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A Múmia (1999) | O Retorno da Múmia (2001) | A Múmia: Tumba do Imperador Dragão (2008)

Críticas A Múmia (1999) | O Retorno da Múmia (2001) | A Múmia: Tumba do Imperador Dragão (2008) Por Mariana Moreira Revisitando uma das franquias que mais me agradam, a trilogia de A Múmia estrelada por Brendan Fraser é uma ótima opção para quem quiser se inserir em um contexto histórico, personagens cativantes e uma narrativa que sabe misturar bem elementos de humor com horror. O primeiro filme foi um remake baseado na obra original de 1932, como parte de uma série de filmes da Universal Pictures intitulada Universal Monsters, sendo seis de suas obras focadas na temática da múmia (1932-1955). No caso desta trilogia “modernizada”, Stephen Sommers assume a direção e roteiro dos dois primeiros filmes, trazendo aspectos que se assemelham em ambas as obras como estética visual, atuações e trilha sonora. Não por necessariamente se manter dentro da linha da narrativa que envolve o despertar de múmias no Egito do século XX, mas considero os dois primeiros filmes os melhores por conseguirem caminhar lado a lado em termos de andamento e cronologia das narrativas, além de saber desenvolver os personagens de forma que não percam suas características mais marcantes. O cenário egípcio em sua paleta de cores tão singular, contém tanto elementos para quem se interessa por história e arqueologia, como para quem procura uma bela dose de aventura. O terceiro filme por sua vez teve direção de Rob Cohen, enquanto Stephen Sommers desempenhou um outro papel ao ser um dos produtores do terceiro capítulo da franquia. Embora também focado em uma múmia como antagonista, o terceiro filme se desvia da fórmula dos filmes anteriores ao ambientar a narrativa na China e trazer em perspectiva as mitologias orientais e o contexto histórico das dinastias chinesas. O Renascimento do Monstro (1999) Esta versão trouxe de volta a figura lendária Imhotep, interpretado por Arnold Vosloo. O longa combinou elementos de horror gótico com ação no estilo Indiana Jones, apresentando Rick O’Connell como herói improvável e Evelyn Carnahan como a erudita que se vê envolvida em uma trama sobrenatural. O filme conquistou o público e crítica ao revitalizar o interesse por narrativas ambientadas no Egito Antigo, com cenários grandiosos e efeitos visuais que, para a época impressionavam. Um fator da produção que nem todos saibam é que mesmo a narrativa tendo como ponto principal ser ambientada em solo egípcio, na realidade, as filmagens principais foram ocorridas no Marrocos, devido a instabilidade política que ocorria no Egito, com cenas adicionais no Reino Unido. A equipe enfrentou tempestades de areia, desidratação e cobras na região do Saara, necessitando de cuidados médicos. O equilíbrio entre aventura, romance e humor foi essencial para transformar o longa em um sucesso duradouro, tornando-se referência para o cinema de ação dos anos 90. Expansão e Espetáculo (2001) Dois anos depois, o segundo longa ampliou o universo e apostou em efeitos ainda mais ambiciosos. Assim como seu antecessor, o segundo filme também contou com filmagens ocorridas no Marrocos, além de cenas de ação e efeitos na Jordânia, uso de estúdios e cenas interiores no Reino Unido. Foi também o primeiro trabalho no cinema de Dwayne Johnson, sendo creditado por seu nome de ringue “The Rock”, no papel do Escorpião Rei. Mesmo com críticas mistas – especialmente em relação ao CGI datado já na época – o filme manteve o tom grandioso e reforçou o carisma da dupla protagonista. Brendan Fraser e Rachel Weisz mantém sua química e cumplicidade ao não apenas serem representados como um casal, mas como dupla imbatível quando se trata de colocar as múmias em seu devido lugar. O que particularmente acho algo devidamente construído foi como a personagem de Evelyn evolui do status de “donzela em perigo” para um papel mais igualitário junto de Rick ao mostrá-la como alguém que sabe tanto lutar quando necessário, mas sem perder sua inteligência e feminilidade. Neste caso, Evelyn é o cérebro, enquanto Rick é o músculo. Freddie Boath, intérprete do filho de 8 anos do casal, Alex, merece igualmente destaque por sua atuação ligeira e perspicaz. A sequência também aprofundou a mitologia, explorando novos artefatos e maldições, e trouxe cenas memoráveis como a batalha final contra o híbrido Escorpião Rei. O resultado foi um espetáculo visual que garantiu a continuidade da saga e consolidou Fraser como ícone da aventura cinematográfica. A Última Aventura (2008) Neste terceiro e, suposto, último capítulo da franquia, a ação migrou para a China, explorando novas mitologias e vilões. Embora o terceiro seja levemente inferior aos dois anteriores, confesso que não considero tão desinteressante mudar a fórmula da narrativa mantendo a ideia central: uma múmia como ameaça sobrenatural. Talvez o motivo de o terceiro filme ter me agradado tenha sido que particularmente sou grande admiradora da cultura e história oriental e de acordo com o próprio diretor, Rob Cohen, este mesmo nutria um fascínio pela cultura chinesa e sua história, portando insistiu que as filmagens realmente fossem feitas o máximo possível no país e fez o possível para que a antiga cultura chinesa e arte fossem retratadas de forma mais autêntica possível. Jet Li assume o antagonismo no lugar de Imhotep, no papel do imperador Han. Além de contar com demais personalidades influentes do cinema oriental como Michelle Yeoh, que interpreta a feiticeira Zi Yuan. Mesmo com a presença e espírito aventureiro de Brendan Fraser, a ausência de Rachel Weisz é sentida. A atriz que a substitui, Maria Bello, traz uma Evelyn O’Connell significantemente diferente não necessariamente para um lado negativo, mas sua interação com o personagem de Fraser e outros do elenco fica mais fria e perde mais a química. O filme buscou renovar sua fórmula ao incluir o filho do casal, Alex, agora com 21 anos, como personagem ativo na trama. Porém, a recepção ao terceiro filme foi mais negativa comparada com os outros, apesar de ter se saído bem nas bilheterias. Ainda assim, o longa encerrou a trilogia principal, deixando um legado de diversão escapista e efeitos que, embora datados hoje, marcaram o início dos anos 2000. Após especulações, segundo

