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Suspense clássico: quando nem o tempo é suficiente

Revista Digital Suspense clássico: quando nem o tempo é suficiente Por Marcelo Paiva Seis episódios depois, a temporada dedicada aos 25 grandes suspenses clássicos começa a revelar algo que vai além de uma simples curadoria de títulos essenciais. O que se desenha até aqui não é apenas um percurso histórico pelo gênero, mas uma constatação incômoda: certos filmes permanecem relevantes porque o tempo ainda não foi capaz de superá-los. Ao longo dessa seleção, o suspense deixa de ser entendido apenas como uma ferramenta de entretenimento e passa a se afirmar como um dispositivo de observação. Em suas diferentes formas, do terror mais direto ao drama psicológico, do noir ao realismo social, esses filmes compartilham uma característica fundamental: todos operam sobre tensões que continuam reconhecíveis. Existe algo de profundamente inquietante em perceber que histórias concebidas há 70 ou 80 anos ainda conseguem descrever, com precisão, experiências contemporâneas. Não se trata apenas de permanência estética ou valor histórico. Trata-se de atualidade temática. Uma mulher desacreditada. Uma mente sendo fragmentada. Uma criança em perigo. Um sistema falhando. Nada disso parece distante. E talvez nunca tenha sido. Esse percurso evidencia também uma mudança de eixo dentro do próprio gênero. Em um primeiro momento, o suspense clássico se apoiava mais em ameaças externas, figuras identificáveis como vilões ou forças hostis. Com o avanço das narrativas, o perigo passa a se infiltrar nas relações, nos espaços domésticos, nas instituições e, por fim, na própria percepção da realidade. Esse deslocamento ganha outra dimensão em À Margem da Vida, onde o suspense emerge do próprio real. A trajetória de uma mulher presa injustamente expõe um sistema que corrói identidades e elimina qualquer possibilidade de redenção. Não há mistério no sentido clássico. O desconforto nasce da observação direta de uma violência institucional que não precisa se esconder. Em A Cova das Serpentes, esse olhar se torna ainda mais íntimo. A descida de uma mulher em um sistema psiquiátrico brutal revela um tipo de horror que opera de dentro para fora. A fragmentação da mente, os tratamentos desumanos e a perda de autonomia constroem um suspense que não depende de um antagonista claro. O conflito passa a ser interno, sensorial, profundamente humano. Essa abordagem encontra um ponto de convergência importante em Gaslight. Aqui, o mal já não precisa de força ou imposição física. Ele se manifesta na manipulação, na repetição, na distorção da realidade. Um homem que lentamente convence sua esposa de que ela não pode confiar na própria percepção transforma o espaço doméstico em um território de instabilidade constante. O perigo, nesse caso, não é apenas o que acontece, mas o que deixa de ser confiável. Isso ajuda a entender por que essas obras seguem impactantes. O medo deixa de estar apenas no que é visível e passa a ser construído a partir de instabilidade, dúvida e perda de controle. Em muitos desses filmes, o verdadeiro conflito não está no que é mostrado, mas no que é sugerido, ou até mesmo no que permanece indefinido. Outro aspecto que se destaca é a forma como esses títulos antecipam discussões que só ganhariam nome e debate décadas depois. Dinâmicas de manipulação psicológica, violência institucional, silenciamento de vozes femininas e colapsos mentais aparecem com uma franqueza que ainda surpreende, como experiência dramática. É justamente nesse ponto que o suspense clássico revela sua força mais duradoura. Ele organiza a tensão em torno de conflitos humanos fundamentais e, ao fazer isso, atravessa diferentes épocas sem perder impacto. A temporada, até aqui, sugere uma leitura clara: o que começou como um mergulho em obras consagradas nas temporadas anteriores (já foram mais de 80 filmes!) se transforma gradualmente em um mapeamento das formas de medo que persistem. Do perigo físico à desestabilização psicológica, da ameaça individual ao colapso sistêmico, o gênero se expande, e com ele, a percepção do espectador. Mais do que revisitar clássicos, esses episódios apontam para questões que continuam abertas. E talvez seja exatamente por isso que esses filmes ainda nos encaram com tanta força. Porque, de alguma forma, ainda falam diretamente ao presente. Leia Também A Pequena Sereia (1989) Críticas A Pequena Sereia (1989) Por Mariana Moreira É um tanto difícil encontrarmos alguém que não tenha crescido ou acompanhado de perto as animações da Disney e não se sentiu profunda e positivamente impactado a ponto de determinado longa ter uma influência que continua até na vida adulta. Lançado em… Leia mais 28/03/2026 Millennium Mambo (2001) Críticas Millennium Mambo (2001) Por Lucas Costa Desde muito anos atrás, antes, mesmo, que eu assistisse a Millennium Mambo, o rosto da atriz Shu Qi, sob forte luz amarela e azul, sempre pairou no meu imaginário. A razão disso se mostra logo na primeira cena. Sua personagem, Vicky, caminhando, em… Leia mais 21/03/2026 Antes e Depois (1996) Críticas Antes e Depois (1996) Por Mariana Moreira Somos atraídos por narrativas que nos prendam, que nos façam questionar nossos valores e que tragam certo suspense dentro de um aspecto psicológico. No caso de Antes e Depois (Before and After), a narrativa gira em torno de um acontecimento crucial que… Leia mais 13/03/2026 Noite Vazia (1964) Críticas Noite Vazia (1964) Por Lucas Costa Clássico do cinema brasileiro, com Norma Bengell e Odete Lara no elenco, Noite Vazia, de Walter Hugo Khouri, foi lançado em 1964.A trama acompanha Luisinho e Nelson, dois amigos que saem pela noite em busca de prazer e luxúria. Após rodar pela cidade… Leia mais 12/03/2026 Ensina-me a Viver (1995) Críticas Ensina-me a Viver (1995) Por Mariana Moreira Alguns filmes passam despercebidos, sendo descobertos tempos depois, outros recebem atenção demais ou ganham uma reputação de viverem no esquecimento. Se escrever um roteiro audiovisual costuma ser algo que envolve um trabalho duro, adaptá-lo tendo como fonte principal uma obra literária é… Leia mais 09/03/2026 Carregar mais

