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Intermediário do Diabo / A Troca (1980)

Críticas Intermediário do Diabo / A Troca (1980) Por Mariana Moreira Costumo pensar que por dentro das histórias de terror, há sempre algo a mais por trás, muitas vezes trazendo em primeiro plano um aspecto psicológico, que por sinal é uma camada que me atrai bastante dentro deste gênero. O que mais chega a me dar calafrios se deve a certas obras cinematográficas, por mais que tenham como principal base uma narrativa ficcional, foram inspiradas em casos reais ou experiências pessoais. Talvez uma das produções menos comentadas durante a década de 80 seja esta, cujos elementos da narrativa tem como fundamento acontecimentos muito mais macabros do que se pode imaginar. Lançado em 1980, The Changeling, em seu título original, embora talvez não conhecido por todos certamente mantém sua reputação como um dos grandes clássicos do horror atmosférico, capaz de provocar arrepios sem recorrer a efeitos exagerados ou sustos fáceis. Dirigido por Peter Medak e estrelado por George C. Scott, o longa se destacou como uma das primeiras produções canadenses a ter notoriedade internacionalmente em um período marcado por filmes que apostavam mais no terror gráfico como Halloween e Sexta-Feira 13. Medak apostou em uma narrativa lenta e carregada de atmosfera, aproximando-se mais do estilo gótico e psicológico. Essa escolha fez do filme uma referência para quem aprecia o terror mais sutil e cerebral. Após perder a esposa e filha em um acidente trágico, o compositor John Russel (George C. Scott) decide recomeçar sua vida em uma antiga mansão. O que deveria ser um refúgio para sua dor se transforma em um pesadelo: a casa guarda segredos sombrios e uma presença sobrenatural que insiste em se manifestar. Ao investigar os fenômenos, Russel descobre uma história de injustiça enterrada há décadas. William Gray e Diana Maddox assinam o roteiro, enquanto a história é de Russel Hunter, escritor, dramaturgo e compositor americano que alegou ter vivido um caso paranormal nos anos 1960. Hunter alugou uma casa antiga em Denver, Colorado, próxima ao Cheesman Park. Ele relatou que a partir de fevereiro de 1969, começou a presenciar fenômenos estranhos na residência localizada na 1739 East 13th Avenue (hoje demolida). Entre os relatos estavam sons inexplicáveis, portas que se abriam sozinhas e manifestações que o levaram a investigar a história da casa. Segundo ele, descobriu-se que a mansão guardava segredos ligados a uma criança morta e a um caso de injustiça enterrado no passado. Esses acontecimentos serviram de base para o roteiro do filme, que transformou a experiência pessoal em uma narrativa de terror psicológico. Esse detalhe torna The Changeling ainda mais intrigante, pois conecta o horror da tela a uma história que, pelo menos segundo Hunter, teve origem em eventos reais. Peter Medak constrói tensão com planos longos, silêncios e o uso inteligente dos espaços da mansão, que não apenas serve como um cenário, mas um personagem vivo com corredores intermináveis e portas que parecem guardar segredos. O uso de sons ambientes e da música é essencial para criar o clima inquietante. George C. Scott entrega uma performance intensa, transmitindo tanto o peso do luto quanto a determinação em desvendar o mistério. Algo que particularmente me parece difícil de acreditar é o fato de que as filmagens externas da mansão, que serve como coração da trama, na realidade não foram filmadas em uma única casa em Seattle, como é sugerido. A produção utilizou diferentes locais para compor a atmosfera da residência assombrada, como Vancouver, local em que foram utilizadas várias externas em bairros e construções históricas, já que a produção era canadense e aproveitou locações próximas. Ou seja, a mansão que vemos no filme é uma combinação de diferentes locações reais, reforçando o caráter atmosférico e quase mítico da casa assombrada. O filme aborda o luto e a busca por justiça como motores da narrativa. O sobrenatural funciona como metáfora para traumas não resolvidos e verdades ocultas. A história sugere que fantasmas não são apenas entidades externas, mas também memórias e dores que insistem em permanecer. Na época de seu lançamento, The Changeling recebeu elogios pela sofisticação e pela atmosfera distinta. Com o tempo, conquistou o status de cult e é frequentemente citado como um dos melhores filmes de casas assombradas já produzidos. Sua influência pode ser percebida em obras posteriores como The Others (2001) e Hereditary (2018). Mais de quatro décadas após seu lançamento, o longa continua sendo uma experiência cinematográfica única. É um filme que prova que o verdadeiro terror não está apenas em monstros ou sangue, mas na sugestão, no silêncio e naquilo que permanece invisível. Para quem busca um horror elegante e atemporal, esta obra é indispensável. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.

