.Ashitaka se vê interpelado por todos os lados, interrogado sobre por quem está lutando e quais são seus interesses. Em busca de ver a verdade com os olhos livres de ódio, o príncipe faz alianças pontuais com diversas forças opostas na busca, sobretudo, de evitar que a natureza seja destruída. A destruição é inevitável, mas a maldição é revogada. Enquanto o Espírito, encarnado na figura do animal, morre, e parte da fortaleza é destruída, o final traz um instigante e inesperado ar de esperança. Afinal, as pessoas estão vivas e, mesmo em meio às ruínas, é possível continuar vivendo.  O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.

Pânico (1996)

Críticas Pânico (1996) Por Lucas Costa Diz a anedota que, enquanto o roteirista Kevin Williamson assistia a um programa sobre o serial killer conhecido como o Estripador de Gainesville, entrou em paranoia com medo de que alguém, realmente, tentasse invadir a sua casa. Então, ligou para um amigo, na esperança de que este o tranquilizasse. Do outro lado da linha, porém, seu amigo começou a provocá-lo citando vários clássicos filmes Slasher. Não demorou para que a chamada se convertesse em um jogo de conhecimentos sobre o gênero, um quiz de perguntas e respostas, fazendo, enfim, com que Kevin se esquecesse de seu medo. Este episódio o inspirou a escrever o que viria a ser a cena inicial de Pânico, na época, ainda sob o nome de “Scary Movie”, em que o assassino liga para a garota e testa seus conhecimentos sobre filmes de terror. Era o começo de uma revolução. Pois, à partir disso, e levando em conta seu grande amor por Halloween: Noite do Terror e A Hora do Pesadelo, todo o passado do terror Slasher passaria a constituir o enredo do filme como uma de suas características principais. Williamson queria, a um só tempo, parodiar e homenagear os filmes que o influenciaram. A própria escalação de Drew Berrymore para a sequência de abertura opera nesse sentido. Estrela em ascensão na época, a atriz aparecia nos principais pôsters de Pânico. Sua morte, logo no começo, estabelece um diálogo com Psicose, que usa o artifício de escalar uma atriz famosa, na época, como falsa protagonista nos primeiros minutos do filme. Ao mesmo tempo, subverte as expectativas, já que Jamie Lee Curtis, além de Halloween, estrelou A Morte Convida para Dançar e O Trem da Morte e, portanto, ver uma estrela da época no início de um Slasher indicava ao público, por si só, que ela seria a Final Girl.Pânico, ao nos apresentar seu mundo, segue a cartilha: A virgem candidata a Final Girl, a patricinha, o nerd, o palhaço e o bonitão descolado. No aniversário de um evento traumático acontece um assassinato que abala a pequena cidade de Woodsboro e a chacina, levada a cabo por um assassino mascarado, se desenrola no período de dois dias, aterrorizando o grupo de jovens que, nem por isso, deixa de dar uma festa no auge do terceiro ato. Um a um, os tropos que constituem o Slasher vão sendo subvertidos e descontruídos, mas isso só é possível porque Pânico parte de todos eles e os menciona a todo instante. Não apenas Randy, o nerd que trabalha na locadora, domina as regras dos filmes de terror, mas o próprio Ghostface e todos os outros personagens. Lembrar constantemente dessas regras pode ser a chave para sobreviver e descobrir quem está por trás da matança. A fantasia de Ghostface o despersonaliza por inteiro. Não é possível, por exemplo, dizer se é um homem ou uma mulher. Ele corre, tropeça, cai. Diferentemente de outros assassinos que mal se movem e conseguem exercer grande poder psicológico, fazendo com que suas vítimas é que tropecem em todo e qualquer obstáculo ou se esconda no lugar errado. Seu gênero é menos explícito, mas sua humanidade fica escancarada. Reitera-se, com isso, uma das maiores forças do Slasher. O horror sai de dentro do próprio dia a dia, da vida comum que começa a diluir-se. Não é um demônio ou criatura de outro planeta mas, não apenas um humano, alguém de seu próprio ciclo de pessoas a fazer a normalidade da vida ir pelo ralo. Nenhum gênero traz, tão fortemente, a sensação de que o cotidiano está sempre por um fio e que algo de sombrio subjaz a toda normalidade. E mais: Ghostface são duas pessoas. Esse é um aspecto que ironiza, diretamente, a onipresença de Jason ou Michael Myers. A primeira parceria de Wes Craven e Kevin Williamson, para além da assimilação autoconsciente do terror, tem um forte apelo junto aos jovens. Engraçado, sem chegar a ser um filme de comédia, é curiosamente próximo das Teen Comedys, como American Pie, e mantém até hoje um certo frescor. O roteiro, mas também a escolha do elenco, alcança um feito parecido com o que John Hughes fez na década anterior. Seus filmes de amadurecimento como Curtindo a Vida Adoidado ou Clube dos Cinco, captura o coração da personalidade, ansiedades e esperanças dos adolescentes da época. Pânico tem a habilidade de fazer exatamente a mesma coisa em um filme de terror.O auge do momento metalinguístico, a transmissão de Halloween, durante a festa, enquanto Randy explica as regras do Slasher é o auge técnico do filme. O recurso do Mis En Abyme (o filme dentro do filme) sobrepõe Halloween e Pânico. A montagem paralela mostra Randy falando enquanto Sidney perde a virgindade com Billy. Há uma relação de espelhamento entre o que se passa na TV e o que acontece na festa. Inclusive, quando Randy tenta avisar Jamie Lee Curtis que o assassino está logo atrás dela e Ghostface se aproxima lentamente, há uma camada a mais para quem sabe que o ator de Randy chama-se Jamie na vida real. As duas trilhas sonoras passam a intercalar e a música de Halloween é que cria o suspense da cena. Ao final, revelados os Ghostface, com Sidney consolidando-se um novo tipo de Final Girl, a televisão, com Jamie Lee Curtis segurando uma faca, cai em cima de Stu, um dos Ghostface. Auge técnico porque, através desse recurso, Pânico assimila o Slasher através de Halloween e o supera, “liberta-se” de suas regras sem deixá-las de lado. Dos tropos narrativos aos movimentos de câmera, Pânico é resultado de um acúmulo técnico que se torna consciência de si e faz com que um gênero considerado “segundo escalão” se eleve acima de seus clichês, partindo de dentro dos próprios. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.