A Pequena Sereia (1989)

Críticas A Pequena Sereia (1989) Por Mariana Moreira É um tanto difícil encontrarmos alguém que não tenha crescido ou acompanhado de perto as animações da Disney e não se sentiu profunda e positivamente impactado a ponto de determinado longa ter uma influência que continua até na vida adulta. Lançado em 1989, A Pequena Sereia deixou sua marca em um momento que o Walt Disney Animation Studios passava por certas dificuldades com suas animações anteriores. A chamada “Era de Bronze da Disney” ou “Era Sombria” (1970-1988), foi um período em que, mesmo com um declínio comercial e criativo, produziu animações memoráveis, mesmo apostando em um baixo orçamento e uso de xenografia e um estilo de traços mais grossos. Algumas delas são Aristogatas (1970), Bernardo e Bianca (1977) e O Cão e a Raposa (1980), que apesar de terem menor impacto comercial, fizeram parte da memória coletiva de muitos.  Voltando o foco novamente à história de Ariel, a clássica animação foi responsável por dar início ao que seria o próximo período de sucesso crítico e comercial da Disney, denominado “O Renascimento da Disney” (1989-1999), onde o estúdio recuperou seu prestígio crítico e comercial, produzindo clássicas animações musicais marcantes após uma era de declínio. Mas por que falar sobre A Pequena Sereia tantos anos após seu lançamento?  Vagamente baseado no conto de fadas dinamarquês homônimo de 1837 escrito por Hans Christian Andersen, o longa foi dirigido e roteirizado por John Musker e Ron Clements. Sua produção ficou encarregada a Musker, junto com Howard Ashman, que junto a Alan Menken escreveu as canções do filme; Menken, por sua vez, também foi responsável por compor a trilha sonora. A história gira em torno de Ariel, uma princesa sereia adolescente, que insatisfeita com a vida no mar e com um desejo de explorar o mundo humano, se apaixona pelo príncipe Eric e acaba fazendo um acordo com a bruxa do mar, Úrsula, para se tornar humana e ficar com ele.  A animação traz uma atemporalidade ao destacar temas centrais como liberdade, identidade e amor. Ariel, como protagonista, se torna um símbolo de independência e coragem ao deixar que sua curiosidade fale mais alto para que possa finalmente se aventurar ao desconhecido. Úrsula por sua vez, embora seja a antagonista, se tornou uma das vilãs mais icônicas e memoráveis da Disney e particularmente acho que a personagem poderia ser a próxima a ganhar um f ilme solo que introduzisse sua origem e contasse o que a levou a ser esta vilã como nós a conhecemos, como no caso dos live-actions de Malévola (2014) e Cruella (2021).  A Pequena Sereia não apenas nos trouxe uma narrativa encantadoramente envolvente, mas é reconhecida até hoje com uma das produções responsáveis por trazer de volta à Disney o respeito e o reconhecimento perdidos. Vencedora de dois Oscars, nas categorias de Melhor Trilha Sonora Original e Melhor Canção Original por “Under the Sea”, também se tornou o primeiro longa de animação a ser indicado ao Globo de Ouro na categoria de Melhor Filme de Comédia ou Musical. Se tornou um sucesso comercial, recebendo aclamação da crítica com elogios voltados aos personagens, música e animação.  Mais de três décadas depois, A Pequena Sereia continua encantando novas gerações por suas músicas singulares, personagens cativantes e temas universais como compaixão e autoconhecimento. É um convite para aqueles que queiram revisitar ou até mesmo assistir pela primeira vez um clássico que tanto marcou a infância e crescimento de muitos, como pode também nos fazer querer expandir nossos horizontes e moldar a forma como enxergamos o mundo à nossa volta. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.