Torso (1973)

Críticas Torso (1973) Por Lucas Costa Dirigido por Sergio Martino, que raramente é mencionado entre os nomes de alto escalão do Giallo, como Mário Bava e Dario Argento, Torso foi o filme que me introduziu ao gênero. Agora, depois de passear por algumas de suas principais obras, esta continua figurando como uma das mais essenciais do Giallo e, também, uma das principais antecipações do Slasher, seu filho estadunidense. Lançado em 1973, Torso acompanha um grupo de universitárias que, após a morte de algumas amigas, resolve se refugiar por alguns dias em uma casa no interior. Ali, elas passam a ser aterrorizadas por um assassino mascarado, cuja principal arma é um lenço. É curioso pensar que, no ano seguinte, seria lançado Natal Negro, nos Estados Unidos, com inúmeras semelhanças formais e de enredo: um grupo de garotas em uma casa isolada que acaba por ser invadida e a câmera mostrando o ponto de vista do assassino, por exemplo. Este último, recurso que também teria grande impacto em Halloween. O interessante é que Torso foi lançado na América apenas dois anos depois, prova de que o Slasher já vinha sendo organicamente gestado pelo espírito do tempo. Para além destes dois aspectos, a máscara também era uma novidade, já que as luvas é que costumavam ser a marca registrada dos filmes de serial killer italianos. Aqui já aparece também uma amostra da emblemática Final Girl que, após a matança geral, é a única sobrevivente depois da luta um a um contra o vilão. O aspecto sexual, já bastante presente nos Gialli predecessores, é elevado a tema e motivação. O olhar masculino que transforma o corpo feminino em uma plataforma vazia e objetificada de fantasias por um lado, e o homem que encontra gratificação sexual em matar e mutilar as suas vítimas mulheres são as linhas de força desta história que une desejo e violência de maneira tão forte quanto Sexta-Feira 13, mas com bem menor carga moralista. O que o mantém firme na tradição dos mestres Bava e Argento é o tempo da história, que atravessa vários dias de tensão e investigação policial; e a atmosfera única de suspense e mistério, tributária da literatura pulp, como a de Agatha Christie, que influenciou inclusive o nome do subgênero por conta de suas habituais capas amarelas. (Giallo significa “amarelo”) A maravilhosa sequência da primeira morte, na floresta, dá esse tom com maestria, mas é apenas durante todo o terceiro ato que esse elemento alcança seu auge. Por fim, ao descobrir que tudo gira em torno das questões psicológicas e do trauma do passado, Torso conecta-se firmemente a uma leva de filmes que explora a relação da Itália com a memória de seu passado fascista.Não é à toa que mestres de filmes sangrentos, como Tarantino, tem em alta conta essa obra que, tardiamente, entrou para panteão das grandes obras do terror e do cinema italiano. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.

Jogos de Guerra (1983)

Críticas Jogos de Guerra (1983) Por Mariana Moreira É tanto algo impressionante quanto chocante pensar que um filme há mais de quarenta anos pôde de certa forma “prever” os próximos passos que a tecnologia iria dar. Lançado em 1983 Jogos de Guerra trouxe Matthew Broderick e Ally Sheedy como típicos adolescentes americanos que ao ultrapassarem os limites humanos do que os computadores os oferecem, se descobrem envolvidos em uma intriga governamental que pode dar início a um novo conflito militar. Diante desta situação nos perguntamos, o que aconteceria se um simples jogo colocasse o mundo à beira da destruição nuclear? David Lightman (Matthew Broderick) é um adolescente curioso e habilidoso com computadores. Ao tentar invadir sistemas para acessar jogos, acaba entrando em um supercomputador militar norte-americano. Sem perceber, inicia uma simulação de guerra nuclear que o Pentágono acredita ser real. Agora, David, ao lado da colega Jennifer (Ally Sheedy), precisa provar sua inocência e impedir que o mundo seja destruído por um erro tecnológico. Três anos antes de ganhar notoriedade por seu papel como Ferris Bueller, aqui Matthew Broderick entrega uma performance convincente e real, sendo que suas habilidades com computadores serviram para popularizar o arquétipo de personagens considerados “hackers”, além de ter influenciado debates sobre segurança digital. Ironicamente, ou nem tanto, o longa não apenas mantém profunda relevância atualmente, como na época de seu lançamento trouxe às telas uma história que misturava suspense, tecnologia e política internacional em um momento em que o medo de um conflito nuclear realmente pairava sobre o mundo. Dirigido por John Badham, Jogos de Guerra não foi responsável por apenas entreter milhões de espectadores, mas por também levantar questões sérias sobre o poder dos computadores e os riscos da automação militar.   Além disso, o longa foi lançado durante a Guerra Fria, momento de tensão política entre Estados Unidos e União Soviética. Neste sentido pode-se ser considerado tanto uma provocação quanto um gesto de ousadia e coragem de Hollywood ao tentar mesmo que de maneira ficcional representar tais temas no cinema, sendo que graças a corrida armamentista e o avanço da informática criava-se um cenário propício para histórias sobre máquinas que poderiam decidir o destino da humanidade. Jogos de Guerra reflete tanto o fascínio quanto o medo da sociedade diante da crescente dependência de computadores, assim como sua popularidade deva seu crédito também ao avanço da informática nos anos 80. David Lightman representa tanto a curiosidade juvenil quanto a falta de consciência e ética sobre as consequências de suas ações. O computador WOPR simboliza a frieza das máquinas diante das decisões humanas. O personagem foi inclusive inspirado em um hacker da vida real chamado David Scott Lewis, que como é de se imaginar, não tem permissão de discutir se realmente conseguiu hackear um computador militar ou não. Um detalhe curioso é que o ato de hackear na verdade não era considerado ilegal quando o filme foi lançado. Isso apenas aconteceu ao ser aprovada a Lei Abrangente de Controle do Crime em 1984, sendo posteriormente expandida a Lei de Fraude e Abuso de Computadores em 1986. Outras curiosidades incluem inspiração em casos reais de invasão de sistemas, repercussão na mídia e governo dos Estados Unidos a ponto de reforçarem seus sistemas de segurança e detalhes de bastidores, como o uso de computadores reais da época dentro da produção. A direção mantém um ritmo ágil e envolvente, equilibrando tensão e humor adolescente. Enquanto isso sua atmosfera contém uma trilha sonora e cenários que reforçam a sensação de urgência e paranoia. O filme foi indicado a três estatuetas do Oscar, incluindo Melhor Roteiro Original e ganhou o BAFTA na categoria de Melhor Som.   O que mais me surpreende dentro de uma produção vinda da indústria do entretenimento é a capacidade de criar e narrativas que não apenas nos entretém, mas nos trazem reflexões sobre temas presentes naquele momento e até mesmo, são capazes de apresentar discussões sobre questões futuras. No caso de Jogos de Guerra, este é mais do que um thriller adolescente: é uma obra que antecipou debates sobre cibersegurança e inteligência artificial. Mais de quatro décadas depois, sua mensagem continua atual – afinal, ainda nos perguntamos até que ponto podemos confiar nossas vidas às máquinas. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.

