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Projeto A Sala

Justino – Nos Bastidores do Reino (2026)

Críticas Justino – Nos Bastidores do Reino (2026) Por Marcelo Paiva O exposed necessário da Igreja Universal. Dirigido por José Eduardo Belmonte, Justino: nos bastidores do Reino já se impõe no Festival de Gramado como uma das biografias mais inflamáveis de 2026. O filme acompanha Mario Justino, um dos pregadores mais populares da Igreja Universal nos anos 90, até conhecer de perto o lado mais sombrio da própria instituição. Belmonte se aproxima do biografado sem medo das contradições e encontra um equilíbrio raro dentro de uma cinebiografia: o rigor formal acompanha a complexidade do personagem, enquanto o roteiro preserva suas nuances sem transformá-las em atalhos dramáticos. O filme respira nas transições e muda de textura conforme atravessa as diferentes fases da vida de Justino. Enquadramentos, granulação e tratamentos de imagem distintos não apenas situam essas épocas, mas encontram uma temperatura emocional própria para cada uma delas. Christian Malheiros entrega uma performance poderosa, visceral e nunca caricatural. Seu Justino carrega o fervor do fiel, o magnetismo do pregador e a vulnerabilidade de alguém profundamente moldado pela religião. Malheiros faz essas forças coexistirem no corpo do personagem, mesmo quando elas parecem puxá-lo em direções opostas. A sexualidade do protagonista, sua relação afetiva com a religião e a necessidade de pertencimento aparecem como partes de uma mesma experiência. Justino compreende com muita precisão como a fé também pode criar vínculos de dependência quando se mistura a afeto, poder e promessa de acolhimento. O longa não força essas tensões em uma explicação única. Ele permite que elas permaneçam contraditórias. É também um recorte muito preciso de um Brasil histórico. A expansão da Igreja, o poder adquirido por suas lideranças e a intimidade cada vez mais atravessada pela religião ajudam a olhar para aquele período e, ao mesmo tempo, entender parte do país que se formou ao redor dele. O diagnóstico de HIV atravessa essa trajetória de maneira decisiva e conduz a um dos episódios mais duros do filme: o afastamento de Justino do trabalho religioso. O longa trata esse momento sem suavizar a covardia e a crueldade envolvidas, deixando que o próprio gesto institucional revele sua violência. Caio Blat também entrega um trabalho impressionante. Seu bispo é imediatamente reconhecível, mesmo sem que o filme precise mencionar Edir Macedo. A postura, a cadência da fala e o controle do corpo bastam para construir uma referência muito precisa, sem reduzir a atuação a uma imitação. Existe uma sinergia finíssima em Justino. As dúvidas, as zonas obscuras e as contradições da vida do protagonista se tornam matéria dramática e dão espessura à própria biografia. O filme encontra força justamente porque aceita que essas camadas coexistam sem precisar enquadrá-las em uma leitura única. É dessa complexidade que nasce a sensação de verdade que atravessa a narrativa. O filme parece correr no trecho final, quando ainda havia espaço para aprofundar melhor as consequências de uma vida tão atribulada. Mesmo assim, Justino: nos bastidores do Reino entrega um dos trabalhos mais revigorantes de 2026. Uma cinebiografia que encontra força porque sabe que, diante de uma trajetória assim, qualquer simplificação seria também uma forma de falsificação. E o filme é melhor justamente porque se recusa a tornar essa vida mais fácil do que ela foi. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.

Chorão: Só os Loucos Sabem (2026)