Millennium Mambo (2001)

Críticas Millennium Mambo (2001) Por Lucas Costa Desde muito anos atrás, antes, mesmo, que eu assistisse a Millennium Mambo, o rosto da atriz Shu Qi, sob forte luz amarela e azul, sempre pairou no meu imaginário. A razão disso se mostra logo na primeira cena. Sua personagem, Vicky, caminhando, em câmera lenta, dentro de um túnel, sob a música eletrônica, parece saída de um sonho ou de uma memória distante. O filme todo é repleto dessas cenas duradouras e marcantes, com forte apelo sensorial. Acompanhamos a inquieta e insatisfeita Vicky, sobretudo em seu relacionamento conturbado com Hao-Hao, um rapaz violento e autodestrutivo. Durante este mergulho na vida noturna, boêmia e marginal de Taipei, em Taiwan, descobrimos que o filme não segue uma lógica linear. Ao contrário, através de planos bastante demorados e hipnóticos, vemos fragmentos desordenados da vida do casal. A câmera, muitas vezes desfocada, às vezes, parece tentar acompanhar o ritmo das personagens sem alcançá-las. Outras, os enquadra encobertos ou em constante movimento. Filma muitos vazios e lacunas. É um gesto técnico que, não apenas assimila a vida incerta, experimental e ansiosa da juventude em Taiwan, na virada do milênio, como, principalmente, fixa uma das questões principais do filme: a incomunicabilidade da experiência. A jornada pelo relacionamento dos dois jovens que, tão logo se conhecem em uma boate, vão morar juntos, construída por seu comportamento impulsivo, pelo excesso de estímulo sensível, suas repetições de comportamentos destrutivos, por cenas inconclusas, é uma jornada pela impossibilidade, mesma, de sua vida amorosa. Ou mais: pela impossibilidade de sua mudança de vida, em geral. Em dado momento, Hao-Hao diz que os dois pertencem a mundos diferentes, embora Vicky esteja habitando o mundo dele. Deste modo, como poderiam se entender? Ou seja, não é o caso, como quiseram alguns críticos, de serem personagens superficiais e bidimensionais. Vicky e suas fugas que oscilam com retornar à relação com Hao-Hao. O ócio e a vida marginal que Hao-Hao leva, assumem uma trágica, imutável. O filme, ainda, faz paralelos entre a vida íntima do casal, o estilo de vida da geração e questões profundas da identidade e independência do Taiwan. Como na cena em que o mágico mostra ter apenas moedas americanas e uma das personagens comenta: escravo da moeda estrangeira. Mas, limito-me, aqui, neste texto a apenas constatar esse aspecto. Fato é que, a exemplo de Wong Kar Wai, Hou Hsao Hsien cria cenas oníricas fortíssimas, para registrar, com forte estetização e apelo sensorial, os desafios da incomunicabilidade do cinema e da experiência amorosa contemporânea. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.

Antes e Depois (1996)

Críticas Antes e Depois (1996) Por Mariana Moreira Somos atraídos por narrativas que nos prendam, que nos façam questionar nossos valores e que tragam certo suspense dentro de um aspecto psicológico. No caso de Antes e Depois (Before and After), a narrativa gira em torno de um acontecimento crucial que não apenas testa os limites humanos, como é capaz de determinar o destino de uma família.  Dirigido por Barbet Schroeder, baseado no livro homônimo de Rosellen Brown e adaptado para o cinema por Ted Tally (mesmo roteirista por trás de O Silêncio dos Inocentes), o filme estrelado por Liam Neeson, Meryl Streep e Edward Furlong mergulha em um drama intenso que se desenrola após um crime inesperado. Mais do que um suspense, a obra expõe os dilemas psicológicos de cada personagem diante da culpa, da lealdade e da busca pela verdade. A trama envolvente A história começa com a acusação de Jacob (Edward Furlong), filho adolescente da família Ryan, de ter assassinado a namorada. A partir daí, o enredo se concentra menos na investigação policial e mais nas reações da família e membros da pequena cidade em Massachusetts diante da tragédia. O título Before and After já sugere a cisão: a vida antes do crime e a vida depois, marcada por segredos, tensões e escolhas morais. A narrativa não se concentra apenas na resolução do caso, mas na forma como cada personagem lida com a crise. Os dilemas psicológicos dos personagens Carolyn Ryan (Meryl Streep) A mãe representa a consciência ética. Seu arco mostra a luta entre proteger o filho e manter a integridade moral. Carolyn defende que a verdade deve prevalecer, mesmo que isso destrua a família. Ben Ryan (Liam Neeson) O pai é o oposto: movido pelo instinto de proteção, tenta apagar as provas e salvar Jacob. Seu dilema é até onde um pai pode ir para proteger o filho, mesmo que isso signifique desafiar a lei. Jacob Ryan (Edward Furlong) O adolescente é o epicentro da trama. Mais do que a culpa, o filme explora o impacto psicológico da acusação sobre sua identidade e sobre a percepção dos pais. Jacob simboliza a fragilidade da juventude diante de erros irreversíveis. A trilha sonora, composta por Howard Shore, reforça o clima sombrio e psicológico do filme, enquanto a fotografia de Luciano Tovoli contribui para a atmosfera de tensão e intimidade familiar. Juntas, música e imagem criam uma estética que busca intensificar os dilemas morais e emocionais da trama. Apesar da trama envolvente e personagens emblemáticos, o filme recebeu críticas mistas, que apontaram o roteiro como superficial e a direção como irregular, ambos não tendo explorado plenamente o potencial psicológico do livro. Com uma produção ambiciosa, Before and After acabou não tendo um bom desempenho nas bilheterias, mas por outro lado as atuações de Meryl Streep e Liam Neeson foram elogiadas, com destaque na capacidade de transmitir a dor e complexidade de pais divididos entre amor e justiça. Before and After é um drama psicológico que questiona os limites da lealdade familiar e da moralidade. Mais do que um suspense sobre um crime, é um estudo sobre como a verdade pode abalar os vínculos mais profundos. Uma obra que, mesmo com suas falhas, convida o espectador a refletir sobre escolhas extremas e suas consequências, além de observar sua qualidade e desempenho artístico dentro de seu universo estético e atmosférico. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.