A Mão Assassina (1999)

Críticas A Mão Assassina (1999) Por Lucas Costa Revisitar Mão Assassina quase trinta anos depois de seu lançamento é encontrar um documento deliciosamente fiel do que era a cultura pop ao final da década de 90. Uma comédia de horror que consegue ser bastante única e, dentro dessa singularidade, manter-se um testemunho estético do clima e da personalidade da época. Anton, interpretado por Davon Sawa, é um jovem colegial maconheiro e preguiçoso que, ao dar-se conta da morte dos pais (um tanto tardiamente), percebe que sua mão ganhou autonomia diabólica e, agora, anda cometendo assassinatos por aí. Ele conta com a ajuda dos amigos Mick (Seth Green) e Pnub (Elden Henson) para quebrar a maldição a tempo de proteger seu interesse amoroso, Molly, interpretada por Jessica Alba. Em 1996, Pânico revitaliza o terror com um filme jovem, engraçado e autoconsciente, desencadeando uma breve, mas significativa onda de “neo-slashers” como Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado, Prova Final, Lenda Urbana, Comportamento Suspeito e Medo em Cherry Falls. Todos estes filmes subvertendo, em algum grau, a etiqueta de regras do slasher clássico à partir da assimilação das ansiedades e transformações da época, como a popularização da internet, a ampliação do debate sexual e a intensificação da mídia massiva e sensacionalista que teve como paradigma o caso OJ Simpson. Mão Assassina surfa essa onda enquanto coloca-se ao lado de uma outra. American Pie, lançado no mesmo ano de 1999, gera um outro “boom” das teen comedys com forte teor sexual, humor escrachado e arcos de amadurecimento em meio a aventuras absurdas e picarescas. Como resultado, segue-se uma obra  de comédia absurda com elementos de slasher que, a seu modo, é, também, um filme de zumbis e terror sobrenatural; um filme de amigos desajeitados se metendo em enrascada por conta de um interesse amoroso onde todos os caminhos culminam, claro, no baile de Halloween da escola; uma stoner comedy onde as principais piadas e o clima do humor passa pelo elemento cannábico como ficou fixado por Cheech e Chong. Enquanto abundam a escatologia e os elementos de gore com as mortes bizarras e erupções sangrentas, a temperatura das atuações, preocupações e interações entre as personagens está sempre mais próxima da teen comedy. Rodman Flender já havia dirigido um episódio de Dawson’s Creek, “The Scare”, uma paródia de Pânico e, também, alguns episódios do terror Contos da Cripta, que contava com tiradas sarcásticas no começo e fim de cada episódio e se ancorava na construção de uma atmosfera única de estranhamento e mistério.  Daí tira o clima genuinamente adolescente e aquela ambientação esquisita e sombria reforçada pela prevalência da iluminação verde que preenche a obra. A trilha sonora é escolhida a dedo para espelhar estes mesmos dois aspectos e reforça ainda mais a ancoragem histórica da obra. O Nu Metal e o pop punk eram os gêneros de rock em alta. O primeiro, com guitarras simples e pesadas, percussões marcantes e mistura com hip-hop era a atração principal do Woodstock 99. Enquanto o segundo contava com lançamento recente de Enema of State, do Blink-182 e começava a tomar conta das paradas do mundo com bandas como Jimmy Eat World e Sum 41. Os dois oscilavam entre a introspecção, o drama familiar, a depressão e o desajuste social, por um lado, e a festa, a despreocupação, irrupção da libido e a cultura de rua, por outro. O Nu Metal e o pop punk eram dois pólos da personalidade jovem, majoritariamente masculina, que expressava seus traumas mais profundos ao mesmo tempo que suas preocupações mais fúteis, como conseguir uma namorada ou ir às festas. No filme, White Zombie e X-Factor ditam uma vibe mais pesada enquanto o Offspring é a banda que toca no baile da escola. Além disso, Tom Delonge, vocalista do Blink-182, aparece rapidamente em uma das cenas. Com toda essa heterogeneidade consciênciente e bem amálgamada, Mão Assassina ainda conseguiu fazer-se, de maneira ácida e despretensiosa, uma metáfora moral e crítica do hedonismo impulsivo do jovem colegial ocioso. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.