Críticas Chorão: Só os Loucos Sabem (2026) Por Marcelo Paiva Uma cinebiografia atropelada pelas próprias metades. Antes de qualquer coisa, existe uma informação fundamental para entrar nesse filme: ele parte do livro Se Não Eu, Quem Vai Fazer Você Feliz?: Minha História de Amor com Chorão, escrito por Graziela Gonçalves. Portanto, embora Chorão esteja no centro da narrativa, a proposta nunca foi exatamente construir uma cinebiografia tradicional sobre sua trajetória. O filme nasce do olhar de Grazi e do relacionamento que os dois viveram. Esse recorte é legítimo e poderia, inclusive, produzir um retrato muito mais íntimo do cantor. O problema é que o filme também não consegue sustentar plenamente esse ponto de vista. Existe um enorme problema de estruturação de roteiro. O começo atropela passagens importantes em busca de explosões emocionais muito rápidas. Mortes e acontecimentos trágicos são tratados como grandes momentos catárticos, mas envolvem pessoas importantes na vida de Chorão que recebem pouco espaço além de algumas cenas na orla de Santos. A intenção dramática está clara, mas falta preparação. O roteiro exige uma reação intensa da audiência sem ter criado previamente o vínculo necessário para que essa emoção realmente aconteça. Isso fica ainda mais evidente na carreira de Chorão. Existe um principiante e, pouco depois, existe um artista conhecido nacionalmente. O caminho entre essas duas coisas praticamente desaparece. A formação do Charlie Brown Jr., o amadurecimento artístico, a construção de uma identidade e o crescimento daquela figura pública são condensados em sequências de shows, montagens e passagens rápidas. O filme acredita que esse material produz uma sensação de trajetória. Não produz. Ele informa que Chorão cresceu, mas raramente nos deixa acompanhar esse crescimento. José Loreto entrega uma performance competente, principalmente no trabalho físico, na voz e na energia de palco. Existe uma preocupação evidente em reproduzir Chorão sem transformar a atuação numa caricatura. Ao mesmo tempo, a interpretação permanece muito presa a um regime de segurança. Falta o espaço mais desconfortável do personagem, aquele que permitiria ultrapassar os gestos reconhecíveis e chegar a alguma coisa mais difícil de organizar. E esse talvez seja o maior limite do filme. Existe um medo constante de invadir o próprio biografado. Chorão aparece, sofre, ama, explode e se contradiz, mas quase sempre existe alguma distância protegendo essa figura. O roteiro se aproxima e recua. Quando surge uma possibilidade de investigar seus impulsos, seus excessos ou suas contradições, a narrativa muitas vezes prefere avançar para o próximo episódio. O resultado é um filme fragmentado. Existe material para uma história sobre amor, fama, dependência emocional, criação artística, exposição pública e deterioração de uma relação. Mas essas camadas raramente conseguem existir juntas. Cada uma recebe algum espaço, uma cena forte, uma discussão, uma música, e logo é substituída por outra. Isso também prejudica Grazi. Se o filme assume sua memória como ponto de partida, seria natural que ela fosse a verdadeira estrutura dramática da narrativa. Só que nem sempre isso acontece. Em diversos momentos, sua perspectiva perde força justamente quando deveria conduzir melhor aquilo que estamos acompanhando. O filme fica dividido entre contar Chorão, contar o casal e reproduzir acontecimentos conhecidos. Nenhuma dessas frentes assume completamente as rédeas. Por isso, o problema não está no fato de o filme escolher um recorte específico. Uma cinebiografia não precisa dar conta de uma vida inteira. O problema é que esse recorte também parece construído sem coragem suficiente. Falta decidir até onde aquela relação pode nos levar para dentro de Chorão e até onde o filme está disposto a observar Grazi para além do papel de parceira de uma figura famosa. Sem esse mergulho, sobra uma reconstituição episódica. Existem músicas, shows, conflitos, momentos reconhecíveis e uma atuação empenhada no centro de tudo. Mas falta musculatura dramática para transformar esse conjunto em retrato. Falta nervo. Falta oxigênio entre uma passagem e outra. No fim, a experiência é frustrante porque o filme parece sempre muito perto de alguma coisa que nunca alcança. Chorão merecia um retrato mais complexo. Grazi também merecia uma narrativa que confiasse mais no ponto de vista que deu origem ao próprio projeto. O filme tenta existir entre essas duas forças, mas termina incompleto, atropelado pelas próprias metades e aquém daquilo que sua premissa prometia. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.

Pele de Rinoceronte (2026)

