Projeto A Sala

A Bela e a Fera (1991)

Críticas A Bela e a Fera (1991) Por Mariana Moreira Me lembro exatamente de muitas animações clássicas que acompanharam meu crescimento e mantém firme o mesmo impacto agora como uma jovem adulta. Não é pelo simples fato de especificamente as animações produzidas pela Disney terem moldado a maior parte do meu gosto pelo gênero, mas também por algumas das minhas prediletas fazerem parte do período denominado “Disney Renaissance” ou “Renascimento da Disney”, que dos anos 1989 a 1999 o estúdio voltou a produzir filmes de animação de sucesso comercial eou de crítica. São muitos os deste período que estão entre os que guardo com mais carinho e vou falar um pouco mais sobre um dos contos de amor mais profundos que já vi ser retratado para o cinema, “A Bela e a Fera”.  Baseado no homônimo conto de fadas francês, o filme teve direção de Gary Trousdale e Kirk Wise e roteiro de Linda Woolverton. Walt Disney havia tentado adaptar o conto para uma animação entre as décadas de 1930 e 1950, mas sem sucesso. Inicialmente não concebido como um musical, o executivo da Disney Jeffrey Katzenberg não considerou satisfatórios os esforços do diretor contratado pelo estúdio, Richard Purdum, de adaptar o conto em um drama de época.  Devido ao grande sucesso de “A Pequena Sereia”, Katzenberg ordenou que todo o filme fosse reformulado em um musical com canções originais novamente com a colaboração entre o letrista Howard Ashman e o compositor Alan Menken. “A Bela e a Fera” é dedicado a Howard Ashman, que faleceu em decorrência da AIDS oito meses antes de seu lançamento. Algo que considero um gesto nobre e atencioso, e que me comove ao final dos créditos da animação é a homenagem deixada para o letrista; “To our friend Howard, who gave a mermaid her voice and a beast his soul, we will be forever grateful.” (Para nosso amigo Howard, que deu a uma sereia sua voz e a uma fera sua alma, seremos eternamente gratos). Não apenas considero comoventes as palavras feitas para Ashman, mas o que me toca é o fato de concordar profundamente com seu contexto. De fato, ao dar o devido esplendor a voz de Ariel, nada mais justo do que o letrista transformar a alma melancólica de uma Fera em um sentimento de amor florescente em uma das trilhas sonoras mais memoráveis das animações feitas pela Disney, que foi responsável por levar duas estatuetas do Oscar de Melhor Canção Original (Beauty and the Beast) e Melhor Trilha Sonora Original.  Além disto, demais fatores marcantes do filme incluem ter sido a primeira animação a vencer o Globo de Ouro de Melhor Filme – Musical ou Comédia e receber uma indicação ao Oscar de Melhor Filme. Todos estes elogios e reconhecimentos já deveriam ser motivo suficiente para não considerar esta joia da animação como uma das melhores de todos os tempos, levando principalmente em conta sua história e lições atemporais. Seja pela personagem Bela, uma de minhas personagens favoritas, que desafia os padrões da época ao ser uma mulher com um gosto voraz pela leitura e com sonhos de explorar algo além de sua simples aldeia, a própria Fera que em um gesto de amor recíproco tem sua maneira de olhar para o mundo com um viés transformado e a mensagem principal por trás da narrativa que não devemos nos deixar julgar pelas aparências, pois a beleza está em nosso interior. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.