Hannah Takes the Stairs (2007)

Críticas Hannah Takes the Stairs (2007) Por Lucas Costa Mesmo não sendo o primeiro, este talvez seja o filme paradigmático do Mumblecore, reunindo com muita clareza e, a meu ver, excelência, todas as principais características do movimento e contando com umas melhores atuações de uma jovem Greta Gerwig. Hannah Take The Stairs é uma dramédia intimista de caráter experimental, permeada de improviso, imersiva e inteligente. Acompanha a recém formada Hannah e seu itinerário de insatisfação amorosa entre três rapazes enquanto não sabe o que fazer da vida. Para os fãs de certo segmento da cultura pop, soa quase mágico por contar com vários dos principais nomes do cinema underground americano da época ainda em começo de carreira – Gerwig, Mark Duplass, Kent Osborne, Joe Swanberg – juntos em uma obra colaborativa e de baixíssimo orçamento. O filme é errático, superfícial, impermanente em um bom sentido. A não ser pela mudança de interesse amoroso, nada progride, como se suas partes pudessem estar em outra ordem sem, com isso, afetar a forma final. Hannah pula de relação em relação sem expressar motivação alguma, sem que nenhum drama ou psicologia seja aprofundado. Espelho da inaptidão para a vida adulta, a protagonista desliza na superfície onde suas emocões estão expostas e o pensamento escondido. Gerwig condensa nas expressões, na voz, no corpo errante a subjetividade incerta e evasiva da sua personagem, de modo que podemos ver o embate de idéias confusas que se passa internamente. Ela se aproxima e se afasta, experimenta, se empolga e entedia-se. É, de fato, um tanto incômodo. Isso chateou, na época, alguns críticos da ShortEnd Magazine que disseram ser uma personagem com a qual você não se importa. Não existe aqui, um arco dramático tradicional em que a personagem se transforma ao final. Ao contrário, Hannah, atravessa suas experiências sem, essencialmente, mudar. Ela descreve um contínuo de variação e experimentação que não se conclui com a formação de um Eu ao fim de uma jornada. A obra tem estilo contemplativo e organiza sua narrativa de modo que surja um tempo de duração, um tempo afetivo, mais do que cronológico, causando um efeito imersivo por seu realismo íntimo e seus planos demorados. Também os diálogos não explicam ou avançam, funcionando quase como colagens, independentes da trama e dando conta de uma vastidão de assuntos que emergem da situação, embora sejam o principal motor para nos colocar naquele mundo e apresentar seus habitantes. O resultado é um cativante filme Millenial em cada um dos seus aspectos. A pós modernidade se caracteriza, entre outras coisas, por sujeitos sem lastros firmes com o mundo que navegam por relações frágeis e fragmentadas, encapsulados em seus pequenos ecossistemas. As personagens tem trejeitos estranhos, movimentos inesperados e sem sentido somados à mencionada falta de motivação. O naturalismo radical do estilo se transforma na captura da vida de uma geração sem habilidade para a vida adulta que navega irregularmente à mercê das suas emoções mais imediatas. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.