Críticas Pele de Rinoceronte (2026) Por Marcelo Paiva Os ecos de um feminicídio vivido por dois ângulos diferentes Dirigido por Marcello Ludwig Maia, Pele de Rinoceronte parte de um caso inspirado no assassinato de Angela Diniz, nos anos 1970, mas escolhe não reconstituí-lo. O crime já aconteceu quando a história começa. O que interessa é a repercussão desse caso e a forma como ela alcança duas mulheres que passam a lidar com ele por lugares muito diferentes. Uma delas é uma jornalista, vivida por Débora Falabella. A outra é uma advogada criminal, interpretada por Naruna Costa. É por meio delas que o filme acompanha os desdobramentos de um feminicídio e, sobretudo, a violência de uma defesa sustentada pela tese da “legítima defesa da honra”. A força do filme está na distância entre essas duas personagens e no modo como essa distância vai diminuindo sem que elas precisem dividir a cena. A jornalista começa olhando para o caso como parte de seu trabalho, até perceber que aquela violência também encontra correspondências em sua própria vida. A advogada, uma mulher preta e mãe, enxerga no julgamento algo que ultrapassa aquele processo e alcança o futuro das filhas. É um recorte especialmente fértil porque a história se passa em um momento em que a violência doméstica ainda ocupava outro lugar no debate público e na própria Justiça. O caso vai ganhando novos sentidos à medida que essas mulheres também passam a enxergá-lo de outra forma. O que parecia restrito à intimidade de um casal se revela parte de algo muito mais amplo, presente nas relações, nas instituições e na maneira como a violência contra mulheres era aceita e justificada. Nesse movimento, Pele de Rinoceronte também encontra uma ideia de sororidade bastante potente. Ela não nasce de uma aproximação direta entre as personagens, mas de uma espécie de reconhecimento à distância. As duas chegam ao mesmo problema por caminhos distintos e, de alguma forma, passam a se perceber dentro dele. A estrutura, no entanto, nem sempre acompanha a força dessa ideia. O filme é muito dependente dos diálogos e, em alguns momentos, essa escolha deixa a narrativa excessivamente explicativa. O ritmo perde fluidez, e certas cenas parecem carregar sozinhas uma intensidade que o restante do filme não consegue sustentar. Surge, então, a sensação de um material que talvez encontrasse mais precisão em uma duração menor. Ainda assim, Pele de Rinoceronte funciona melhor quando confia nessas pequenas aproximações entre o caso e a vida de suas personagens. Há uma delicadeza interessante na maneira como o filme mostra que um crime nunca termina apenas no fato em si. Ele continua produzindo efeitos, mudando percepções e revelando violências que já estavam ali, muitas vezes naturalizadas. É nessa observação que o longa encontra sua leitura mais forte, mesmo que a forma nem sempre consiga acompanhá-la com a mesma precisão. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.

Antártida (2026)

Críticas Antártida (2026) Por Marcelo Paiva Os diálogos podem destruir um filme? Essa é a reflexão que Antártida deixa ao fim da sessão de abertura da nova edição do Festival de Cinema de Gramado. A premissa é chamativa: acompanhamos a missão de brasileiros no continente gelado, enquanto um dos invernos mais rigorosos se aproxima. Para completar o quadro, os geradores de aquecimento da estação estão apresentando falhas. Mas, uma “premissa boa” só funciona quando existe um roteiro à altura. E esse não é o caso de Antártida. Falta sutileza. Algo indispensável quando o principal enredo do filme é sobre um abuso que acontece nessas circunstâncias de isolamento. Marina Ruy Barbosa interpreta aqui Inês, pesquisadora recém-chegada à estação, que logo na sua primeira noite, após uma festa regada a bebidas, é violentada por um desconhecido na calada da noite. A trama ambiciona aprofundar temas como machismo estrutural, violência doméstica e, principalmente, a negligência social em lidar com situações de violência sexual. E é justamente por lidar com um tema de extrema sensibilidade que ele não podia ser tão forçado e expositivo demais. Porque aqui isso não prejudica apenas a forma. Quando tudo precisa ser explicado, o próprio assunto acaba banalizado. As emoções perdem espaço, a violência vira quase uma ferramenta de roteiro e tudo começa a soar estranhamente artificial. As ações são sempre faladas, as motivações quase sempre explicadas e falta muita margem para não deixar seus personagens unidimensionais. É por isso que tudo soa tão falso, plástico, raso. E sinceramente, fazer um “whodunit” usando o abuso como tema central é um exercício, no mínimo, potencialmente traiçoeiro. Ou você domina radicalmente o seu texto, ou ele vai te levar a reboque. Ele te engole. Andrea Beltrão como comandante da estação, contudo, segura o filme do completo marasmo. Ela é a única personagem que transmite verdade ali, que não parece presa a um texto medíocre. Dirigido por Bruno Safadi, Antártida prova que ser uma “superprodução” não te protege de um roteiro insosso, perdido e falastrão. E que fique claro que as suas ideias não são necessariamente ruins, mas exigiam muito mais do que parecem à primeira vista. As sutilezas em um filme não o tornam simplesmente em algo “diferentão”, como alguns dirão, mas permitem que ele crie camadas, subtextos e tons. Ferramentas poderosas para retratar um dos assuntos mais importantes do nosso tempo. Sem isso, o que temos é um filme tão gelado quanto o seu título sugere. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.