Paraíso Prometido (2025) – Direção: Erige Sehiri

Críticas Paraíso Prometido (2025) – Direção: Erige Sehiri Por Marcelo Paiva Quando o cinema denuncia as fronteiras invisíveis – Um desabafo cansado sobre a precariedade dos nossos acessos brasileiros. Ainda busco compreender a razão pela qual nossos streamings insistem em desprezar a força das cinematografias africanas. Não é por falta de qualidade, tampouco por ausência de público interessado. O problema parece ser outro: um desinteresse estrutural, que nos condena a permanecer alheios a obras capazes de dialogar diretamente com as urgências do nosso tempo. Paraíso Prometido, longa dirigido pela tunisina Erige Sehiri, é prova incontornável dessa negligência. O filme circula por festivais internacionais, conquista público e crítica, e mesmo assim permanece praticamente invisível para o espectador brasileiro comum.Não é a primeira vez que nos deparamos com essa barreira. Em nosso portal, já apresentamos ao público títulos fundamentais vindos do continente africano, como Você Morrerá aos 20 Anos (Sudão), Cabo de Guerra (Tanzânia) e On Becoming a Guinea Fowl (Zâmbia). Em todos esses casos, a experiência de acesso no Brasil foi a mesma: precária, restrita a exibições pontuais em festivais ou a plataformas estrangeiras de difícil alcance. Há sempre um contraste doloroso entre a potência dessas obras e a fragilidade dos caminhos de circulação. O resultado é que, mesmo quando conseguimos trazer à tona vozes que merecem reconhecimento, sua presença se esvai com rapidez, soterrada pela ausência de distribuição formal.E o que se perde com essa ausência? Uma narrativa rara, que transforma o drama da imigração em matéria viva de cinema. Sehiri nos conduz à Tunísia contemporânea, onde três mulheres migrantes da África Subsaariana tentam costurar existências frágeis em meio à intolerância crescente. Marie, figura de resistência e fé, sustenta sua casa como um último abrigo contra a violência cotidiana. Jolie, jovem estudante de engenharia, encara a precariedade como obstáculo diante de seus sonhos de independência. E Naney, arrancada da filha, vê sua dignidade corroída pelas negativas burocráticas que a transformam, a cada novo documento recusado, em alguém sem lugar no mundo.O impacto do filme não nasce apenas do retrato da dor. Sehiri sabe que limitar-se à denúncia seria pouco. O que Paraíso Prometido oferece é mais profundo: a escuta atenta da intimidade dessas mulheres, o gesto de devolver humanidade a quem a xenofobia insiste em apagar. A câmera percorre corpos e espaços, enfatizando as marcas de uma perseguição que não é grandiloquente, mas banal — está nos olhares desconfiados, nos interrogatórios sem motivo, na violência burocrática que condena à clandestinidade. É nesse detalhe cotidiano, mais do que nos atos espetaculares, que o filme revela a verdadeira dimensão da crueldade.Trata-se, afinal, de uma obra que expõe as rachaduras não só da Tunísia, mas de todo um sistema global que transforma migrantes em números descartáveis. E o faz sem cair na armadilha da vitimização absoluta. Há afeto, há momentos de esperança, há vínculos frágeis que se reinventam. O que Sehiri constrói é uma crítica feroz à promessa de pertencimento que nunca se cumpre — o “paraíso” sempre adiado, sempre reservado a outros, nunca a elas.Em um mercado audiovisual que insiste em nos oferecer fórmulas repetidas, perder a chance de exibir Paraíso Prometido é abrir mão de uma das críticas mais poderosas do cinema recente. Este filme não pede complacência; exige que olhemos de frente para a crueldade do presente. E nos lembra que, em um mundo dividido entre terras de sonho e terras de dor, a vitória de uns é sempre erguida sobre o apagamento de muitos. Se existe uma terra prometida, é preciso reconhecer: ela não é para todos. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.

Depois da Caçada (2025) – Luca Guadagnino