O Morro dos Ventos Uivantes (2026)

Críticas O Morro dos Ventos Uivantes (2026) Por Mariana Moreira Que o cinema tem como uma espécie de tradição adaptar histórias clássicas para as telonas, isso já sabemos. Mas será que todas elas funcionam? Algumas chegam praticamente ao mesmo nível de qualidade e recepção positivas que o material que as inspirou, enquanto outras deixam questões em aberto e têm como maior desafio atingir o legado e influência que tiveram geração após geração. A versão de O Morro dos Ventos Uivantes de Emerald Fennel já levantou controvérsias e foi alvo de polêmicas mesmo antes de sua estreia, a começar pela escalação do galã em ascensão Jacob Elordi. O ator australiano, embora charmoso e com talento versátil, deixou grande parte do público um tanto insatisfeito ao ser escalado como intérprete do personagem Heathcliff, que no livro de Emily Brontë é descrito como um “cigano de pele mais escura”, sendo justamente esse o motivo de Heathcliff ser tratado com dureza e crueldade, enquanto Elordi tem o tom de pele caucasiano. Esse é apenas mais um exemplo de que, embora a indústria cinematográfica, hollywoodiana principalmente, tenha evoluído em termos de representação social, o embranquecimento ainda assim continua como um assunto em pauta que se deve ficar de olho. O filme, do meu ponto de vista, merece mais destaque direcionado aos aspectos técnicos e artísticos da produção do que pela narrativa em si. A fotografia talvez seja o mais deslumbrante, com uma paleta de cores que remete a uma atmosfera melancólica e pesada. O figurino tem roupas vibrantes e chamativas, sendo exclusivamente feito para essa versão da obra e segundo a figurinista vencedora do Oscar Jacqueline Durran, não está atrelado a uma determinada época específica. As atuações dos protagonistas vividos por Margot Robbie e Jacob Elordi têm sua intensidade, porém ambos os personagens Catherine “Cathy” Earnshaw e Heathcliff são pouco carismáticos. No caso de Cathy, a protagonista vai de uma jovem de espírito livre a uma mulher submissa vivendo uma vida que lhe é imposta quando renuncia à sua felicidade. Já Heathcliff talvez para mim seja o personagem menos gostável, não apenas porque ao não ser escolhido por Cathy se torna um homem de caráter dominador e vingativo, além de vazio e amargurado, mas também por ser um personagem cujas camadas não são devidamente exploradas, embora no fundo de seus olhos secos possamos ver como a falta de amor tanto o marcou quanto o transformou em alguém por quem até o público seja capaz de nutrir certo desprezo. Emerald Fennell traz uma adaptação do livro de Emily Brontë ao seu estilo, algo que para os fãs da obra original pode ser motivo de desagrado, remetendo a certos elementos mostrados em seus longas-metragens anteriores Saltburn e Bela Vingança, este último que deu a Fennell o Oscar de Melhor Roteiro Original. Em “Wuthering Heights” sua direção e roteiro, embora precisas, são primordialmente marcadas por momentos de sensualidade e erotismo, assim como por um excesso de melodrama e foco na dependência emocional entre o casal protagonista. Devo admitir que, em um contexto geral, O Morro dos Ventos Uivantes é uma história atemporal e reflexiva, mas também questionável e capaz de dividir opiniões. Na época de seu lançamento, o livro de Emily Brontë foi alvo de críticas não apenas porque autoras mulheres eram malvistas naquele período, mas também por se distanciar significantemente dos romances tradicionais ao abordar um relacionamento tóxico e conturbado entre os protagonistas. Então, uma dica: se você se considera um fã do livro, a adaptação de Emerald Fennell pode ser algo um tanto diferente do que se estava imaginando. Sendo assim, espere um “romance” que, por mais que retratado diversas vezes ao longo dos anos, envolve tanto um toque mais ousado quanto um estilo mais excêntrico. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.