Suspense clássico: quando nem o tempo é suficiente

Revista Digital Suspense clássico: quando nem o tempo é suficiente Por Marcelo Paiva Seis episódios depois, a temporada dedicada aos 25 grandes suspenses clássicos começa a revelar algo que vai além de uma simples curadoria de títulos essenciais. O que se desenha até aqui não é apenas um percurso histórico pelo gênero, mas uma constatação incômoda: certos filmes permanecem relevantes porque o tempo ainda não foi capaz de superá-los. Ao longo dessa seleção, o suspense deixa de ser entendido apenas como uma ferramenta de entretenimento e passa a se afirmar como um dispositivo de observação. Em suas diferentes formas, do terror mais direto ao drama psicológico, do noir ao realismo social, esses filmes compartilham uma característica fundamental: todos operam sobre tensões que continuam reconhecíveis. Existe algo de profundamente inquietante em perceber que histórias concebidas há 70 ou 80 anos ainda conseguem descrever, com precisão, experiências contemporâneas. Não se trata apenas de permanência estética ou valor histórico. Trata-se de atualidade temática. Uma mulher desacreditada. Uma mente sendo fragmentada. Uma criança em perigo. Um sistema falhando. Nada disso parece distante. E talvez nunca tenha sido. Esse percurso evidencia também uma mudança de eixo dentro do próprio gênero. Em um primeiro momento, o suspense clássico se apoiava mais em ameaças externas, figuras identificáveis como vilões ou forças hostis. Com o avanço das narrativas, o perigo passa a se infiltrar nas relações, nos espaços domésticos, nas instituições e, por fim, na própria percepção da realidade. Esse deslocamento ganha outra dimensão em À Margem da Vida, onde o suspense emerge do próprio real. A trajetória de uma mulher presa injustamente expõe um sistema que corrói identidades e elimina qualquer possibilidade de redenção. Não há mistério no sentido clássico. O desconforto nasce da observação direta de uma violência institucional que não precisa se esconder. Em A Cova das Serpentes, esse olhar se torna ainda mais íntimo. A descida de uma mulher em um sistema psiquiátrico brutal revela um tipo de horror que opera de dentro para fora. A fragmentação da mente, os tratamentos desumanos e a perda de autonomia constroem um suspense que não depende de um antagonista claro. O conflito passa a ser interno, sensorial, profundamente humano. Essa abordagem encontra um ponto de convergência importante em Gaslight. Aqui, o mal já não precisa de força ou imposição física. Ele se manifesta na manipulação, na repetição, na distorção da realidade. Um homem que lentamente convence sua esposa de que ela não pode confiar na própria percepção transforma o espaço doméstico em um território de instabilidade constante. O perigo, nesse caso, não é apenas o que acontece, mas o que deixa de ser confiável. Isso ajuda a entender por que essas obras seguem impactantes. O medo deixa de estar apenas no que é visível e passa a ser construído a partir de instabilidade, dúvida e perda de controle. Em muitos desses filmes, o verdadeiro conflito não está no que é mostrado, mas no que é sugerido, ou até mesmo no que permanece indefinido. Outro aspecto que se destaca é a forma como esses títulos antecipam discussões que só ganhariam nome e debate décadas depois. Dinâmicas de manipulação psicológica, violência institucional, silenciamento de vozes femininas e colapsos mentais aparecem com uma franqueza que ainda surpreende, como experiência dramática. É justamente nesse ponto que o suspense clássico revela sua força mais duradoura. Ele organiza a tensão em torno de conflitos humanos fundamentais e, ao fazer isso, atravessa diferentes épocas sem perder impacto. A temporada, até aqui, sugere uma leitura clara: o que começou como um mergulho em obras consagradas nas temporadas anteriores (já foram mais de 80 filmes!) se transforma gradualmente em um mapeamento das formas de medo que persistem. Do perigo físico à desestabilização psicológica, da ameaça individual ao colapso sistêmico, o gênero se expande, e com ele, a percepção do espectador. Mais do que revisitar clássicos, esses episódios apontam para questões que continuam abertas. E talvez seja exatamente por isso que esses filmes ainda nos encaram com tanta força. Porque, de alguma forma, ainda falam diretamente ao presente. Leia Também A Pequena Sereia (1989) Críticas A Pequena Sereia (1989) Por Mariana Moreira É um tanto difícil encontrarmos alguém que não tenha crescido ou acompanhado de perto as animações da Disney e não se sentiu profunda e positivamente impactado a ponto de determinado longa ter uma influência que continua até na vida adulta. Lançado em… Leia mais 28/03/2026 Millennium Mambo (2001) Críticas Millennium Mambo (2001) Por Lucas Costa Desde muito anos atrás, antes, mesmo, que eu assistisse a Millennium Mambo, o rosto da atriz Shu Qi, sob forte luz amarela e azul, sempre pairou no meu imaginário. A razão disso se mostra logo na primeira cena. Sua personagem, Vicky, caminhando, em… Leia mais 21/03/2026 Antes e Depois (1996) Críticas Antes e Depois (1996) Por Mariana Moreira Somos atraídos por narrativas que nos prendam, que nos façam questionar nossos valores e que tragam certo suspense dentro de um aspecto psicológico. No caso de Antes e Depois (Before and After), a narrativa gira em torno de um acontecimento crucial que… Leia mais 13/03/2026 Noite Vazia (1964) Críticas Noite Vazia (1964) Por Lucas Costa Clássico do cinema brasileiro, com Norma Bengell e Odete Lara no elenco, Noite Vazia, de Walter Hugo Khouri, foi lançado em 1964.A trama acompanha Luisinho e Nelson, dois amigos que saem pela noite em busca de prazer e luxúria. Após rodar pela cidade… Leia mais 12/03/2026 Ensina-me a Viver (1995) Críticas Ensina-me a Viver (1995) Por Mariana Moreira Alguns filmes passam despercebidos, sendo descobertos tempos depois, outros recebem atenção demais ou ganham uma reputação de viverem no esquecimento. Se escrever um roteiro audiovisual costuma ser algo que envolve um trabalho duro, adaptá-lo tendo como fonte principal uma obra literária é… Leia mais 09/03/2026 Carregar mais