Críticas Depois da Caçada (2025) – Luca Guadagnino Por Marcelo Paiva Guadagnino ousa,  derrapa e tem saldo final ambíguo e até perigoso. Ainda existe “verdade” no mundo de hoje? Essa é uma pergunta provocadora, mas profundamente relevante. Muitas vezes, porém, ela nos leva a um beco perigoso: o esvaziamento concreto de debates urgentes. De um lado, vozes raivosas e estridentes contra uma suposta “cultura woke”; do outro, movimentos identitários tão fragmentados que perderam parte da sua força coletiva. Essa divisão é, logicamente, simplificada ao extremo, mas ajuda a denunciar o contexto em que vivemos: hoje, mais do que a verdade em si, o que se disputa é como ela é apresentada e percebida.A verdade existe, claro. Nunca deixou de existir. O que mudou é o campo de batalha: cada vez mais a disputa acontece muito mais nas interpretações, nas alusões, percepções e nos julgamentos que cada pessoa faz. E é exatamente isso que Luca Guadagnino explora em Depois da Caçada (2025). O filme nos coloca diante de versões contraditórias e escolhas guiadas ora por convicções, conveniências ora por manipulações, sem nunca revelar o que realmente aconteceu. A história acompanha Maggie (Ayo Edebberi), jovem negra  LGBT, que acusa seu professor Hank (Andrew Garfield), homem branco e hétero, de ultrapassar limites sexuais. No meio desse conflito está Alma (Julie Roberts), tutora acadêmica de Maggie e envolvida afetivamente com Hank. Alma se apresenta involuntariamente como mediadora, quase uma árbitra das partes. À primeira vista, parece imparcial. Mas sua neutralidade é sempre hesitante. Ela oscila entre obrigações e desejos acadêmicos, uma sororidade mais estratégica que natural e seus próprios laços afetivos. Alma se move conforme pressões e conveniências não manifestas, mostrando que a imparcialidade pode ser só uma aparência. O público não chega a conhecer os fatos de verdade. Guadagnino mostra apenas os diferentes pontos de vista, as suspeitas e as escolhas morais dos personagens, deixando a verdade concreta sempre fora do alcance. Maggie pode ter inventado tudo. Hank pode ser culpado. Alma pode se posicionar de acordo com o que mais lhe convém. O que conta verdadeiramente aqui são as disputas de interpretação e as consequências sociais que elas provocam. Essa abordagem gera momentos muito fortes. Mostra como, hoje, a imagem pública e a performance podem pesar mais que os fatos. Os personagens, em geral, agem menos pelo que conhecem e mais pelo que precisam parecer. Maggie não precisa necessariamente de provas para obter justiça, mas encara dilemas internos sobre culpa e cumplicidade de gênero. Hank precisa parecer inocente, mesmo que guarde  impulsos perigosos. Alma, com sua neutralidade instável, revela que a imparcialidade nem sempre existe — muitas vezes é apenas uma fachada. O problema é que Guadagnino nem sempre mantém esse equilíbrio. Em alguns momentos, a trama se apoia mais em enquadramentos sofisticados do que na força dramática da história. A sombra de Woody Allen aparece de forma nítida: muito estilo, pouca substância. Isso fragiliza o filme e abre espaço para leituras que o acusam de conservadorismo ou misoginia. Ainda assim, há momentos em que a falta de clareza se torna potência.  Guadagnino usa planos que captam gestos e olhares, sugerindo histórias paralelas e nuances invisíveis no conflito principal. Esses detalhes mostram que a questão central não é descobrir quem está certo, mas perceber como as expectativas sociais moldam o comportamento de cada personagem. No fim, Depois da Caçada é um ato de ousadia. Guadagnino eleva sua obsessão pela filmografia da identidade a um novo patamar, mas talvez tenha feito isso apressado demais, preso à própria lógica de estilo, em plena era Trump — marcada por polarização e espetáculo midiático. Nesse contexto, falar sobre performance sem um argumento sólido, que contrapusesse de verdade a encenação exagerada dos personagens, é quase um risco iminente: tudo está sob julgamento, e é preciso ser contundente para que o filme se sustente. As consequências reais — o abuso, a carreira destruída, vidas afetadas — ecoam aqui como sombras que deveriam ter mais peso, lembrando que as ações têm sim efeitos concretos para além das aparências. Não se trata de impor uma resolução simples ou definitiva à trama, mas de equilibrar melhor as múltiplas variáveis que Guadagnino propõe ao longo do filme. Curiosamente, é o próprio tribunal que ele constrói na tela — feito de julgamentos morais, expectativas sociais e aparências — que pode se voltar contra o diretor, tornando-o vulnerável às mesmas ambiguidades e contradições que apresenta. O resultado é uma sensação inquietante: por mais potente que seja a proposta, o veredicto permanece incerto e ambíguo, refletindo a instabilidade do tempo em que vivemos. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.