Doze é Demais (2003) | Doze é Demais 2 (2005)

Críticas Doze é Demais (2003) | Doze é Demais 2 (2005) Por Mariana Moreira Quando doze filhos viram espetáculo Durante a primeira década dos anos 2000, o cinema foi responsável por produzir uma gama de comédias familiares que por mais que não tenham agradado tanto a crítica, foram recebidas com o calor do público. Entre elas estão a dupla Doze é Demais e sua sequência, protagonizadas por ninguém menos que Steve Martin. O primeiro filme foi lançado em 2003, enquanto o segundo foi lançada em 2005. Ambas foram distribuídas pela 20th Century Fox, antes desta ser adquirida pela Walt Disney Company. O gênero das comédias com um apelo familiar pode parecer um tópico que nos últimos anos tem ficado ultrapassado, mas no caso destes dois filmes, revisitá-los mais de uma década após terem sido lançados não é apenas sobre se divertir, mas sobre redescobrir a importância dos laços de união, seja ela familiar ou entre amigos e isso é algo que considero que não sai de moda. Doze é Demais: caos doméstico e coração Dirigido por Shawn Levy, no primeiro filme o dilema principal gira em torno de conciliar trabalho e família. Tom Baker (Steve Martin) aceita um novo emprego como treinador de um time universitário, enquanto sua esposa Kate (Bonnie Hunt) tenta lançar um livro sobre suas vidas com 12 filhos. O resultado é uma avalanche de situações engraçadas e tensas, desde corridas escolares até desastres dentro de casa. O humor físico e ritmo acelerado são os principais fatores responsáveis por tornar essa comédia leve e acessível para todas as idades. O elenco é um de seus pontos altos, trazendo tanto carisma quanto esbanjando doses diversas de tipos de emoção. Steve Martin e Bonnie Hunt trazem química e companheirismo como casal, além de contar com outros rostos conhecidos como Hilary Duff, Tom Welling e Piper Perabo, cada um representando diferentes fases da vida dos filhos. Mesmo com críticas mistas, o filme se tornou um sucesso de bilheteria, sendo até hoje lembrado como um clássico moderno das comédias familiares graças a sua energia caótica e pelo retrato carinhoso da vida em família. Doze é Demais 2: férias nada tranquilas A continuação foi dirigida por Adam Shankman e levou a fórmula de seu antecessor a um novo cenário, ampliando o humor e os conflitos. Os Bakers tinham tudo para ter agradáveis férias em família no Lago Winnetka, mas tudo muda quando reencontram os Murtaughs, uma família rival liderada por Jimmy (Eugene Levy). A disputa entre os clãs se torna o motor da narrativa, com competições esportivas, provocações e situações cômicas que exploram o contraste entre estilos de vida. Se o primeiro filme tinha uma dose maior de drama ao abordar a dificuldade de conciliar carreira e família, a sequência aposta ainda mais no humor físico e rivalidades caricatas. Embora menos centrado na vida cotidiana, o filme mantém a essência: mostrar que, no fim, união e afeto são mais importantes que qualquer vitória. Mesmo não tendo alcançado o impacto do filme original, ambos transmitem temas e mensagens que continuam relevantes. Família como prioridade: ambos reforçam que, apesar do caos, o amor e cooperação são fundamentais. Equilíbrio entre carreira e vida pessoal: dilema central do primeiro filme, fazendo a narrativa funcionar como um retrato do cotidiano. Rivalidade e empatia: explorado na sequência, mostrando que as diferenças podem ser superadas. Doze é Demais e sua sequência são lembranças de um tempo em que o cinema familiar apostava no exagero para arrancar risadas. Mais do que a comédia, eles celebram o valor da união e da convivência. Revisitar estes filmes é mergulhar em uma nostalgia divertida e, quem sabe, refletir sobre como o caos pode ser também uma forma de amor. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.