A Pequena Sereia (1989)

Críticas A Pequena Sereia (1989) Por Mariana Moreira É um tanto difícil encontrarmos alguém que não tenha crescido ou acompanhado de perto as animações da Disney e não se sentiu profunda e positivamente impactado a ponto de determinado longa ter uma influência que continua até na vida adulta. Lançado em 1989, A Pequena Sereia deixou sua marca em um momento que o Walt Disney Animation Studios passava por certas dificuldades com suas animações anteriores. A chamada “Era de Bronze da Disney” ou “Era Sombria” (1970-1988), foi um período em que, mesmo com um declínio comercial e criativo, produziu animações memoráveis, mesmo apostando em um baixo orçamento e uso de xenografia e um estilo de traços mais grossos. Algumas delas são Aristogatas (1970), Bernardo e Bianca (1977) e O Cão e a Raposa (1980), que apesar de terem menor impacto comercial, fizeram parte da memória coletiva de muitos.  Voltando o foco novamente à história de Ariel, a clássica animação foi responsável por dar início ao que seria o próximo período de sucesso crítico e comercial da Disney, denominado “O Renascimento da Disney” (1989-1999), onde o estúdio recuperou seu prestígio crítico e comercial, produzindo clássicas animações musicais marcantes após uma era de declínio. Mas por que falar sobre A Pequena Sereia tantos anos após seu lançamento?  Vagamente baseado no conto de fadas dinamarquês homônimo de 1837 escrito por Hans Christian Andersen, o longa foi dirigido e roteirizado por John Musker e Ron Clements. Sua produção ficou encarregada a Musker, junto com Howard Ashman, que junto a Alan Menken escreveu as canções do filme; Menken, por sua vez, também foi responsável por compor a trilha sonora. A história gira em torno de Ariel, uma princesa sereia adolescente, que insatisfeita com a vida no mar e com um desejo de explorar o mundo humano, se apaixona pelo príncipe Eric e acaba fazendo um acordo com a bruxa do mar, Úrsula, para se tornar humana e ficar com ele.  A animação traz uma atemporalidade ao destacar temas centrais como liberdade, identidade e amor. Ariel, como protagonista, se torna um símbolo de independência e coragem ao deixar que sua curiosidade fale mais alto para que possa finalmente se aventurar ao desconhecido. Úrsula por sua vez, embora seja a antagonista, se tornou uma das vilãs mais icônicas e memoráveis da Disney e particularmente acho que a personagem poderia ser a próxima a ganhar um f ilme solo que introduzisse sua origem e contasse o que a levou a ser esta vilã como nós a conhecemos, como no caso dos live-actions de Malévola (2014) e Cruella (2021).  A Pequena Sereia não apenas nos trouxe uma narrativa encantadoramente envolvente, mas é reconhecida até hoje com uma das produções responsáveis por trazer de volta à Disney o respeito e o reconhecimento perdidos. Vencedora de dois Oscars, nas categorias de Melhor Trilha Sonora Original e Melhor Canção Original por “Under the Sea”, também se tornou o primeiro longa de animação a ser indicado ao Globo de Ouro na categoria de Melhor Filme de Comédia ou Musical. Se tornou um sucesso comercial, recebendo aclamação da crítica com elogios voltados aos personagens, música e animação.  Mais de três décadas depois, A Pequena Sereia continua encantando novas gerações por suas músicas singulares, personagens cativantes e temas universais como compaixão e autoconhecimento. É um convite para aqueles que queiram revisitar ou até mesmo assistir pela primeira vez um clássico que tanto marcou a infância e crescimento de muitos, como pode também nos fazer querer expandir nossos horizontes e moldar a forma como enxergamos o mundo à nossa volta. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.