Intermediário do Diabo / A Troca (1980)

Críticas Intermediário do Diabo / A Troca (1980) Por Mariana Moreira Costumo pensar que por dentro das histórias de terror, há sempre algo a mais por trás, muitas vezes trazendo em primeiro plano um aspecto psicológico, que por sinal é uma camada que me atrai bastante dentro deste gênero. O que mais chega a me dar calafrios se deve a certas obras cinematográficas, por mais que tenham como principal base uma narrativa ficcional, foram inspiradas em casos reais ou experiências pessoais. Talvez uma das produções menos comentadas durante a década de 80 seja esta, cujos elementos da narrativa tem como fundamento acontecimentos muito mais macabros do que se pode imaginar. Lançado em 1980, The Changeling, em seu título original, embora talvez não conhecido por todos certamente mantém sua reputação como um dos grandes clássicos do horror atmosférico, capaz de provocar arrepios sem recorrer a efeitos exagerados ou sustos fáceis. Dirigido por Peter Medak e estrelado por George C. Scott, o longa se destacou como uma das primeiras produções canadenses a ter notoriedade internacionalmente em um período marcado por filmes que apostavam mais no terror gráfico como Halloween e Sexta-Feira 13. Medak apostou em uma narrativa lenta e carregada de atmosfera, aproximando-se mais do estilo gótico e psicológico. Essa escolha fez do filme uma referência para quem aprecia o terror mais sutil e cerebral. Após perder a esposa e filha em um acidente trágico, o compositor John Russel (George C. Scott) decide recomeçar sua vida em uma antiga mansão. O que deveria ser um refúgio para sua dor se transforma em um pesadelo: a casa guarda segredos sombrios e uma presença sobrenatural que insiste em se manifestar. Ao investigar os fenômenos, Russel descobre uma história de injustiça enterrada há décadas. William Gray e Diana Maddox assinam o roteiro, enquanto a história é de Russel Hunter, escritor, dramaturgo e compositor americano que alegou ter vivido um caso paranormal nos anos 1960. Hunter alugou uma casa antiga em Denver, Colorado, próxima ao Cheesman Park. Ele relatou que a partir de fevereiro de 1969, começou a presenciar fenômenos estranhos na residência localizada na 1739 East 13th Avenue (hoje demolida). Entre os relatos estavam sons inexplicáveis, portas que se abriam sozinhas e manifestações que o levaram a investigar a história da casa. Segundo ele, descobriu-se que a mansão guardava segredos ligados a uma criança morta e a um caso de injustiça enterrado no passado. Esses acontecimentos serviram de base para o roteiro do filme, que transformou a experiência pessoal em uma narrativa de terror psicológico. Esse detalhe torna The Changeling ainda mais intrigante, pois conecta o horror da tela a uma história que, pelo menos segundo Hunter, teve origem em eventos reais. Peter Medak constrói tensão com planos longos, silêncios e o uso inteligente dos espaços da mansão, que não apenas serve como um cenário, mas um personagem vivo com corredores intermináveis e portas que parecem guardar segredos. O uso de sons ambientes e da música é essencial para criar o clima inquietante. George C. Scott entrega uma performance intensa, transmitindo tanto o peso do luto quanto a determinação em desvendar o mistério. Algo que particularmente me parece difícil de acreditar é o fato de que as filmagens externas da mansão, que serve como coração da trama, na realidade não foram filmadas em uma única casa em Seattle, como é sugerido. A produção utilizou diferentes locais para compor a atmosfera da residência assombrada, como Vancouver, local em que foram utilizadas várias externas em bairros e construções históricas, já que a produção era canadense e aproveitou locações próximas. Ou seja, a mansão que vemos no filme é uma combinação de diferentes locações reais, reforçando o caráter atmosférico e quase mítico da casa assombrada. O filme aborda o luto e a busca por justiça como motores da narrativa. O sobrenatural funciona como metáfora para traumas não resolvidos e verdades ocultas. A história sugere que fantasmas não são apenas entidades externas, mas também memórias e dores que insistem em permanecer. Na época de seu lançamento, The Changeling recebeu elogios pela sofisticação e pela atmosfera distinta. Com o tempo, conquistou o status de cult e é frequentemente citado como um dos melhores filmes de casas assombradas já produzidos. Sua influência pode ser percebida em obras posteriores como The Others (2001) e Hereditary (2018). Mais de quatro décadas após seu lançamento, o longa continua sendo uma experiência cinematográfica única. É um filme que prova que o verdadeiro terror não está apenas em monstros ou sangue, mas na sugestão, no silêncio e naquilo que permanece invisível. Para quem busca um horror elegante e atemporal, esta obra é indispensável. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.