Uma Mulher Delicada (1969) – Bresson, Jung e Deleuze

Críticas Uma Mulher Delicada (1969) – Bresson, Jung e Deleuze Por Edgar Dino Em Uma Mulher Delicada (1969), Robert Bresson filma a queda silenciosa de Elle (Dominique Sanda), figura que já nasce como enigma. Seu suicídio, revelado logo no início, não é a resolução de uma narrativa, mas o ponto de partida de uma espiral de memórias, fragmentos e impressões. O tempo se organiza como fluxo de imagens e lembranças — mais próximo daquilo que Deleuze chamaria de imagem-tempo: não mais uma sucessão linear de ações, mas um cinema da duração, da memória e da falha na comunicação. O marido, Luc (Guy Frangin), revisita o passado na tentativa de compreender o gesto final da esposa. Mas esse gesto permanece suspenso, inatingível: como uma sombra que não pode ser capturada. Na chave junguiana, Elle encarna o arquétipo da anima que escapa ao controle. Delicada, mas também hostil em seus silêncios, é uma mulher que se recusa a ser reduzida a objeto. Através dela, emerge o confronto entre inconsciente e persona: Luc, o penhorista, vive na rigidez material, na ordem das posses, no valor do que pode ser avaliado. Ela, por sua vez, habita uma dimensão mais simbólica e fluida, de olhares, ausências e pequenos gestos. Essa tensão — o peso do patriarcado e a leveza do ser que não aceita ser reduzido a coisa — é o que abre a brecha para o trágico. O suicídio, então, não é apenas desespero, mas uma recusa arquetípica: uma libertação pela morte, atravessada pela ambiguidade de vítima e agente. Bresson, ao contrário de Bergman, que trabalha semelhante tema em Cenas de Um Casamento (1973, não busca o calor do diálogo ou do conflito verbal. Sua mise-en-scène é de silêncios, de gestos contidos, de corpos que deslizam como modelos e não como personagens psicológicos. Há uma espiritualidade sem transcendência, uma dor que se esconde no não-dito. Essa escolha estilística potencializa a leitura junguiana: o inconsciente não se mostra pelo discurso, mas por símbolos sutis: os animais enjaulados no zoológico, a peça de Shakespeare que antecipa a tragédia, a cruz de Cristo refletida no olhar da esposa. São imagens que funcionam como sonhos diurnos, condensações simbólicas do destino dos personagens. A fotografia e a cinematografia do filme traduzem esse estado de suspensão. Sendo seu primeiro trabalho em cores, Bresson recusa o esplendor cromático: as cores são suaves, quase apagadas, como se já anunciassem a morte que pesa sobre a narrativa. A câmera é austera, fixa, rigorosa em sua geometria. Não há excessos de movimento; há contenção, como se o olhar cinematográfico também estivesse aprisionado junto com Elle, repetindo a experiência do cativeiro. A luz, discreta e quase natural, recorta os rostos e os objetos com uma frieza distante, lembrando que para Bresson cada detalhe é um signo, cada gesto um destino. Deleuze diria que aqui o cinema não organiza o real pelo encadeamento lógico de ações, mas o desorganiza pelo vazio pela impossibilidade de alcançar o sentido último do suicídio. A morte de Elle não é explicada, mas exposta como fenda no real, imagem pura do enigma. Nos parece que essa fenda é o inconsciente irrompendo, desvelando o que não se suporta viver no cotidiano. Assim, Uma Mulher Delicada não é apenas a narrativa de um casamento infeliz. É um poema fúnebre sobre a impossibilidade de tradução entre mundos internos, sobre a solidão que cresce mesmo na intimidade. É um filme onde os corpos não se encontram, onde a palavra falha, onde a cor desbota, onde a câmera registra o inexprimível. Bresson faz da fragilidade de Elle um espelho da fragilidade humana diante do amor, da posse, da morte. Um cinema simples e enganoso, como você bem clamou: nele, o silêncio é mais eloquente que qualquer grito. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.