Valor Sentimental (2025)

Críticas Valor Sentimental (2025) Por Mariana Moreira Estava muito curiosa para conferir este filme desde que soube mais dele e realmente é tão bonito e profundo como eu estava esperando. Não sou uma grande consumidora do cinema europeu, mas sou obrigada a reconhecer o nível de qualidade e cuidado de suas narrativas, além de o continente europeu ter algo semelhante ao Brasil ao contar com um grande número de patrocinadores para dar vida às obras cinematográficas, algo que particularmente considero uma iniciativa nobre e necessária, ainda mais para os cineastas em começo de carreira ou independentes. Valor Sentimental é um longa norueguês do gênero dramático dirigido por Joachim Trier, que também assina o roteiro junto de Eskil Vogt. As obras de Trier foram descritas como “meditações melancólicas preocupadas com questões existências de amor, ambição, memória e identidade.” Mesmo Valor Sentimental sendo o primeiro filme de Trier a que assisti, de fato posso afirmar com toda convicção que em apenas um filme dentre tantos outros as questões que costumam ser retratadas em suas obras são retratadas de forma autêntica e realista, sem apelar para o melodrama. Algo que descobri logo após assistir ao filme são suas semelhanças com a obra anterior de Joachim Trier, intitulada A Pior Pessoa do Mundo. A principal ligação é a parceria criativa da equipe técnica e artística, focando em dramas familiares complexos, traumas e relações humanas profundas. Enquanto A Pior Pessoa do Mundo focava nas crises existenciais e relacionamentos da juventude, Valor Sentimental explora o legado do trauma e um relacionamento conturbado entre pai e filhas. O principal fator responsável pelo andamento e funcionamento do longa está na metalinguagem. Trier utiliza o cinema como ferramenta narrativa em Valor Sentimental, com personagens ligados à produção artística, reacendendo conflitos familiares.  Na minha opinião, o que mais merece destaque diante de uma produção incrível são as atuações. Certamente conhecia Stellan Skarsgård de demais filmes da indústria americana, mas neste papel o ator se aproxima mais de suas raízes de nascença ao abordar um cineasta veterano do cinema que parece ter colocado sua carreira como prioridade e nisso, criaram-se feridas nunca totalmente cicatrizadas na relação com suas filhas. O ator ganhou o Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante e, honestamente seguindo minhas apostas, acho que não apenas deve como merecia levar para casa o Oscar nesta mesma categoria. As atrizes do cinema norueguês Renate Reinsve e Inga Ibsdotter Lilleaas são rostos que foram introduzidos a mim através deste retrato sensível são o conforto em meio às relações familiares que foram distanciadas e receberam suas primeiras indicações ao Oscar de Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante, respectivamente. O longa aposta em uma direção e fotografia intimistas, complementadas por uma trilha sonora discreta e foco nos dramas íntimos. O que mais me pareceu como ponto forte para engrenar a narrativa não foram tanto os aspectos técnicos, mas principalmente o uso dos diálogos e emoções transbordadas entre os personagens em muitas cenas. A ambientação e estética visual são outros elementos que reforçam a tensão familiar, com maior uso de planos fechados e foco em um ambiente específico. Neste caso, o uso de espaços fechados serve também para intensificar a carga emocional. Assim como obras anteriores da filmografia de Joachim Trier, Valor Sentimental tem como fio condutor da narrativa um forte viés psicológico, com temas principais como: relações familiares e ressentimentos, ambição, legado e reconciliação e o choque cultural com a presença da atriz americana. Aí que entra a personagem de Elle Fanning, que forma por último uma das pontas do losango dentro do convívio familiar. Estava esperando um papel que demonstrasse uma atriz arrogante e pretensiosa, mas Fanning interpreta uma jovem que por mais que sonhe alto em termos de carreira, ainda assim tem a percepção e bom-senso de saber se deve mesmo ir a fundo em um projeto que fora pensado sob uma perspectiva especialmente pessoal. Estava de fato esperando um filme que trouxesse um retrato belo e humano de como mesmo as relações familiares podem ser complexas, mas com um pouco mais de compreensão, abertura e empatia é possível reestabelecer aos poucos os laços que haviam sido rompidos e pode-se começar como um novo convívio com tanto significado quanto anteriormente. Recomendo este filme não apenas para quem gosta de dramas familiares e cinema europeu contemporâneo, mas para quem se identifica ou procure uma história que consiga sem exageros mostrar que errar é humano, mas reconhecer tal erro e tentar se remediar como ser humano, isso ainda pode ser algo raro. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.