Torso (1973)

Críticas Torso (1973) Por Lucas Costa Dirigido por Sergio Martino, que raramente é mencionado entre os nomes de alto escalão do Giallo, como Mário Bava e Dario Argento, Torso foi o filme que me introduziu ao gênero. Agora, depois de passear por algumas de suas principais obras, esta continua figurando como uma das mais essenciais do Giallo e, também, uma das principais antecipações do Slasher, seu filho estadunidense. Lançado em 1973, Torso acompanha um grupo de universitárias que, após a morte de algumas amigas, resolve se refugiar por alguns dias em uma casa no interior. Ali, elas passam a ser aterrorizadas por um assassino mascarado, cuja principal arma é um lenço. É curioso pensar que, no ano seguinte, seria lançado Natal Negro, nos Estados Unidos, com inúmeras semelhanças formais e de enredo: um grupo de garotas em uma casa isolada que acaba por ser invadida e a câmera mostrando o ponto de vista do assassino, por exemplo. Este último, recurso que também teria grande impacto em Halloween. O interessante é que Torso foi lançado na América apenas dois anos depois, prova de que o Slasher já vinha sendo organicamente gestado pelo espírito do tempo. Para além destes dois aspectos, a máscara também era uma novidade, já que as luvas é que costumavam ser a marca registrada dos filmes de serial killer italianos. Aqui já aparece também uma amostra da emblemática Final Girl que, após a matança geral, é a única sobrevivente depois da luta um a um contra o vilão. O aspecto sexual, já bastante presente nos Gialli predecessores, é elevado a tema e motivação. O olhar masculino que transforma o corpo feminino em uma plataforma vazia e objetificada de fantasias por um lado, e o homem que encontra gratificação sexual em matar e mutilar as suas vítimas mulheres são as linhas de força desta história que une desejo e violência de maneira tão forte quanto Sexta-Feira 13, mas com bem menor carga moralista. O que o mantém firme na tradição dos mestres Bava e Argento é o tempo da história, que atravessa vários dias de tensão e investigação policial; e a atmosfera única de suspense e mistério, tributária da literatura pulp, como a de Agatha Christie, que influenciou inclusive o nome do subgênero por conta de suas habituais capas amarelas. (Giallo significa “amarelo”) A maravilhosa sequência da primeira morte, na floresta, dá esse tom com maestria, mas é apenas durante todo o terceiro ato que esse elemento alcança seu auge. Por fim, ao descobrir que tudo gira em torno das questões psicológicas e do trauma do passado, Torso conecta-se firmemente a uma leva de filmes que explora a relação da Itália com a memória de seu passado fascista.Não é à toa que mestres de filmes sangrentos, como Tarantino, tem em alta conta essa obra que, tardiamente, entrou para panteão das grandes obras do terror e do cinema italiano. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.