Millennium Mambo (2001)

Críticas Millennium Mambo (2001) Por Lucas Costa Desde muito anos atrás, antes, mesmo, que eu assistisse a Millennium Mambo, o rosto da atriz Shu Qi, sob forte luz amarela e azul, sempre pairou no meu imaginário. A razão disso se mostra logo na primeira cena. Sua personagem, Vicky, caminhando, em câmera lenta, dentro de um túnel, sob a música eletrônica, parece saída de um sonho ou de uma memória distante. O filme todo é repleto dessas cenas duradouras e marcantes, com forte apelo sensorial. Acompanhamos a inquieta e insatisfeita Vicky, sobretudo em seu relacionamento conturbado com Hao-Hao, um rapaz violento e autodestrutivo. Durante este mergulho na vida noturna, boêmia e marginal de Taipei, em Taiwan, descobrimos que o filme não segue uma lógica linear. Ao contrário, através de planos bastante demorados e hipnóticos, vemos fragmentos desordenados da vida do casal. A câmera, muitas vezes desfocada, às vezes, parece tentar acompanhar o ritmo das personagens sem alcançá-las. Outras, os enquadra encobertos ou em constante movimento. Filma muitos vazios e lacunas. É um gesto técnico que, não apenas assimila a vida incerta, experimental e ansiosa da juventude em Taiwan, na virada do milênio, como, principalmente, fixa uma das questões principais do filme: a incomunicabilidade da experiência. A jornada pelo relacionamento dos dois jovens que, tão logo se conhecem em uma boate, vão morar juntos, construída por seu comportamento impulsivo, pelo excesso de estímulo sensível, suas repetições de comportamentos destrutivos, por cenas inconclusas, é uma jornada pela impossibilidade, mesma, de sua vida amorosa. Ou mais: pela impossibilidade de sua mudança de vida, em geral. Em dado momento, Hao-Hao diz que os dois pertencem a mundos diferentes, embora Vicky esteja habitando o mundo dele. Deste modo, como poderiam se entender? Ou seja, não é o caso, como quiseram alguns críticos, de serem personagens superficiais e bidimensionais. Vicky e suas fugas que oscilam com retornar à relação com Hao-Hao. O ócio e a vida marginal que Hao-Hao leva, assumem uma trágica, imutável. O filme, ainda, faz paralelos entre a vida íntima do casal, o estilo de vida da geração e questões profundas da identidade e independência do Taiwan. Como na cena em que o mágico mostra ter apenas moedas americanas e uma das personagens comenta: escravo da moeda estrangeira. Mas, limito-me, aqui, neste texto a apenas constatar esse aspecto. Fato é que, a exemplo de Wong Kar Wai, Hou Hsao Hsien cria cenas oníricas fortíssimas, para registrar, com forte estetização e apelo sensorial, os desafios da incomunicabilidade do cinema e da experiência amorosa contemporânea. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.

Antes e Depois (1996)