Onibaba – A Mulher Demônio (1964)

Críticas Onibaba – A Mulher Demônio (1964) Por Lucas Costa Enquanto em 1964 o Japão se preocupava em transmitir ao mundo uma imagem moderna, limpa e economicamente estável sendo, inclusive, palco das Olimpíadas, Kanedo Shindô filma uma realidade miserável e moralmente ambígua em Onibaba, retratando o Japão medieval para iluminar aspectos obscuros da condição do país no pós-Guerra. O filme acompanha duas mulheres, nora e sogra, habitando um pântano de juncos, em situação de luto, e que sobrevivem matando e saqueando os pertences de samurais remanescentes da guerra da guerra civil que cruzam seus caminhos, até que um homem aparece e desestabiliza a relação entre as duas por despertar seu desejo. O cenário, o som, a excelente fotografia e as atuações constroem um clima único de desconforto e apreensão onde o o espaço se relaciona – e torna público -, o mais íntimo da vida daquelas personagens fazendo com que a interioridade emocional esteja constantemente exposta. Os close-ups têm papel fundamental, aproximando a obra da linguagem do terror, mas também como veículo dessas forças que movem o conflito. Em nenhum momento vemos a guerra de fato. Vemos seus resíduos, escutamos seus sons. Vemos os corpos cansados e os restos morais e materiais. A honra e o heroísmo, tão característicos da vida espiritual japonesa pré-Guerra estão esgotados. As personagens falam das dificuldades de matar em uma guerra e evidenciam seus momentos de covardia, suas fugas. A vida espiritual também é reduzida à sua condição animalesca, onde anda-se em círculos para garantir as necessidades materiais básicas à sobrevivência e qualquer resquício de prazer se mostra como gota de água no deserto. Após a Segunda Guerra Mundial e a invasão estadunidense que sofre o Japão, o país passa por uma série de abalos que transforma Espírito de sua nação. Havia a crença de que o imperador descendia diretamente dos deuses, plenamente enraizada entre a população e que o general norte americano obrigou o próprio imperador a desmentir em uma transmissão radiofônica. Dois polos que fundavam a base de sua cultura, a firmeza militar e a delicadeza, dão lugar à sistemática ocidentalização e ao monstruoso desenvolvimento tecnológico que vieram a desfigurar sua noção de identidade. Ao filmar o deserto que rondava que a guerra civil do período medieval, o esvaziamento dos seus corpos e valores, Shindô torna evidente os resultados da Guerra Mundial em seu povo. A máscara, núcleo catalizador dos múltiplos significados da obra, é um elemento inspirado no teatro Nô. Neste teatro, cuja característica é a precisão na transmissão das emoções de maneira firme e econômica, a máscara retrata, simultaneamente, humanos, espíritos e animais, a depender do jogo de luz e comumente usada na transformação de humano em demônio. O filme larga o suspense e abraça o terror – sem, em nenhum momento, deixar de lado uma pitada de humor cruel – no momento em que a sogra se funde à máscara. O desejo e a morte, Eros e Tânatos, fundem-se em uma metáfora moral trágica onde o verdadeiro terror é a prisão na condição demasiadamente humana. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.