50 Suspenses Clássicos – A Jornada de uma curadoria obsessiva Por Marcelo

Revista Digital 50 Suspenses Clássicos – A Jornada de uma curadoria obsessiva Por Marcelo Por Marcelo Paiva Chegamos ao fim de uma jornada intensa, meticulosa, muitas vezes inquietante — e absolutamente recompensadora: a curadoria dos 50 Suspenses Clássicos, conduzida por Marcelo, e postados no Instagram do @projetoasala, chega ao fim de sua segunda temporada com a contundente reflexão moral de A Caça (2012), encerrando um ciclo onde o medo, a dúvida e a manipulação foram os verdadeiros protagonistas. O projeto nasceu da vontade de revisitar — e muitas vezes redescobrir — filmes que desafiam a estrutura tradicional do suspense. Longe de se limitar a uma década ou a um estilo, a curadoria transita do expressionismo alemão de M (1931) ao terror psicológico refinado de The Others (2001); do existencialismo hitchcockiano francês de Ascenseur pour l’échafaud (1958) ao realismo sombrio de Memories of Murder (2003). 🕰️ Um percurso em camadas, entre o clássico e o cultSe a primeira parte da série caminhou entre os alicerces do gênero — com títulos como Cape Fear (1962), Witness for the Prosecution (1957) e o perturbador Les Yeux Sans Visage (1960) —, a segunda temporada experimentou mais rupturas narrativas e dissonâncias morais. Visitamos vilas ritualísticas (The Wicker Man, 1973), testemunhamos o colapso ético de detetives (Prisoners, 2013) e juízes (Primal Fear, 1996), mergulhamos na fragilidade do lar com The Hand that Rocks the Cradle (1992) e The Others (2001), e fomos puxados para o fundo do abismo com obras brutais como I Saw the Devil (2010) e No Country for Old Men (2007). 🔍 Linhas que conectam os filmesAo longo dos 50 títulos, alguns temas e estruturas se repetem com ressonância fascinante: A presença do mal disfarçado: em The Bad Seed (1956), Night Must Fall (1937) e Homicidal (1961), o perigo assume forma angelical ou inofensiva, tornando-se ainda mais perverso. O espaço doméstico como prisão: Wait Until Dark, Lady in a Cage, Strait-Jacket e Visiting Hours expõem o lar como cenário de total vulnerabilidade. O falso culpado / a inocência em jogo: arco que culmina com A Caça (2012), mas que reverbera desde Sorry, Wrong Number (1948) até Bunny Lake Is Missing (1965). Culpabilidade coletiva e crítica social: como em Das Weisse Band (2009), Il Conformista (1970) e o trágico They Shoot Horses, Don’t They? (1969). 🏁 Um final em silêncio, mas cheio de ecosEncerrar essa temporada com A Caça (Thomas Vinterberg, 2012) foi uma escolha emblemática. O filme destila o terror do olhar social, o colapso da verdade e a fragilidade da reputação em tempos de paranoia coletiva — uma tensão construída mais com gestos e silêncios do que com sangue ou gritos. É o tipo de suspense que permanece reverberando por dias, talvez semanas. 🧠 Um triunfo da curadoriaMarcelo conduz essa lista com precisão clínica, mas também com calor cinéfilo. Não se trata de listar “os mais famosos”, mas de montar um mosaico de experiências e atmosferas, onde clássicos consagrados dividem espaço com pérolas semi-esquecidas (Taste of Fear, And Soon the Darkness, Bewitched). Há escolhas corajosas (All About Eve como suspense psicológico de bastidores? Sim.), e também apostas ousadas em gêneros híbridos, como Fargo e Sunset Boulevard — lembrando que o suspense, no fim das contas, não é um formato, mas uma sensação. 🌀 O que vem depois?Com o encerramento da segunda temporada, a pergunta que paira é: existe um “depois” para esse projeto? Teremos talvez os Suspenses Urbanos, Suspenses Obscuros, ou até uma temporada dedicada apenas a thrillers latino-americanos ou asiáticos? Por enquanto, deixamos esse ponto de interrogação no ar — como todo bom suspense deve fazer. Leia Também Aurora (2025), de João Vieira Torres Críticas Aurora (2025), de João Vieira Torres Um filme-ensaio que parte em direção a uma maldição tão particular quanto universal, extrapolando gêneros, normas e fronteiras. Filmes podem ser pessoais e íntimos, mas terão de desafiar, em algum nível, os limites do seu particularismo. Escrever para si mesmo hoje pode parecer… Leia mais 21/06/2025 Fudêncio e seus amigos (2005-2011) Críticas Fudêncio e seus amigos (2005-2011) Tipo o south park, só que brasileiro… O João Gordo, que é uma referência no movimento punk brasileiro afirmou em uma entrevista nos anos 2000 que tinha um boneco chamado “Fudêncio”, o tal boneco em questão tinha uma aparência exótica e era completamente punk… Leia mais 20/06/2025 Viajo porque preciso, volto porque te amo (2009) Críticas Viajo porque preciso, volto porque te amo (2009) Um retrato sobre a solidão. Esse filme é um daqueles que vai prender sua atenção, independente de qualquer coisa… primeiro por ser gravado em primeira pessoa, acompanhamos em tempo real a narração e vivência de um geólogo que é enviado para… Leia mais 04/06/2025 O céu de Suely (2006) Críticas O céu de Suely (2006) Parece um conto de fadas brasileiro Esse filme parece simples, mas aborda muita complexidade e questionamentos principalmente nas entrelinhas, as ações dos personagens falam mais do que os próprios diálogos – o que nos causa uma empatia, principalmente pela atuação impecável da atriz Hermila… Leia mais 27/05/2025 (500) dias com ela (2009) Críticas (500) dias com ela (2009) Um filme problemático e superestimado Vou evitar adicionar spoilers, apesar de não ser um filme novo, sei que existem algumas pessoas que ainda não assistiram. Era pra ser um filme de romance? Não, o próprio filme nos mostra isso no início mas vai se… Leia mais 21/05/2025 Carregar mais