Jogos de Guerra (1983)

Críticas Jogos de Guerra (1983) Por Mariana Moreira É tanto algo impressionante quanto chocante pensar que um filme há mais de quarenta anos pôde de certa forma “prever” os próximos passos que a tecnologia iria dar. Lançado em 1983 Jogos de Guerra trouxe Matthew Broderick e Ally Sheedy como típicos adolescentes americanos que ao ultrapassarem os limites humanos do que os computadores os oferecem, se descobrem envolvidos em uma intriga governamental que pode dar início a um novo conflito militar. Diante desta situação nos perguntamos, o que aconteceria se um simples jogo colocasse o mundo à beira da destruição nuclear? David Lightman (Matthew Broderick) é um adolescente curioso e habilidoso com computadores. Ao tentar invadir sistemas para acessar jogos, acaba entrando em um supercomputador militar norte-americano. Sem perceber, inicia uma simulação de guerra nuclear que o Pentágono acredita ser real. Agora, David, ao lado da colega Jennifer (Ally Sheedy), precisa provar sua inocência e impedir que o mundo seja destruído por um erro tecnológico. Três anos antes de ganhar notoriedade por seu papel como Ferris Bueller, aqui Matthew Broderick entrega uma performance convincente e real, sendo que suas habilidades com computadores serviram para popularizar o arquétipo de personagens considerados “hackers”, além de ter influenciado debates sobre segurança digital. Ironicamente, ou nem tanto, o longa não apenas mantém profunda relevância atualmente, como na época de seu lançamento trouxe às telas uma história que misturava suspense, tecnologia e política internacional em um momento em que o medo de um conflito nuclear realmente pairava sobre o mundo. Dirigido por John Badham, Jogos de Guerra não foi responsável por apenas entreter milhões de espectadores, mas por também levantar questões sérias sobre o poder dos computadores e os riscos da automação militar.   Além disso, o longa foi lançado durante a Guerra Fria, momento de tensão política entre Estados Unidos e União Soviética. Neste sentido pode-se ser considerado tanto uma provocação quanto um gesto de ousadia e coragem de Hollywood ao tentar mesmo que de maneira ficcional representar tais temas no cinema, sendo que graças a corrida armamentista e o avanço da informática criava-se um cenário propício para histórias sobre máquinas que poderiam decidir o destino da humanidade. Jogos de Guerra reflete tanto o fascínio quanto o medo da sociedade diante da crescente dependência de computadores, assim como sua popularidade deva seu crédito também ao avanço da informática nos anos 80. David Lightman representa tanto a curiosidade juvenil quanto a falta de consciência e ética sobre as consequências de suas ações. O computador WOPR simboliza a frieza das máquinas diante das decisões humanas. O personagem foi inclusive inspirado em um hacker da vida real chamado David Scott Lewis, que como é de se imaginar, não tem permissão de discutir se realmente conseguiu hackear um computador militar ou não. Um detalhe curioso é que o ato de hackear na verdade não era considerado ilegal quando o filme foi lançado. Isso apenas aconteceu ao ser aprovada a Lei Abrangente de Controle do Crime em 1984, sendo posteriormente expandida a Lei de Fraude e Abuso de Computadores em 1986. Outras curiosidades incluem inspiração em casos reais de invasão de sistemas, repercussão na mídia e governo dos Estados Unidos a ponto de reforçarem seus sistemas de segurança e detalhes de bastidores, como o uso de computadores reais da época dentro da produção. A direção mantém um ritmo ágil e envolvente, equilibrando tensão e humor adolescente. Enquanto isso sua atmosfera contém uma trilha sonora e cenários que reforçam a sensação de urgência e paranoia. O filme foi indicado a três estatuetas do Oscar, incluindo Melhor Roteiro Original e ganhou o BAFTA na categoria de Melhor Som.   O que mais me surpreende dentro de uma produção vinda da indústria do entretenimento é a capacidade de criar e narrativas que não apenas nos entretém, mas nos trazem reflexões sobre temas presentes naquele momento e até mesmo, são capazes de apresentar discussões sobre questões futuras. No caso de Jogos de Guerra, este é mais do que um thriller adolescente: é uma obra que antecipou debates sobre cibersegurança e inteligência artificial. Mais de quatro décadas depois, sua mensagem continua atual – afinal, ainda nos perguntamos até que ponto podemos confiar nossas vidas às máquinas. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.