A Múmia (1999) | O Retorno da Múmia (2001) | A Múmia: Tumba do Imperador Dragão (2008)

Críticas A Múmia (1999) | O Retorno da Múmia (2001) | A Múmia: Tumba do Imperador Dragão (2008) Por Mariana Moreira Revisitando uma das franquias que mais me agradam, a trilogia de A Múmia estrelada por Brendan Fraser é uma ótima opção para quem quiser se inserir em um contexto histórico, personagens cativantes e uma narrativa que sabe misturar bem elementos de humor com horror. O primeiro filme foi um remake baseado na obra original de 1932, como parte de uma série de filmes da Universal Pictures intitulada Universal Monsters, sendo seis de suas obras focadas na temática da múmia (1932-1955). No caso desta trilogia “modernizada”, Stephen Sommers assume a direção e roteiro dos dois primeiros filmes, trazendo aspectos que se assemelham em ambas as obras como estética visual, atuações e trilha sonora. Não por necessariamente se manter dentro da linha da narrativa que envolve o despertar de múmias no Egito do século XX, mas considero os dois primeiros filmes os melhores por conseguirem caminhar lado a lado em termos de andamento e cronologia das narrativas, além de saber desenvolver os personagens de forma que não percam suas características mais marcantes. O cenário egípcio em sua paleta de cores tão singular, contém tanto elementos para quem se interessa por história e arqueologia, como para quem procura uma bela dose de aventura. O terceiro filme por sua vez teve direção de Rob Cohen, enquanto Stephen Sommers desempenhou um outro papel ao ser um dos produtores do terceiro capítulo da franquia. Embora também focado em uma múmia como antagonista, o terceiro filme se desvia da fórmula dos filmes anteriores ao ambientar a narrativa na China e trazer em perspectiva as mitologias orientais e o contexto histórico das dinastias chinesas. O Renascimento do Monstro (1999) Esta versão trouxe de volta a figura lendária Imhotep, interpretado por Arnold Vosloo. O longa combinou elementos de horror gótico com ação no estilo Indiana Jones, apresentando Rick O’Connell como herói improvável e Evelyn Carnahan como a erudita que se vê envolvida em uma trama sobrenatural. O filme conquistou o público e crítica ao revitalizar o interesse por narrativas ambientadas no Egito Antigo, com cenários grandiosos e efeitos visuais que, para a época impressionavam. Um fator da produção que nem todos saibam é que mesmo a narrativa tendo como ponto principal ser ambientada em solo egípcio, na realidade, as filmagens principais foram ocorridas no Marrocos, devido a instabilidade política que ocorria no Egito, com cenas adicionais no Reino Unido. A equipe enfrentou tempestades de areia, desidratação e cobras na região do Saara, necessitando de cuidados médicos. O equilíbrio entre aventura, romance e humor foi essencial para transformar o longa em um sucesso duradouro, tornando-se referência para o cinema de ação dos anos 90. Expansão e Espetáculo (2001) Dois anos depois, o segundo longa ampliou o universo e apostou em efeitos ainda mais ambiciosos. Assim como seu antecessor, o segundo filme também contou com filmagens ocorridas no Marrocos, além de cenas de ação e efeitos na Jordânia, uso de estúdios e cenas interiores no Reino Unido. Foi também o primeiro trabalho no cinema de Dwayne Johnson, sendo creditado por seu nome de ringue “The Rock”, no papel do Escorpião Rei. Mesmo com críticas mistas – especialmente em relação ao CGI datado já na época – o filme manteve o tom grandioso e reforçou o carisma da dupla protagonista. Brendan Fraser e Rachel Weisz mantém sua química e cumplicidade ao não apenas serem representados como um casal, mas como dupla imbatível quando se trata de colocar as múmias em seu devido lugar. O que particularmente acho algo devidamente construído foi como a personagem de Evelyn evolui do status de “donzela em perigo” para um papel mais igualitário junto de Rick ao mostrá-la como alguém que sabe tanto lutar quando necessário, mas sem perder sua inteligência e feminilidade. Neste caso, Evelyn é o cérebro, enquanto Rick é o músculo. Freddie Boath, intérprete do filho de 8 anos do casal, Alex, merece igualmente destaque por sua atuação ligeira e perspicaz. A sequência também aprofundou a mitologia, explorando novos artefatos e maldições, e trouxe cenas memoráveis como a batalha final contra o híbrido Escorpião Rei. O resultado foi um espetáculo visual que garantiu a continuidade da saga e consolidou Fraser como ícone da aventura cinematográfica. A Última Aventura (2008) Neste terceiro e, suposto, último capítulo da franquia, a ação migrou para a China, explorando novas mitologias e vilões. Embora o terceiro seja levemente inferior aos dois anteriores, confesso que não considero tão desinteressante mudar a fórmula da narrativa mantendo a ideia central: uma múmia como ameaça sobrenatural. Talvez o motivo de o terceiro filme ter me agradado tenha sido que particularmente sou grande admiradora da cultura e história oriental e de acordo com o próprio diretor, Rob Cohen, este mesmo nutria um fascínio pela cultura chinesa e sua história, portando insistiu que as filmagens realmente fossem feitas o máximo possível no país e fez o possível para que a antiga cultura chinesa e arte fossem retratadas de forma mais autêntica possível. Jet Li assume o antagonismo no lugar de Imhotep, no papel do imperador Han. Além de contar com demais personalidades influentes do cinema oriental como Michelle Yeoh, que interpreta a feiticeira Zi Yuan. Mesmo com a presença e espírito aventureiro de Brendan Fraser, a ausência de Rachel Weisz é sentida. A atriz que a substitui, Maria Bello, traz uma Evelyn O’Connell significantemente diferente não necessariamente para um lado negativo, mas sua interação com o personagem de Fraser e outros do elenco fica mais fria e perde mais a química. O filme buscou renovar sua fórmula ao incluir o filho do casal, Alex, agora com 21 anos, como personagem ativo na trama. Porém, a recepção ao terceiro filme foi mais negativa comparada com os outros, apesar de ter se saído bem nas bilheterias. Ainda assim, o longa encerrou a trilogia principal, deixando um legado de diversão escapista e efeitos que, embora datados hoje, marcaram o início dos anos 2000. Após especulações, segundo