Noite Vazia (1964)

Críticas Noite Vazia (1964) Por Lucas Costa Clássico do cinema brasileiro, com Norma Bengell e Odete Lara no elenco, Noite Vazia, de Walter Hugo Khouri, foi lançado em 1964.A trama acompanha Luisinho e Nelson, dois amigos que saem pela noite em busca de prazer e luxúria. Após rodar pela cidade sem encontrar diversão satisfatória, os dois encontram, por acaso, duas prostitutas sofisticadas e as levam para um apartamento emprestado. É possível reparar, de início, uma dualidade posta. Luisinho tem uma família, um filho e ainda veste o terno do trabalho. No começo da jornada, encontra pessoas que fazem parte de sua vida diurna. Coloca-se uma relação entre o mundo da família e do trabalho, das relações às claras, com o que seria seu lado desregrado e subterrâneo. E é nesse subterrâneo que a verdade do Todo se revela. Os dois homens apresentam uma postura diferente em relação a seu itinerário e que se completa ao encontrar as duas mulheres: Nelson introduz a negação e o desconforto. Não quer sair, mas vai mesmo assim. O tempo todo mantém a expressão austera como se mantivesse distância de tudo que faz; Luisinho, por outro lado, é insistente e resignado. Diante do tédio e da frustração, resolve sempre insistir na mesma coisa, afirmando que procurar por diversão sempre no mesmo lugar é quase como uma obrigação para sentir que aproveita a vida. “Nunca sei, direito, se gosto ou não gosto”, afirma, em dado momento. Sua estada no apartamento parece guardar relações com o filme de Billy Wilder, mas ao contrário da comédia, aprofundando o drama, as tensões, e as questões existenciais daqueles personagens. Assim como Luisinho, Regina parece não se importar com certo vazio de sentido de toda a empreitada noturna e, além disso, com sua repetição. Marta e Nelson, por outro lado, se aproximam por uma postura distanciada e reflexiva, nitidamente incômoda. Os movimentos de câmera, junto da trilha sonora original de Rogério Duprat, mostram a inquietude interna onde quase não há movimento externo e transformam a busca por prazer em sequências de profunda agonia e mal-estar. Em dado momento, umas das personagens afirma que a noite não é mais a mesma. É como o sentido da vida boêmia que inspirou tantos poetas e aventureiros agora estivesse esvaziado e aquelas pessoas andam em círculos por suas ruínas. Tudo termina em tédio e frustração, apenas para começar de novo, evidenciando na obra sua dimensão trágica e até absurda. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.

Ensina-me a Viver (1995)