Críticas Antes e Depois (1996) Por Mariana Moreira Somos atraídos por narrativas que nos prendam, que nos façam questionar nossos valores e que tragam certo suspense dentro de um aspecto psicológico. No caso de Antes e Depois (Before and After), a narrativa gira em torno de um acontecimento crucial que não apenas testa os limites humanos, como é capaz de determinar o destino de uma família.  Dirigido por Barbet Schroeder, baseado no livro homônimo de Rosellen Brown e adaptado para o cinema por Ted Tally (mesmo roteirista por trás de O Silêncio dos Inocentes), o filme estrelado por Liam Neeson, Meryl Streep e Edward Furlong mergulha em um drama intenso que se desenrola após um crime inesperado. Mais do que um suspense, a obra expõe os dilemas psicológicos de cada personagem diante da culpa, da lealdade e da busca pela verdade. A trama envolvente A história começa com a acusação de Jacob (Edward Furlong), filho adolescente da família Ryan, de ter assassinado a namorada. A partir daí, o enredo se concentra menos na investigação policial e mais nas reações da família e membros da pequena cidade em Massachusetts diante da tragédia. O título Before and After já sugere a cisão: a vida antes do crime e a vida depois, marcada por segredos, tensões e escolhas morais. A narrativa não se concentra apenas na resolução do caso, mas na forma como cada personagem lida com a crise. Os dilemas psicológicos dos personagens Carolyn Ryan (Meryl Streep) A mãe representa a consciência ética. Seu arco mostra a luta entre proteger o filho e manter a integridade moral. Carolyn defende que a verdade deve prevalecer, mesmo que isso destrua a família. Ben Ryan (Liam Neeson) O pai é o oposto: movido pelo instinto de proteção, tenta apagar as provas e salvar Jacob. Seu dilema é até onde um pai pode ir para proteger o filho, mesmo que isso signifique desafiar a lei. Jacob Ryan (Edward Furlong) O adolescente é o epicentro da trama. Mais do que a culpa, o filme explora o impacto psicológico da acusação sobre sua identidade e sobre a percepção dos pais. Jacob simboliza a fragilidade da juventude diante de erros irreversíveis. A trilha sonora, composta por Howard Shore, reforça o clima sombrio e psicológico do filme, enquanto a fotografia de Luciano Tovoli contribui para a atmosfera de tensão e intimidade familiar. Juntas, música e imagem criam uma estética que busca intensificar os dilemas morais e emocionais da trama. Apesar da trama envolvente e personagens emblemáticos, o filme recebeu críticas mistas, que apontaram o roteiro como superficial e a direção como irregular, ambos não tendo explorado plenamente o potencial psicológico do livro. Com uma produção ambiciosa, Before and After acabou não tendo um bom desempenho nas bilheterias, mas por outro lado as atuações de Meryl Streep e Liam Neeson foram elogiadas, com destaque na capacidade de transmitir a dor e complexidade de pais divididos entre amor e justiça. Before and After é um drama psicológico que questiona os limites da lealdade familiar e da moralidade. Mais do que um suspense sobre um crime, é um estudo sobre como a verdade pode abalar os vínculos mais profundos. Uma obra que, mesmo com suas falhas, convida o espectador a refletir sobre escolhas extremas e suas consequências, além de observar sua qualidade e desempenho artístico dentro de seu universo estético e atmosférico. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.

Noite Vazia (1964)

Críticas Noite Vazia (1964) Por Lucas Costa Clássico do cinema brasileiro, com Norma Bengell e Odete Lara no elenco, Noite Vazia, de Walter Hugo Khouri, foi lançado em 1964.A trama acompanha Luisinho e Nelson, dois amigos que saem pela noite em busca de prazer e luxúria. Após rodar pela cidade sem encontrar diversão satisfatória, os dois encontram, por acaso, duas prostitutas sofisticadas e as levam para um apartamento emprestado. É possível reparar, de início, uma dualidade posta. Luisinho tem uma família, um filho e ainda veste o terno do trabalho. No começo da jornada, encontra pessoas que fazem parte de sua vida diurna. Coloca-se uma relação entre o mundo da família e do trabalho, das relações às claras, com o que seria seu lado desregrado e subterrâneo. E é nesse subterrâneo que a verdade do Todo se revela. Os dois homens apresentam uma postura diferente em relação a seu itinerário e que se completa ao encontrar as duas mulheres: Nelson introduz a negação e o desconforto. Não quer sair, mas vai mesmo assim. O tempo todo mantém a expressão austera como se mantivesse distância de tudo que faz; Luisinho, por outro lado, é insistente e resignado. Diante do tédio e da frustração, resolve sempre insistir na mesma coisa, afirmando que procurar por diversão sempre no mesmo lugar é quase como uma obrigação para sentir que aproveita a vida. “Nunca sei, direito, se gosto ou não gosto”, afirma, em dado momento. Sua estada no apartamento parece guardar relações com o filme de Billy Wilder, mas ao contrário da comédia, aprofundando o drama, as tensões, e as questões existenciais daqueles personagens. Assim como Luisinho, Regina parece não se importar com certo vazio de sentido de toda a empreitada noturna e, além disso, com sua repetição. Marta e Nelson, por outro lado, se aproximam por uma postura distanciada e reflexiva, nitidamente incômoda. Os movimentos de câmera, junto da trilha sonora original de Rogério Duprat, mostram a inquietude interna onde quase não há movimento externo e transformam a busca por prazer em sequências de profunda agonia e mal-estar. Em dado momento, umas das personagens afirma que a noite não é mais a mesma. É como o sentido da vida boêmia que inspirou tantos poetas e aventureiros agora estivesse esvaziado e aquelas pessoas andam em círculos por suas ruínas. Tudo termina em tédio e frustração, apenas para começar de novo, evidenciando na obra sua dimensão trágica e até absurda. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.