A Mão Assassina (1999)

Críticas A Mão Assassina (1999) Por Lucas Costa Revisitar Mão Assassina quase trinta anos depois de seu lançamento é encontrar um documento deliciosamente fiel do que era a cultura pop ao final da década de 90. Uma comédia de horror que consegue ser bastante única e, dentro dessa singularidade, manter-se um testemunho estético do clima e da personalidade da época. Anton, interpretado por Davon Sawa, é um jovem colegial maconheiro e preguiçoso que, ao dar-se conta da morte dos pais (um tanto tardiamente), percebe que sua mão ganhou autonomia diabólica e, agora, anda cometendo assassinatos por aí. Ele conta com a ajuda dos amigos Mick (Seth Green) e Pnub (Elden Henson) para quebrar a maldição a tempo de proteger seu interesse amoroso, Molly, interpretada por Jessica Alba. Em 1996, Pânico revitaliza o terror com um filme jovem, engraçado e autoconsciente, desencadeando uma breve, mas significativa onda de “neo-slashers” como Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado, Prova Final, Lenda Urbana, Comportamento Suspeito e Medo em Cherry Falls. Todos estes filmes subvertendo, em algum grau, a etiqueta de regras do slasher clássico à partir da assimilação das ansiedades e transformações da época, como a popularização da internet, a ampliação do debate sexual e a intensificação da mídia massiva e sensacionalista que teve como paradigma o caso OJ Simpson. Mão Assassina surfa essa onda enquanto coloca-se ao lado de uma outra. American Pie, lançado no mesmo ano de 1999, gera um outro “boom” das teen comedys com forte teor sexual, humor escrachado e arcos de amadurecimento em meio a aventuras absurdas e picarescas. Como resultado, segue-se uma obra  de comédia absurda com elementos de slasher que, a seu modo, é, também, um filme de zumbis e terror sobrenatural; um filme de amigos desajeitados se metendo em enrascada por conta de um interesse amoroso onde todos os caminhos culminam, claro, no baile de Halloween da escola; uma stoner comedy onde as principais piadas e o clima do humor passa pelo elemento cannábico como ficou fixado por Cheech e Chong. Enquanto abundam a escatologia e os elementos de gore com as mortes bizarras e erupções sangrentas, a temperatura das atuações, preocupações e interações entre as personagens está sempre mais próxima da teen comedy. Rodman Flender já havia dirigido um episódio de Dawson’s Creek, “The Scare”, uma paródia de Pânico e, também, alguns episódios do terror Contos da Cripta, que contava com tiradas sarcásticas no começo e fim de cada episódio e se ancorava na construção de uma atmosfera única de estranhamento e mistério.  Daí tira o clima genuinamente adolescente e aquela ambientação esquisita e sombria reforçada pela prevalência da iluminação verde que preenche a obra. A trilha sonora é escolhida a dedo para espelhar estes mesmos dois aspectos e reforça ainda mais a ancoragem histórica da obra. O Nu Metal e o pop punk eram os gêneros de rock em alta. O primeiro, com guitarras simples e pesadas, percussões marcantes e mistura com hip-hop era a atração principal do Woodstock 99. Enquanto o segundo contava com lançamento recente de Enema of State, do Blink-182 e começava a tomar conta das paradas do mundo com bandas como Jimmy Eat World e Sum 41. Os dois oscilavam entre a introspecção, o drama familiar, a depressão e o desajuste social, por um lado, e a festa, a despreocupação, irrupção da libido e a cultura de rua, por outro. O Nu Metal e o pop punk eram dois pólos da personalidade jovem, majoritariamente masculina, que expressava seus traumas mais profundos ao mesmo tempo que suas preocupações mais fúteis, como conseguir uma namorada ou ir às festas. No filme, White Zombie e X-Factor ditam uma vibe mais pesada enquanto o Offspring é a banda que toca no baile da escola. Além disso, Tom Delonge, vocalista do Blink-182, aparece rapidamente em uma das cenas. Com toda essa heterogeneidade consciênciente e bem amálgamada, Mão Assassina ainda conseguiu fazer-se, de maneira ácida e despretensiosa, uma metáfora moral e crítica do hedonismo impulsivo do jovem colegial ocioso. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.