Críticas Ensina-me a Viver (1995) Por Mariana Moreira Alguns filmes passam despercebidos, sendo descobertos tempos depois, outros recebem atenção demais ou ganham uma reputação de viverem no esquecimento. Se escrever um roteiro audiovisual costuma ser algo que envolve um trabalho duro, adaptá-lo tendo como fonte principal uma obra literária é algo ainda mais desafiador, ainda mais quando quer se fazer aquilo com cuidado e fidelidade. Ensina-me a Viver ou The Grass Harp em seu título original, pode ser considerado um dos exemplos de obras cinematográficas que embora não tenham gerado tanta notoriedade da parte da crítica ou bilheteria, são lembradas com afeto pelo público por abordarem determinada obra literária com sutileza e um certo charme que de início não parece tão óbvio. O longa teve sua estreia no TIFF (Toronto International Film Festival) em setembro de 1995, sendo lançado nos Estados Unidos em outubro do ano seguinte. Contou com a direção de Charles Matthau. Baseado na obra literária homônima de Truman Capote, o roteiro é adaptado da peça teatral pelo ganhador do Oscar Stirling Silliphant, sendo este seu último trabalho. A narrativa acompanha Collin Fenwick (Edward Furlong), um jovem órfão que vai morar com duas primas solteiras em uma pequena cidade no sul dos Estados Unidos nos anos 1930. Entre a rígida Verena (Sissy Spacek) e a sonhadora Dolly (Piper Laurie), Collin encontra refúgio em um mundo de imaginação e afeto. Quando Dolly decide se rebelar contra a tirania da irmã, ela, Collin e a perspicaz empregada Catherine (Nell Carter) passam a viver em uma casa na árvore, criando uma comunidade alternativa marcada por liberdade e poesia. O elenco reúne nomes de peso: Piper Laurie transmite ternura e fragilidade como Dolly, enquanto Sissy Spacek dá vida a autoritária Verena, criando um contraste entre as personagens que embora tenham um parentesco próximo, têm personalidades significantemente distintas. Edward Furlong encarna a inocência e vulnerabilidade juvenil de Collin. Isso sem contar com participações marcantes de Walter Matthau, Jack Lemmon e Mary Steenburgen, que trazem riqueza à trama com interpretações sensíveis e reforçam o caráter coral da narrativa. Charles Matthau imprime ao filme um tom nostálgico e contemplativo. A fotografia de John A. Alonzo privilegia cores suaves e paisagens bucólicas, mantendo uma atmosfera de conto de fadas. O ritmo é deliberadamente lento, convidando o espectador a mergulhar nos silêncios e nos detalhes, em sintonia com o espírito literário da obra de Capote. Esta escolha estética, por mais que possa afastar parte do público acostumado a narrativas mais dinâmicas, é justamente o que dá ao filme sua cadência tranquila onde encontra força poética. Entre os temas centrais, destacam-se a infância e a imaginação, representadas pela casa na árvore como espaço de liberdade criativa; os conflitos familiares, que revelam diferentes visões de mundo e de afeto; e a memória, que permeia toda a obra como uma ode às lembranças e às pequenas histórias que moldam a vida. Capote, em sua novela, buscava capturar a música invisível das experiências humanas, e o filme procura ecoar essa melodia através da delicadeza das imagens e dos diálogos, além de ser conduzida com sintonia pela trilha sonora instrumental de Patrick Williams. Embora não tenha alcançado grande sucesso comercial, The Grass Harp foi reconhecido por sua fidelidade ao espírito da obra literária de Capote e pelo elenco estelar. Alguns críticos apontaram o ritmo lento como um desafio, mas também destacaram a sensibilidade da direção e atmosfera poética como qualidades que tornam o filme uma experiência única. The Grass Harp é uma produção que se destaca por sua sensibilidade e olhar carinhoso sobre a infância, a família e a memória, assim como centralizar a ânsia pela liberdade e a força poética. Uma obra que, mais do que contar uma história, busca transmitir uma sensação: de ouvir a “harpa da relva” que ecoa nas lembranças e nos afetos de cada espectador. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.

O Homem sem Face (1993)

Críticas O Homem sem Face (1993) Por Mariana Moreira Sabe quando estamos buscando sobre determinado filme e nos deparamos com outro que nem sequer tínhamos ouvido falar, mas imediatamente despertam nosso interesse? Particularmente acho interessante quando acontece, pois, além de sempre poder aumentar o repertório relacionado a cinema, também podemos ter uma boa surpresa ao nos depararmos com uma história capaz de nos comover e nos fazer refletir. O Homem sem Face, intitulado em seu idioma original como The Man Without a Face, é um filme do gênero dramático estrelado por Mel Gibson, que também marca sua estreia na direção do longa-metragem. O roteiro escrito por Malcolm MacRury se baseia no livro homônimo escrito por Isabelle Holland, lançado em 1972. Embora a adaptação tenha suas diferenças em relação ao material de origem, a mensagem principal da narrativa se mantém a mesma com um significado universal e atemporal: estar aberto a aceitar, compreender e acolher aqueles que são vistos como “diferentes”. Este é um dos filmes que nos atraí por parecer falar diretamente do coração, não apenas por sua história, mas pela forma como nos convida a olhar para além das aparências. A trama e seus silêncios O jovem Chuck Norstadt (Nick Stahl) sonha em entrar para a academia militar, mas enfrenta dificuldades acadêmicas e emocionais. É nesse contexto que ele se aproxima de Justin McLeod (Mel Gibson), um ex-professor que vive isolado após um acidente que deixou seu rosto desfigurado. O que começa como uma relação de tutoria se transforma em um vínculo profundo, onde cada um aprende a lidar com suas próprias dores e expectativas. O filme não se apressa: prefere os silêncios, os olhares e os gestos contidos para construir a confiança entre os personagens.   A direção de Gibson A estreia de Mel Gibson como diretor não foi marcada por grandiosidade épica – como veríamos depois em Coração Valente -, mas por um drama intimista que se concentra na relação entre um homem marcado por cicatrizes e um garoto em busca de direção. É curioso perceber como Gibson, em sua primeira experiência por trás das câmeras, escolhe um tom delicado e quase contemplativo em uma direção que foi recebida com elogios pela crítica. A fotografia de Donald McAlpine, com paisagens costeiras do estado de Maine nos Estados Unidos e luz suave, reforça a sensação de isolamento e ao mesmo tempo de possibilidade de renovação. A trilha sonora de James Horner, um de meus compositores favoritos, acompanha esse ritmo, sem melodrama excessivo, mas com emoção suficiente para sublinhar momentos de descoberta e afeto. Temas que ressoam Preconceito: McLeod é julgado não apenas por sua aparência, mas por rumores que o cercam, revelando como a sociedade pode ser cruel com o diferente. Mentoria: a relação entre professor e aluno mostra como o aprendizado vai além dos livros, envolvendo confiança e humanidade. Redenção: tanto Chuck quanto McLeod buscam superar traumas e encontrar novos caminhos, e é no encontro entre eles que surge a possibilidade de cura. Embora não tenha se tornado um grande sucesso de bilheteria ou um clássico popular, O Homem sem Face conquistou respeito por sua abordagem sensível e pela atuação de Gibson, que soube equilibrar a dureza do personagem com sua vulnerabilidade. Nick Stahl, ainda adolescente, entrega uma performance que dá credibilidade ao arco de crescimento de Chuck.    Assistir à esta obra é revisitar um drama que fala sobre ver além das cicatrizes – sejam físicas ou emocionais. É um convite a reconhecer que, muitas vezes, o verdadeiro aprendizado está na capacidade de enxergar o outro em sua complexidade. O Homem sem Face é uma estreia digna de nota, que revela a ambição artística de Mel Gibson e entrega uma narrativa tocante sobre aceitação e transformação. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.