Hannah Takes the Stairs (2007)

Críticas Hannah Takes the Stairs (2007) Por Lucas Costa Mesmo não sendo o primeiro, este talvez seja o filme paradigmático do Mumblecore, reunindo com muita clareza e, a meu ver, excelência, todas as principais características do movimento e contando com umas melhores atuações de uma jovem Greta Gerwig. Hannah Take The Stairs é uma dramédia intimista de caráter experimental, permeada de improviso, imersiva e inteligente. Acompanha a recém formada Hannah e seu itinerário de insatisfação amorosa entre três rapazes enquanto não sabe o que fazer da vida. Para os fãs de certo segmento da cultura pop, soa quase mágico por contar com vários dos principais nomes do cinema underground americano da época ainda em começo de carreira – Gerwig, Mark Duplass, Kent Osborne, Joe Swanberg – juntos em uma obra colaborativa e de baixíssimo orçamento. O filme é errático, superfícial, impermanente em um bom sentido. A não ser pela mudança de interesse amoroso, nada progride, como se suas partes pudessem estar em outra ordem sem, com isso, afetar a forma final. Hannah pula de relação em relação sem expressar motivação alguma, sem que nenhum drama ou psicologia seja aprofundado. Espelho da inaptidão para a vida adulta, a protagonista desliza na superfície onde suas emocões estão expostas e o pensamento escondido. Gerwig condensa nas expressões, na voz, no corpo errante a subjetividade incerta e evasiva da sua personagem, de modo que podemos ver o embate de idéias confusas que se passa internamente. Ela se aproxima e se afasta, experimenta, se empolga e entedia-se. É, de fato, um tanto incômodo. Isso chateou, na época, alguns críticos da ShortEnd Magazine que disseram ser uma personagem com a qual você não se importa. Não existe aqui, um arco dramático tradicional em que a personagem se transforma ao final. Ao contrário, Hannah, atravessa suas experiências sem, essencialmente, mudar. Ela descreve um contínuo de variação e experimentação que não se conclui com a formação de um Eu ao fim de uma jornada. A obra tem estilo contemplativo e organiza sua narrativa de modo que surja um tempo de duração, um tempo afetivo, mais do que cronológico, causando um efeito imersivo por seu realismo íntimo e seus planos demorados. Também os diálogos não explicam ou avançam, funcionando quase como colagens, independentes da trama e dando conta de uma vastidão de assuntos que emergem da situação, embora sejam o principal motor para nos colocar naquele mundo e apresentar seus habitantes. O resultado é um cativante filme Millenial em cada um dos seus aspectos. A pós modernidade se caracteriza, entre outras coisas, por sujeitos sem lastros firmes com o mundo que navegam por relações frágeis e fragmentadas, encapsulados em seus pequenos ecossistemas. As personagens tem trejeitos estranhos, movimentos inesperados e sem sentido somados à mencionada falta de motivação. O naturalismo radical do estilo se transforma na captura da vida de uma geração sem habilidade para a vida adulta que navega irregularmente à mercê das suas emoções mais imediatas. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.

Doze é Demais (2003) | Doze é Demais 2 (2005)