Aurora (2025), de João Vieira Torres

Críticas Aurora (2025), de João Vieira Torres Um filme-ensaio que parte em direção a uma maldição tão particular quanto universal, extrapolando gêneros, normas e fronteiras. Filmes podem ser pessoais e íntimos, mas terão de desafiar, em algum nível, os limites do seu particularismo. Escrever para si mesmo hoje pode parecer quase um sinônimo de ofensa, como se uma ideia tivesse que servir ao ideal do outro, para completar sua jornada de síntese. Quem ousa escrever para poucos? Essa é uma falácia que, quando dita inúmeras vezes, torna-se uma perigosa armadilha. Todo ato de escrever é pessoal, poderia se aventar como uma linha de defesa. Mas há algumas camadas que – felizmente – dificultam a vida daqueles que se baseiam em extremos. Aurora, de João Vieira Torres, longa vencedor do prêmio de melhor fotografia no Festival Internacional de Curitiba é um excelente estudo de caso nessa matéria. Na contramão de filmes formulaicos e genéricos que assolam nossas salas de cinema, o filme se desenha a partir de uma obsessão bem intimista do diretor. Aparentemente, uma maldição recaiu sobre sua família, de origem sertaneja baiana, que persegue a figura do feminino de seus parentes. A ênfase na “figura do feminino” não é à toa: com uma abordagem também queer, João se inclui entre os amaldiçoados, mesmo não se auto reconhecendo ele mesmo, como uma mulher. O que pode soar ao leitor um convite a um filme de terror, merece uma ressalva. Aurora é também um filme de terror – mas sua inscrição extrapola o sentido duro dos gêneros. A maldição aqui mencionada é tão social quanto espiritual, tão política quanto etérea. Êxodos forçados, casamentos arranjados, comportamentos homofóbicos constroem a trama do feminino em Aurora, longe do lugar de sagrado, tão fortemente veiculado no imaginário religioso local. No limite, o feminino aqui é um fardo, obrigado a carregar o peso do mundo criado pelas artificialidades da tradição. Manter, cultivar, criar e proteger – funções atribuídas as trajetórias das mulheres na sua família, que também reverberam na jornada pessoal de João, que no corpo de uma criança LGBTQIA+, desvia da sua função moral e social esperada. Aliás, qualquer desvio da imponente linha reta, tão imaculadamente planejada pelo padrão heteronormativo nos rincões da Bahia – e voltaremos a falar sobre isso – desagua, de forma inevitável, à desgraça. Assassinatos e desaparecimentos dão conta dessa ramificação na árvore genealógica de João, evidenciando mais uma vez a maldição que disparou a necessidade em fazer Aurora. Àquelas que se sujeitaram – de forma imposta e forçada, é claro – à lógica da função social de suas vidas fugiram da desgraça, mas encontraram também uma outra natureza violenta: a da dor e a da tristeza ocultadas e soterradas pela narrativa de “mulheres que deram certo”. Uma maldição, portanto, que encerra potencialidades dentro de um espectro acinzentado de alternativas. De um lado, a morte. Do outro, a tristeza. Mas João não se furta a retratar também as alegrias em meio às dores. Até porque, como dito, Aurora não é só um filme de terror. É também um filme que celebra a resiliência, pois como podemos ver na sua metade final, outros laços de cumplicidade são também criados ao longo desse processo de apagamento ao feminino. Mulheres que também apoiam suas outras mulheres, mães que aceitam – mesmo que de forma reticente – a sexualidade considerada desviante do seu filho. Um tipo de afeto que grita resistência e que assim como a própria maldição, também guarda força, além de coragem e empatia. Eis portanto a chave desse filme: mesmo se propondo a revisar o passado – em uma perseguição tão obcecada pela dor – descobre – e se autodescobre – cercado por um véu de conforto e afago. Afinal, nem tudo é sombra. Essas subjetividades – tão maltratadas pelo tempo – também carregam brilho próprio, algo que mal nenhum foi capaz de sufocar. E ao fim, uma certeza tão firme encerra o filme: de que essa história não é tão particularista quanto parece ao olho descuidado. Ela dialoga com inúmeras outras trajetórias, mesmo àquelas que não surgiram do agreste baiano. O lugar dessa história deixa de lado sua territorialidade para acessar outros planos – dentre eles, o espiritual e também o social. Todos nós carregamos – ou conhecemos alguém que carregou – as chagas dessa mesma maldição. E é por isso que Aurora brilha em sua proposta. Afinal, escrever para poucos aqui é uma armadilha que será vencida ao final do filme, para aqueles que realmente estejam dispostos a ouvir algo que pode parecer distante, mas que na verdade, está mais próximo do que parece estar. Aurora, que é o nome dado a sua vó parteira a quem ele sonha constantemente, e que serviu como gatilho para o retorno às suas raízes sertanejas, na verdade é só a linha que João puxa primeiro, para então, criar uma representação da sua genealogia que se constrói pelo afeto, pela transgressão e no fim, pela resolução. Não aquela que se encerra em si mesmo, mas aquela que triunfa sabendo que boas histórias não terminam, mas ecoam por muito tempo. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.