Princesa Mononoke (1997)

Críticas Princesa Mononoke (1997) Por Lucas Costa Hayao Miyazaki já expressou desconforto com o excesso de representações do passado japonês protagonizadas por samurais, as quais abundam nos animes e, mesmo, na obra de mestres, como Akira Kurosawa.Em Princesa Mononoke, obra de 1997, o autor busca referências nos povos Emishi, grupo étnico que viveu no norte do Japão até cerca de 500 anos atrás, para a construção de seu herói,  Ashitaka.Este é um filme que carrega todas as principais características da obra de Miyazaki: grande presença do Shintoísmo, luta entre natureza e civilização, o elemento fantástico e fortes personagens femininas. É, sem dúvida, também, o filme mais violento já produzido pelos estúdios Ghibli.Após proteger sua vila e acabar sendo amaldiçoado por um deus raivoso, transformado em demônio por ser vítima de uma bala de canhão, o príncipe Ashitaka parte em uma jornada para tentar reverter o seu destino. Ele encontra Lady Eboshi e sua cidade-fortaleza, que são a causa do mal que lhe acometeu. Ela vive em constante conflito com os espíritos da floresta, sobretudo, com uma garota que foi criada por lobos e que tem, como principal objetivo, matá-la para libertar a floresta de sua destruição.Na construção desses conflitos, não há nenhum tipo de maniqueísmo. Lady Eboshi deixa clara sua ambição de destruir os animais e espíritos para tomar posse da floresta. Mas sua cidade é mantida, principalmente, pelo trabalho de mulheres que ela salva da prostituição. Além disso, ela mantém uma ala médica em que cuida dos leprosos enquanto, em troca, eles trabalham na confecção de armas. Por outro lado, todos os Kami, os deuses, nutrem profundo ódio pelos humanos pelo desequilíbrio causado, já que vêem, cada vez mais, seu mundo ruir.Este é um tema que aparece com muita clareza, também, em Vidas ao Vento. O progresso, essencial ao nosso desenvolvimento enquanto civilização, mas que, inevitavelmente, se faz à partir da destruição e da exploração desenfreada. A fortaleza de Lady Eboshi representa este polo com todas as suas contradições.O tema do filme, em geral, e até da obra do autor, é enunciada, em diálogo, por um dos homens leprosos: estamos todos amaldiçoados, mas desejamos continuar vivendo. Desta vez, em vez da Guerra, no mundo real do século XX, Miyazaki situa o embate em um passado mítico. Como efeito, o que se captura, é o desenvolvimento da modernidade como agente do Desencantamento do Mundo, como teorizado pelo sociólogo alemão Max Weber. É o que acontece quando os canhões de Lady Eboshi matam o grande Espírito da floresta e a espiritualidade passa, então, a existir como “algo em geral”.Ashitaka se vê interpelado por todos os lados, interrogado sobre por quem está lutando e quais são seus interesses. Em busca de ver a verdade com os olhos livres de ódio, o príncipe faz alianças pontuais com diversas forças opostas na busca, sobretudo, de evitar que a natureza seja destruída. A destruição é inevitável, mas a maldição é revogada. Enquanto o Espírito, encarnado na figura do animal, morre, e parte da fortaleza é destruída, o final traz um instigante e inesperado ar de esperança. Afinal, as pessoas estão vivas e, mesmo em meio às ruínas, é possível continuar vivendo.  O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.