Críticas Doze é Demais (2003) | Doze é Demais 2 (2005) Por Mariana Moreira Quando doze filhos viram espetáculo Durante a primeira década dos anos 2000, o cinema foi responsável por produzir uma gama de comédias familiares que por mais que não tenham agradado tanto a crítica, foram recebidas com o calor do público. Entre elas estão a dupla Doze é Demais e sua sequência, protagonizadas por ninguém menos que Steve Martin. O primeiro filme foi lançado em 2003, enquanto o segundo foi lançada em 2005. Ambas foram distribuídas pela 20th Century Fox, antes desta ser adquirida pela Walt Disney Company. O gênero das comédias com um apelo familiar pode parecer um tópico que nos últimos anos tem ficado ultrapassado, mas no caso destes dois filmes, revisitá-los mais de uma década após terem sido lançados não é apenas sobre se divertir, mas sobre redescobrir a importância dos laços de união, seja ela familiar ou entre amigos e isso é algo que considero que não sai de moda. Doze é Demais: caos doméstico e coração Dirigido por Shawn Levy, no primeiro filme o dilema principal gira em torno de conciliar trabalho e família. Tom Baker (Steve Martin) aceita um novo emprego como treinador de um time universitário, enquanto sua esposa Kate (Bonnie Hunt) tenta lançar um livro sobre suas vidas com 12 filhos. O resultado é uma avalanche de situações engraçadas e tensas, desde corridas escolares até desastres dentro de casa. O humor físico e ritmo acelerado são os principais fatores responsáveis por tornar essa comédia leve e acessível para todas as idades. O elenco é um de seus pontos altos, trazendo tanto carisma quanto esbanjando doses diversas de tipos de emoção. Steve Martin e Bonnie Hunt trazem química e companheirismo como casal, além de contar com outros rostos conhecidos como Hilary Duff, Tom Welling e Piper Perabo, cada um representando diferentes fases da vida dos filhos. Mesmo com críticas mistas, o filme se tornou um sucesso de bilheteria, sendo até hoje lembrado como um clássico moderno das comédias familiares graças a sua energia caótica e pelo retrato carinhoso da vida em família. Doze é Demais 2: férias nada tranquilas A continuação foi dirigida por Adam Shankman e levou a fórmula de seu antecessor a um novo cenário, ampliando o humor e os conflitos. Os Bakers tinham tudo para ter agradáveis férias em família no Lago Winnetka, mas tudo muda quando reencontram os Murtaughs, uma família rival liderada por Jimmy (Eugene Levy). A disputa entre os clãs se torna o motor da narrativa, com competições esportivas, provocações e situações cômicas que exploram o contraste entre estilos de vida. Se o primeiro filme tinha uma dose maior de drama ao abordar a dificuldade de conciliar carreira e família, a sequência aposta ainda mais no humor físico e rivalidades caricatas. Embora menos centrado na vida cotidiana, o filme mantém a essência: mostrar que, no fim, união e afeto são mais importantes que qualquer vitória. Mesmo não tendo alcançado o impacto do filme original, ambos transmitem temas e mensagens que continuam relevantes. Família como prioridade: ambos reforçam que, apesar do caos, o amor e cooperação são fundamentais. Equilíbrio entre carreira e vida pessoal: dilema central do primeiro filme, fazendo a narrativa funcionar como um retrato do cotidiano. Rivalidade e empatia: explorado na sequência, mostrando que as diferenças podem ser superadas. Doze é Demais e sua sequência são lembranças de um tempo em que o cinema familiar apostava no exagero para arrancar risadas. Mais do que a comédia, eles celebram o valor da união e da convivência. Revisitar estes filmes é mergulhar em uma nostalgia divertida e, quem sabe, refletir sobre como o caos pode ser também uma forma de amor. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.

Projeto Flórida (2017)

Críticas Projeto Flórida (2017) Por Lucas Costa Na base de todo projeto dedicado a instaurar o sonho americano há um reservatório subterrâneo para aqueles condenados a habitar suas margens, relegados à condição das ruínas do que não coube no espetáculo. Projeto Flórida, de Sean Baker, compõe uma partitura da precariedade que sustenta a sociedade estadunidense ao retratar o cotidiano de um conjunto habitacional no Estado famoso pela presença da disneylândia. Por meio de planos longos e demorados que assimilam uma vida repetitiva, arrastada e de poucas possibilidades além do mostrado, adentramos naquele mundo pelo ponto de vista de Moonie, cujas tardes de brincadeiras com os amigos tem a potência de dissolver qualquer projeto civilizatório como uma verdadeira máquina de guerra deleuzeana. Sua visão infantil não organiza o mundo, mas o experimenta de modo que a criança não é a promessa de um futuro moral mas uma força de rearranjar da realidade diante da conflituosa apatia dos adultos. A árvore onde brincam e a frase da garotinha são a imagem para sua função e, pela tangente, da dinâmica de todos no entorno: está tombada mas continua crescendo. Baker acerta em não moralizar e nem psicologizar ou exceder em melodrama. A tridimensionalidade e a ambiguidade das personagens são retratada sempre em relação àquela partitura sistêmica, mostrando ação e reação, de modo que não impede de serem, também, tipos: sobrevivem àquele mundo da forma que podem ao mesmo tempo em que o conservam. Então, ainda que faltem ações transformadoras, a figura de Moonie impede que Projeto Flórida seja mero retrato da miséria. A ruptura final pode ser lida tanto como fuga criadora quanto como fantasia escapista, mas não deixa de emocionar o espectador por seu espírito ingênuo, amoral e inconformado. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.