Filmes que algumas pessoas amam… porque entenderam errado

Revista Digital Filmes que algumas pessoas amam… porque entenderam errado Por Danielle Delaneli Clube da Luta: Este filme não é um hino à masculinidade ou à rebeldia; é uma análise profunda do consumismo vazio e da alienação do trabalhador sob o capitalismo. Tyler Durden é a personificação de um delírio, um reflexo distorcido de um homem esmagado por um sistema que o desumaniza. Matrix: Muito além de uma simples ficção científica, Matrix é uma crítica contundente à ilusão de liberdade que o capitalismo nos impõe. A escolha entre a pílula vermelha e a azul representa a difícil decisão entre encarar uma realidade brutal ou permanecer confortavelmente preso em uma mentira conveniente. Coringa (2019): Este filme não apenas expõe a desigualdade social, mas também denuncia o abandono do Estado e as consequências devastadoras da violência estrutural na saúde mental. O Coringa é a síntese de um sistema que falha em cuidar dos mais vulneráveis. V de Vingança: Aqui, não encontramos um herói, mas sim a encarnação da resposta desesperada e radical contra um governo opressor. O filme critica abertamente o totalitarismo, revelando como o controle estatal e as ideologias fascistas esmagam a liberdade individual. Robocop (1987): Uma crítica feroz ao capitalismo sem freios, este filme expõe a privatização da segurança pública e a desumanização do trabalhador. Ele revela como corporações e o Estado se entrelaçam para transformar seres humanos em meras peças descartáveis dentro de um sistema cruel. Tropas Estelares (1997): Esta obra é uma sátira mordaz ao militarismo e à propaganda de guerra. O filme expõe como o Estado manipula a população, utilizando patriotismo e medo como armas para justificar a brutalidade e a opressão. Rambo: Programado para Matar: Um grito de desespero que critica a forma como os veteranos são tratados após serem usados como ferramentas do imperialismo. Rambo simboliza as cicatrizes deixadas pela guerra do Vietnã e denuncia a brutalidade do sistema militar que abandona seus próprios. O Lobo de Wall Street (2013): Uma sátira afiada ao capitalismo selvagem, revelando como a ganância desenfreada e a corrupção no sistema financeiro permitem que os poderosos se aproveitem dos fracos. O filme escancara a moralidade descartada em nome do lucro. Parasita (2019): Uma crítica incisiva à desigualdade extrema, mostrando como o sistema capitalista perpetua a opressão das classes mais baixas em benefício de uma elite privilegiada. Eles Vivem (1988): Uma crítica direta ao controle midiático e à alienação das massas. O filme expõe como as elites manipulam ideologicamente as pessoas para manter sua visão distorcida da realidade. O Poço (2019): Uma alegoria brutal sobre desigualdade social e consumismo, mostrando como o sistema capitalista favorece uma elite enquanto os outros lutam desesperadamente por sobrevivência. Mad Max: Estrada da Fúria: Este filme questiona o colapso social resultante do consumismo desenfreado e da busca insaciável por poder. É uma distopia onde os recursos são monopolizados por uma elite brutal, desafiando também os estereótipos tradicionais de masculinidade e papel feminino na sociedade. Avatar (2009): Uma crítica incisiva ao imperialismo contemporâneo, à devastação ambiental e à exploração de povos indígenas em nome do lucro. O filme destaca como potências imperialistas invadem terras alheias para extrair recursos, destruindo ecossistemas inteiros no processo. Tropa de Elite: Um retrato cru da violência policial e do colapso do sistema judiciário. O filme revela como a brutalidade policial é moldada por uma estrutura corrupta que não protege, mas sim reforça a opressão das classes marginalizadas. Tropa de Elite 2:   Este filme vai muito além da violência policial; ele expõe uma teia de corrupção que entrelaça tráfico, política e a impunidade do sistema judicial. Revela como o Estado não apenas ignora, mas se alinha ao crime organizado, perpetuando um ciclo vicioso de opressão e exploração dos mais vulneráveis. É uma representação crua de como o poder se alimenta da miséria alheia.  Cidade de Deus:  Uma crítica incisiva à desigualdade social, o filme retrata a falta de oportunidades e a violência estrutural que permeiam as favelas. O tráfico de drogas e a criminalidade são meros sintomas de um sistema que marginaliza e abandona uma grande parte da população. A narrativa nos força a encarar a realidade brutal que muitos preferem ignorar.  Taxi Driver:  Uma análise perturbadora da alienação e solidão em uma sociedade que descarta indivíduos. Travis Bickle é o produto da miséria urbana, mergulhado em paranoia e ressentimento, reflexo direto das falências do capitalismo que empurra pessoas ao limite da violência. O filme é um grito desesperado contra um mundo que falha em cuidar dos seus. Psicopata Americano: Uma sátira mordaz ao consumismo desenfreado e ao narcisismo que caracterizam o capitalismo tardio. Patrick Bateman não é o homem idealizado do “alpha male” – ele é um sociopata vazio, moldado por uma sociedade que valoriza dinheiro e superficialidade acima de tudo. O filme expõe a futilidade de uma vida baseada em aparências.  O Auto da Compadecida: Uma crítica ácida à desigualdade social, abordando a exploração dos pobres e a hipocrisia das elites e instituições religiosas. João Grilo e Chicó são sobreviventes em um sistema injusto, onde os poderosos manipulam a fé e a ignorância para manter seus privilégios intactos. O filme revela as contradições de uma sociedade que se diz moralmente superior. Oppenheimer:   Não se trata apenas de fatos; o militarismo é apresentado como uma força destrutiva, com a ciência sendo sequestrada pelo Estado para fins bélicos. O filme revela como os EUA utilizaram a bomba atômica não por necessidade, mas para demonstrar poderio militar, descartando Oppenheimer quando ele deixou de ser útil. É uma reflexão sombria sobre as consequências da ambição desmedida.  O Show de Truman:  Uma crítica contundente ao controle midiático e à manipulação da realidade, mostrando como o sistema transforma indivíduos em meros produtos de entretenimento. Vivemos sob um regime que nos vende uma falsa liberdade enquanto lucra com nossa alienação, tornando-nos marionetes em um espetáculo sem fim.  O Preço do Amanhã: Um retrato claro da exploração capitalista, onde tempo literalmente se torna dinheiro. Os ricos acumulam séculos de vida enquanto os pobres lutam para sobreviver dia

Fudêncio e seus amigos (2005-2011)