Pânico (1996)

Críticas Pânico (1996) Por Lucas Costa Diz a anedota que, enquanto o roteirista Kevin Williamson assistia a um programa sobre o serial killer conhecido como o Estripador de Gainesville, entrou em paranoia com medo de que alguém, realmente, tentasse invadir a sua casa. Então, ligou para um amigo, na esperança de que este o tranquilizasse. Do outro lado da linha, porém, seu amigo começou a provocá-lo citando vários clássicos filmes Slasher. Não demorou para que a chamada se convertesse em um jogo de conhecimentos sobre o gênero, um quiz de perguntas e respostas, fazendo, enfim, com que Kevin se esquecesse de seu medo. Este episódio o inspirou a escrever o que viria a ser a cena inicial de Pânico, na época, ainda sob o nome de “Scary Movie”, em que o assassino liga para a garota e testa seus conhecimentos sobre filmes de terror. Era o começo de uma revolução. Pois, à partir disso, e levando em conta seu grande amor por Halloween: Noite do Terror e A Hora do Pesadelo, todo o passado do terror Slasher passaria a constituir o enredo do filme como uma de suas características principais. Williamson queria, a um só tempo, parodiar e homenagear os filmes que o influenciaram. A própria escalação de Drew Berrymore para a sequência de abertura opera nesse sentido. Estrela em ascensão na época, a atriz aparecia nos principais pôsters de Pânico. Sua morte, logo no começo, estabelece um diálogo com Psicose, que usa o artifício de escalar uma atriz famosa, na época, como falsa protagonista nos primeiros minutos do filme. Ao mesmo tempo, subverte as expectativas, já que Jamie Lee Curtis, além de Halloween, estrelou A Morte Convida para Dançar e O Trem da Morte e, portanto, ver uma estrela da época no início de um Slasher indicava ao público, por si só, que ela seria a Final Girl.Pânico, ao nos apresentar seu mundo, segue a cartilha: A virgem candidata a Final Girl, a patricinha, o nerd, o palhaço e o bonitão descolado. No aniversário de um evento traumático acontece um assassinato que abala a pequena cidade de Woodsboro e a chacina, levada a cabo por um assassino mascarado, se desenrola no período de dois dias, aterrorizando o grupo de jovens que, nem por isso, deixa de dar uma festa no auge do terceiro ato. Um a um, os tropos que constituem o Slasher vão sendo subvertidos e descontruídos, mas isso só é possível porque Pânico parte de todos eles e os menciona a todo instante. Não apenas Randy, o nerd que trabalha na locadora, domina as regras dos filmes de terror, mas o próprio Ghostface e todos os outros personagens. Lembrar constantemente dessas regras pode ser a chave para sobreviver e descobrir quem está por trás da matança. A fantasia de Ghostface o despersonaliza por inteiro. Não é possível, por exemplo, dizer se é um homem ou uma mulher. Ele corre, tropeça, cai. Diferentemente de outros assassinos que mal se movem e conseguem exercer grande poder psicológico, fazendo com que suas vítimas é que tropecem em todo e qualquer obstáculo ou se esconda no lugar errado. Seu gênero é menos explícito, mas sua humanidade fica escancarada. Reitera-se, com isso, uma das maiores forças do Slasher. O horror sai de dentro do próprio dia a dia, da vida comum que começa a diluir-se. Não é um demônio ou criatura de outro planeta mas, não apenas um humano, alguém de seu próprio ciclo de pessoas a fazer a normalidade da vida ir pelo ralo. Nenhum gênero traz, tão fortemente, a sensação de que o cotidiano está sempre por um fio e que algo de sombrio subjaz a toda normalidade. E mais: Ghostface são duas pessoas. Esse é um aspecto que ironiza, diretamente, a onipresença de Jason ou Michael Myers. A primeira parceria de Wes Craven e Kevin Williamson, para além da assimilação autoconsciente do terror, tem um forte apelo junto aos jovens. Engraçado, sem chegar a ser um filme de comédia, é curiosamente próximo das Teen Comedys, como American Pie, e mantém até hoje um certo frescor. O roteiro, mas também a escolha do elenco, alcança um feito parecido com o que John Hughes fez na década anterior. Seus filmes de amadurecimento como Curtindo a Vida Adoidado ou Clube dos Cinco, captura o coração da personalidade, ansiedades e esperanças dos adolescentes da época. Pânico tem a habilidade de fazer exatamente a mesma coisa em um filme de terror.O auge do momento metalinguístico, a transmissão de Halloween, durante a festa, enquanto Randy explica as regras do Slasher é o auge técnico do filme. O recurso do Mis En Abyme (o filme dentro do filme) sobrepõe Halloween e Pânico. A montagem paralela mostra Randy falando enquanto Sidney perde a virgindade com Billy. Há uma relação de espelhamento entre o que se passa na TV e o que acontece na festa. Inclusive, quando Randy tenta avisar Jamie Lee Curtis que o assassino está logo atrás dela e Ghostface se aproxima lentamente, há uma camada a mais para quem sabe que o ator de Randy chama-se Jamie na vida real. As duas trilhas sonoras passam a intercalar e a música de Halloween é que cria o suspense da cena. Ao final, revelados os Ghostface, com Sidney consolidando-se um novo tipo de Final Girl, a televisão, com Jamie Lee Curtis segurando uma faca, cai em cima de Stu, um dos Ghostface. Auge técnico porque, através desse recurso, Pânico assimila o Slasher através de Halloween e o supera, “liberta-se” de suas regras sem deixá-las de lado. Dos tropos narrativos aos movimentos de câmera, Pânico é resultado de um acúmulo técnico que se torna consciência de si e faz com que um gênero considerado “segundo escalão” se eleve acima de seus clichês, partindo de dentro dos próprios. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.