Valor Sentimental (2025)

Críticas Valor Sentimental (2025) Por Mariana Moreira Estava muito curiosa para conferir este filme desde que soube mais dele e realmente é tão bonito e profundo como eu estava esperando. Não sou uma grande consumidora do cinema europeu, mas sou obrigada a reconhecer o nível de qualidade e cuidado de suas narrativas, além de o continente europeu ter algo semelhante ao Brasil ao contar com um grande número de patrocinadores para dar vida às obras cinematográficas, algo que particularmente considero uma iniciativa nobre e necessária, ainda mais para os cineastas em começo de carreira ou independentes. Valor Sentimental é um longa norueguês do gênero dramático dirigido por Joachim Trier, que também assina o roteiro junto de Eskil Vogt. As obras de Trier foram descritas como “meditações melancólicas preocupadas com questões existências de amor, ambição, memória e identidade.” Mesmo Valor Sentimental sendo o primeiro filme de Trier a que assisti, de fato posso afirmar com toda convicção que em apenas um filme dentre tantos outros as questões que costumam ser retratadas em suas obras são retratadas de forma autêntica e realista, sem apelar para o melodrama. Algo que descobri logo após assistir ao filme são suas semelhanças com a obra anterior de Joachim Trier, intitulada A Pior Pessoa do Mundo. A principal ligação é a parceria criativa da equipe técnica e artística, focando em dramas familiares complexos, traumas e relações humanas profundas. Enquanto A Pior Pessoa do Mundo focava nas crises existenciais e relacionamentos da juventude, Valor Sentimental explora o legado do trauma e um relacionamento conturbado entre pai e filhas. O principal fator responsável pelo andamento e funcionamento do longa está na metalinguagem. Trier utiliza o cinema como ferramenta narrativa em Valor Sentimental, com personagens ligados à produção artística, reacendendo conflitos familiares.  Na minha opinião, o que mais merece destaque diante de uma produção incrível são as atuações. Certamente conhecia Stellan Skarsgård de demais filmes da indústria americana, mas neste papel o ator se aproxima mais de suas raízes de nascença ao abordar um cineasta veterano do cinema que parece ter colocado sua carreira como prioridade e nisso, criaram-se feridas nunca totalmente cicatrizadas na relação com suas filhas. O ator ganhou o Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante e, honestamente seguindo minhas apostas, acho que não apenas deve como merecia levar para casa o Oscar nesta mesma categoria. As atrizes do cinema norueguês Renate Reinsve e Inga Ibsdotter Lilleaas são rostos que foram introduzidos a mim através deste retrato sensível são o conforto em meio às relações familiares que foram distanciadas e receberam suas primeiras indicações ao Oscar de Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante, respectivamente. O longa aposta em uma direção e fotografia intimistas, complementadas por uma trilha sonora discreta e foco nos dramas íntimos. O que mais me pareceu como ponto forte para engrenar a narrativa não foram tanto os aspectos técnicos, mas principalmente o uso dos diálogos e emoções transbordadas entre os personagens em muitas cenas. A ambientação e estética visual são outros elementos que reforçam a tensão familiar, com maior uso de planos fechados e foco em um ambiente específico. Neste caso, o uso de espaços fechados serve também para intensificar a carga emocional. Assim como obras anteriores da filmografia de Joachim Trier, Valor Sentimental tem como fio condutor da narrativa um forte viés psicológico, com temas principais como: relações familiares e ressentimentos, ambição, legado e reconciliação e o choque cultural com a presença da atriz americana. Aí que entra a personagem de Elle Fanning, que forma por último uma das pontas do losango dentro do convívio familiar. Estava esperando um papel que demonstrasse uma atriz arrogante e pretensiosa, mas Fanning interpreta uma jovem que por mais que sonhe alto em termos de carreira, ainda assim tem a percepção e bom-senso de saber se deve mesmo ir a fundo em um projeto que fora pensado sob uma perspectiva especialmente pessoal. Estava de fato esperando um filme que trouxesse um retrato belo e humano de como mesmo as relações familiares podem ser complexas, mas com um pouco mais de compreensão, abertura e empatia é possível reestabelecer aos poucos os laços que haviam sido rompidos e pode-se começar como um novo convívio com tanto significado quanto anteriormente. Recomendo este filme não apenas para quem gosta de dramas familiares e cinema europeu contemporâneo, mas para quem se identifica ou procure uma história que consiga sem exageros mostrar que errar é humano, mas reconhecer tal erro e tentar se remediar como ser humano, isso ainda pode ser algo raro. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.