Críticas Fudêncio e seus amigos (2005-2011) Tipo o south park, só que brasileiro… O João Gordo, que é uma referência no movimento punk brasileiro afirmou em uma entrevista nos anos 2000 que tinha um boneco chamado “Fudêncio”, o tal boneco em questão tinha uma aparência exótica e era completamente punk em atitudes, o próprio João afirmou que era “boneco demoníaco”.  Mesmo não tendo uma ligação direta com o seriado, o nome do boneco de certa forma serviu de inspiração para o seriado. A emissora MTV juntamente com o criador Thiago Martins, Marco Pavão e Flávia Boggio desenvolveram o seriado Fudêncio e seus amigos, em 2005 se estendendo até 2011. Como se trata de um desenho com caráter adulto, passava após a meia noite na MTV (muitos pré-adolescentes assistiam escondidos dos pais). Em suma, Fudêncio é um desenho politicamente incorreto, com vários palavrões, cheio de situações absurdas onde o protagonista em questão (Fudêncio) um garoto punk com más intenções e que sempre se dá bem em qualquer situação que seja.  Em contrapartida, o personagem Conrado (que é um caqui humano) sempre é prejudicado em todos os episódios, possuindo até um bordão específico “eu só me f*do nessa porr*”. Claro que nos anos 2000 muita coisa absurda era passada na televisão abertamente – como pessoas seminuas em uma banheira do Gugu aos domingos de tarde. Eram outros tempos, as pessoas não tinham o pensamento crítico que têm atualmente e muita coisa errada era completamente banalizada.  Em alguns episódios de Fudêncio por exemplo, um aluno “se apaixona” por uma professora e todos acham normal. Já outro episódio ocorre a distribuição de drogas para as crianças “melhorarem o desempenho” e por aí vai. A impressão que deixa é que Fudêncio é praticamente o south park brasileiro, mas que envelheceu mal. É possível assistir todos os episódios online, no YouTube. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.

Projeto A Sala marcará presença no Olhar de Cinema 2025, festival internacional de Curitiba

Notícias Projeto A Sala marcará presença no Olhar de Cinema 2025, festival internacional de Curitiba O Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba chega à sua 14ª edição em 2025 e será realizado entre os dias 11 e 19 de junho, trazendo uma programação diversa e intensa para os amantes da sétima arte. O Projeto A Sala estará presente no evento, acompanhando de perto todas as atividades e novidades que movimentam o cenário cinematográfico da capital paranaense. Com mais de 90 filmes — entre longas e curtas-metragens independentes de diversas partes do mundo — o festival reforça seu compromisso com a pluralidade de olhares e narrativas, um valor que também é central para o Projeto A Sala. As exibições acontecem em espaços culturais emblemáticos de Curitiba, como o Cine Passeio, o Teatro da Vila, a Cinemateca de Curitiba, o Cine Guarani e o Museu Oscar Niemeyer. A abertura do festival promete ser memorável: no dia 11 de junho, a icônica Ópera de Arame se transforma em uma sala de cinema para a exibição de “Cloud”, filme que representou o Japão no último Oscar. Os ingressos estão disponíveis no site oficial do festival: www.olhardecinema.com.br. Leia Também Viajo porque preciso, volto porque te amo (2009) Críticas Viajo porque preciso, volto porque te amo (2009) Um… Leia mais 04/06/2025 O céu de Suely (2006) Críticas O céu de Suely (2006) Parece um conto de… Leia mais 27/05/2025 (500) dias com ela (2009) Críticas (500) dias com ela (2009) Um filme problemático e… Leia mais 21/05/2025 A Garota Ideal (2007) Críticas A Garota Ideal (2007) Já vi cenas desse filme… Leia mais 06/05/2025 No Entres (2024) Críticas No Entres (2024) Por Ricardo Rodrigues No Entres (2024)… Leia mais 29/04/2025 Carregar mais

Viajo porque preciso, volto porque te amo (2009)

Críticas Viajo porque preciso, volto porque te amo (2009) Um retrato sobre a solidão. Esse filme é um daqueles que vai prender sua atenção, independente de qualquer coisa… primeiro por ser gravado em primeira pessoa, acompanhamos em tempo real a narração e vivência de um geólogo que é enviado para o interior do nordeste brasileiro, narrando principalmente sobre a cidade pacata e os moradores que ali habitam. Karin Ainouz (mesmo diretor de “céu de Suely”) consegue em pouco mais de 100 minutos carregar a solitude do protagonista, pior, nós ficamos mergulhados nela… o narrador personagem é José Renato (Irandhir Santos) que com sua atuação, promove uma imersão realista acerca da solidão principalmente em grandes viagens. Um destaque no filme é o diálogo da personagem Paty (que é dançarina e faz programa nas horas vagas) que introduz o conceito de “vida lazer”: que para ela significa estar com a filha e com o companheiro ao lado, para esquecer esses momentos ruins que passou na vida, ressaltando ainda com a frase “é triste gostar sem ser gostada”. Esse pequeno vídeo viralizou no TikTok e Instagram, muitas pessoas assistiram o filme devido a isso. A impressão a que temos assistido é que o próprio José Renato é quem está fazendo o filme, sem filtros, CGI, apenas com uma câmera na mão é capaz de transmitir emoção, veracidade, fúria, realidade com um toque bem pessoal e cru. A cidade pacata, os moradores, as festas, os diálogos, e o trabalho, junto com as memórias amorosas de José são o palco perfeito para a poesia presente no cotidiano, principalmente a marginal (que fica às margens, não a poesia polida). O filme está disponível no YouTube, caso alguém queira assistir realmente vale a pena. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.