Ensina-me a Viver (1995)

Críticas Ensina-me a Viver (1995) Por Mariana Moreira Alguns filmes passam despercebidos, sendo descobertos tempos depois, outros recebem atenção demais ou ganham uma reputação de viverem no esquecimento. Se escrever um roteiro audiovisual costuma ser algo que envolve um trabalho duro, adaptá-lo tendo como fonte principal uma obra literária é algo ainda mais desafiador, ainda mais quando quer se fazer aquilo com cuidado e fidelidade. Ensina-me a Viver ou The Grass Harp em seu título original, pode ser considerado um dos exemplos de obras cinematográficas que embora não tenham gerado tanta notoriedade da parte da crítica ou bilheteria, são lembradas com afeto pelo público por abordarem determinada obra literária com sutileza e um certo charme que de início não parece tão óbvio. O longa teve sua estreia no TIFF (Toronto International Film Festival) em setembro de 1995, sendo lançado nos Estados Unidos em outubro do ano seguinte. Contou com a direção de Charles Matthau. Baseado na obra literária homônima de Truman Capote, o roteiro é adaptado da peça teatral pelo ganhador do Oscar Stirling Silliphant, sendo este seu último trabalho. A narrativa acompanha Collin Fenwick (Edward Furlong), um jovem órfão que vai morar com duas primas solteiras em uma pequena cidade no sul dos Estados Unidos nos anos 1930. Entre a rígida Verena (Sissy Spacek) e a sonhadora Dolly (Piper Laurie), Collin encontra refúgio em um mundo de imaginação e afeto. Quando Dolly decide se rebelar contra a tirania da irmã, ela, Collin e a perspicaz empregada Catherine (Nell Carter) passam a viver em uma casa na árvore, criando uma comunidade alternativa marcada por liberdade e poesia. O elenco reúne nomes de peso: Piper Laurie transmite ternura e fragilidade como Dolly, enquanto Sissy Spacek dá vida a autoritária Verena, criando um contraste entre as personagens que embora tenham um parentesco próximo, têm personalidades significantemente distintas. Edward Furlong encarna a inocência e vulnerabilidade juvenil de Collin. Isso sem contar com participações marcantes de Walter Matthau, Jack Lemmon e Mary Steenburgen, que trazem riqueza à trama com interpretações sensíveis e reforçam o caráter coral da narrativa. Charles Matthau imprime ao filme um tom nostálgico e contemplativo. A fotografia de John A. Alonzo privilegia cores suaves e paisagens bucólicas, mantendo uma atmosfera de conto de fadas. O ritmo é deliberadamente lento, convidando o espectador a mergulhar nos silêncios e nos detalhes, em sintonia com o espírito literário da obra de Capote. Esta escolha estética, por mais que possa afastar parte do público acostumado a narrativas mais dinâmicas, é justamente o que dá ao filme sua cadência tranquila onde encontra força poética. Entre os temas centrais, destacam-se a infância e a imaginação, representadas pela casa na árvore como espaço de liberdade criativa; os conflitos familiares, que revelam diferentes visões de mundo e de afeto; e a memória, que permeia toda a obra como uma ode às lembranças e às pequenas histórias que moldam a vida. Capote, em sua novela, buscava capturar a música invisível das experiências humanas, e o filme procura ecoar essa melodia através da delicadeza das imagens e dos diálogos, além de ser conduzida com sintonia pela trilha sonora instrumental de Patrick Williams. Embora não tenha alcançado grande sucesso comercial, The Grass Harp foi reconhecido por sua fidelidade ao espírito da obra literária de Capote e pelo elenco estelar. Alguns críticos apontaram o ritmo lento como um desafio, mas também destacaram a sensibilidade da direção e atmosfera poética como qualidades que tornam o filme uma experiência única. The Grass Harp é uma produção que se destaca por sua sensibilidade e olhar carinhoso sobre a infância, a família e a memória, assim como centralizar a ânsia pela liberdade e a força poética. Uma obra que, mais do que contar uma história, busca transmitir uma sensação: de ouvir a “harpa da relva” que ecoa nas lembranças e nos afetos de cada espectador. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.