Onibaba – A Mulher Demônio (1964)

Críticas Onibaba – A Mulher Demônio (1964) Por Lucas Costa Enquanto em 1964 o Japão se preocupava em transmitir ao mundo uma imagem moderna, limpa e economicamente estável sendo, inclusive, palco das Olimpíadas, Kanedo Shindô filma uma realidade miserável e moralmente ambígua em Onibaba, retratando o Japão medieval para iluminar aspectos obscuros da condição do país no pós-Guerra. O filme acompanha duas mulheres, nora e sogra, habitando um pântano de juncos, em situação de luto, e que sobrevivem matando e saqueando os pertences de samurais remanescentes da guerra da guerra civil que cruzam seus caminhos, até que um homem aparece e desestabiliza a relação entre as duas por despertar seu desejo. O cenário, o som, a excelente fotografia e as atuações constroem um clima único de desconforto e apreensão onde o o espaço se relaciona – e torna público -, o mais íntimo da vida daquelas personagens fazendo com que a interioridade emocional esteja constantemente exposta. Os close-ups têm papel fundamental, aproximando a obra da linguagem do terror, mas também como veículo dessas forças que movem o conflito. Em nenhum momento vemos a guerra de fato. Vemos seus resíduos, escutamos seus sons. Vemos os corpos cansados e os restos morais e materiais. A honra e o heroísmo, tão característicos da vida espiritual japonesa pré-Guerra estão esgotados. As personagens falam das dificuldades de matar em uma guerra e evidenciam seus momentos de covardia, suas fugas. A vida espiritual também é reduzida à sua condição animalesca, onde anda-se em círculos para garantir as necessidades materiais básicas à sobrevivência e qualquer resquício de prazer se mostra como gota de água no deserto. Após a Segunda Guerra Mundial e a invasão estadunidense que sofre o Japão, o país passa por uma série de abalos que transforma Espírito de sua nação. Havia a crença de que o imperador descendia diretamente dos deuses, plenamente enraizada entre a população e que o general norte americano obrigou o próprio imperador a desmentir em uma transmissão radiofônica. Dois polos que fundavam a base de sua cultura, a firmeza militar e a delicadeza, dão lugar à sistemática ocidentalização e ao monstruoso desenvolvimento tecnológico que vieram a desfigurar sua noção de identidade. Ao filmar o deserto que rondava que a guerra civil do período medieval, o esvaziamento dos seus corpos e valores, Shindô torna evidente os resultados da Guerra Mundial em seu povo. A máscara, núcleo catalizador dos múltiplos significados da obra, é um elemento inspirado no teatro Nô. Neste teatro, cuja característica é a precisão na transmissão das emoções de maneira firme e econômica, a máscara retrata, simultaneamente, humanos, espíritos e animais, a depender do jogo de luz e comumente usada na transformação de humano em demônio. O filme larga o suspense e abraça o terror – sem, em nenhum momento, deixar de lado uma pitada de humor cruel – no momento em que a sogra se funde à máscara. O desejo e a morte, Eros e Tânatos, fundem-se em uma metáfora moral trágica onde o verdadeiro terror é a prisão na condição demasiadamente humana. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.