O Morro dos Ventos Uivantes (2026)

Críticas O Morro dos Ventos Uivantes (2026) Por Mariana Moreira Que o cinema tem como uma espécie de tradição adaptar histórias clássicas para as telonas, isso já sabemos. Mas será que todas elas funcionam? Algumas chegam praticamente ao mesmo nível de qualidade e recepção positivas que o material que as inspirou, enquanto outras deixam questões em aberto e têm como maior desafio atingir o legado e influência que tiveram geração após geração. A versão de O Morro dos Ventos Uivantes de Emerald Fennel já levantou controvérsias e foi alvo de polêmicas mesmo antes de sua estreia, a começar pela escalação do galã em ascensão Jacob Elordi. O ator australiano, embora charmoso e com talento versátil, deixou grande parte do público um tanto insatisfeito ao ser escalado como intérprete do personagem Heathcliff, que no livro de Emily Brontë é descrito como um “cigano de pele mais escura”, sendo justamente esse o motivo de Heathcliff ser tratado com dureza e crueldade, enquanto Elordi tem o tom de pele caucasiano. Esse é apenas mais um exemplo de que, embora a indústria cinematográfica, hollywoodiana principalmente, tenha evoluído em termos de representação social, o embranquecimento ainda assim continua como um assunto em pauta que se deve ficar de olho. O filme, do meu ponto de vista, merece mais destaque direcionado aos aspectos técnicos e artísticos da produção do que pela narrativa em si. A fotografia talvez seja o mais deslumbrante, com uma paleta de cores que remete a uma atmosfera melancólica e pesada. O figurino tem roupas vibrantes e chamativas, sendo exclusivamente feito para essa versão da obra e segundo a figurinista vencedora do Oscar Jacqueline Durran, não está atrelado a uma determinada época específica. As atuações dos protagonistas vividos por Margot Robbie e Jacob Elordi têm sua intensidade, porém ambos os personagens Catherine “Cathy” Earnshaw e Heathcliff são pouco carismáticos. No caso de Cathy, a protagonista vai de uma jovem de espírito livre a uma mulher submissa vivendo uma vida que lhe é imposta quando renuncia à sua felicidade. Já Heathcliff talvez para mim seja o personagem menos gostável, não apenas porque ao não ser escolhido por Cathy se torna um homem de caráter dominador e vingativo, além de vazio e amargurado, mas também por ser um personagem cujas camadas não são devidamente exploradas, embora no fundo de seus olhos secos possamos ver como a falta de amor tanto o marcou quanto o transformou em alguém por quem até o público seja capaz de nutrir certo desprezo. Emerald Fennell traz uma adaptação do livro de Emily Brontë ao seu estilo, algo que para os fãs da obra original pode ser motivo de desagrado, remetendo a certos elementos mostrados em seus longas-metragens anteriores Saltburn e Bela Vingança, este último que deu a Fennell o Oscar de Melhor Roteiro Original. Em “Wuthering Heights” sua direção e roteiro, embora precisas, são primordialmente marcadas por momentos de sensualidade e erotismo, assim como por um excesso de melodrama e foco na dependência emocional entre o casal protagonista. Devo admitir que, em um contexto geral, O Morro dos Ventos Uivantes é uma história atemporal e reflexiva, mas também questionável e capaz de dividir opiniões. Na época de seu lançamento, o livro de Emily Brontë foi alvo de críticas não apenas porque autoras mulheres eram malvistas naquele período, mas também por se distanciar significantemente dos romances tradicionais ao abordar um relacionamento tóxico e conturbado entre os protagonistas. Então, uma dica: se você se considera um fã do livro, a adaptação de Emerald Fennell pode ser algo um tanto diferente do que se estava imaginando. Sendo assim, espere um “romance” que, por mais que retratado diversas vezes ao longo dos anos, envolve tanto um toque mais ousado quanto um estilo mais excêntrico. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.