Projeto Flórida (2017)

Críticas Projeto Flórida (2017) Por Lucas Costa Na base de todo projeto dedicado a instaurar o sonho americano há um reservatório subterrâneo para aqueles condenados a habitar suas margens, relegados à condição das ruínas do que não coube no espetáculo. Projeto Flórida, de Sean Baker, compõe uma partitura da precariedade que sustenta a sociedade estadunidense ao retratar o cotidiano de um conjunto habitacional no Estado famoso pela presença da disneylândia. Por meio de planos longos e demorados que assimilam uma vida repetitiva, arrastada e de poucas possibilidades além do mostrado, adentramos naquele mundo pelo ponto de vista de Moonie, cujas tardes de brincadeiras com os amigos tem a potência de dissolver qualquer projeto civilizatório como uma verdadeira máquina de guerra deleuzeana. Sua visão infantil não organiza o mundo, mas o experimenta de modo que a criança não é a promessa de um futuro moral mas uma força de rearranjar da realidade diante da conflituosa apatia dos adultos. A árvore onde brincam e a frase da garotinha são a imagem para sua função e, pela tangente, da dinâmica de todos no entorno: está tombada mas continua crescendo. Baker acerta em não moralizar e nem psicologizar ou exceder em melodrama. A tridimensionalidade e a ambiguidade das personagens são retratada sempre em relação àquela partitura sistêmica, mostrando ação e reação, de modo que não impede de serem, também, tipos: sobrevivem àquele mundo da forma que podem ao mesmo tempo em que o conservam. Então, ainda que faltem ações transformadoras, a figura de Moonie impede que Projeto Flórida seja mero retrato da miséria. A ruptura final pode ser lida tanto como fuga criadora quanto como fantasia escapista, mas não deixa de emocionar o espectador por seu espírito ingênuo, amoral e inconformado. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.

Vidas ao Vento (2013)

Críticas Vidas ao Vento (2013) Por Lucas Costa À maneira dos romances filosóficos do século XX, Vidas ao Vento coloca em relevo as relações humanas em suas minúcias, de um lado, e os grandes conflitos histórico – mundiais, de outro,  contando uma história de guerra e de amor, de doença e de sonho. É a obra que sintetiza as principais características e preocupações de Miyazaki situando-se no tempo histórico e costurando-se por acontecimentos reais: o grande terremoto de 1923, a Segunda Guerra Mundial, a figura de Jiro Horikoshi. Ao mesmo tempo, desde a epígrafe retirada de um poema de Paul Valéry, cujo livro, é ponte para o encontro entre Jiro e Nahoko, até as incursões n’A Montanha Mágica de Thomas Mann, a literatura funciona como uma clave na partitura, balizando os principais temas e sua temperatura. A epígrafe, “O vento se ergue, devemos tentar viver”, ecoa o centro de gravidade de toda a obra do autor, a exemplo de uma outra frase dita em Princesa Mononoke. “Estamos todos amaldiçoados, mas ainda desejamos viver” – diz o leproso cuidado por Lady Eboshi. Essa dualidade, as múltiplas facetas do conflito entre tecnologia e natureza que atravessa e ultrapassa o ser humano, onde bem e mal, pureza e corrupção, violência e altruísmo não operam à partir de uma lógica maniqueísta. Ao contrário, ali a fortaleza de Lady Eboshi é uma imagem da civilização moderna e suas contradições assim como a aviação o é em Vidas ao Vento e assim como a própria animação é para Hayao Miyazaki. Para além de seu interesse pessoal nos aviões, as muitas declarações negativas do autor em relação à artificialidade e degeneração dos animes e de algumas das novas tecnologias usadas na sua criação evidenciam sua aproximação com o protagonista sob o signo do sonho que se tornou amaldiçoado, mas ainda é apaixonadamente perseguido. É conhecida a imagem de Walter Benjamin onde o progresso é uma tempestade que sopra, incessantemente, em direção ao futuro, deixando para trás o passado em ruínas em que o encadeamento de acontecimentos históricos pode ser visto como uma única e grande catástrofe. Essa imagem ilustra o desenvolvimento técnico desenfreado, ideologicamente, estimulado e pensado como autônomo enquanto, na verdade, guarda estreito vínculo com as necessidades do acúmulo irrestrito de Capital, este sim, verdadeiro padrão de medida das relações entre tecnologia, natureza e sociedade. Quando a razão deixa de pensar a legitimidade de seus fins e meios e abandona a reflexão sobre valores para limitar-se a cálculo, eficiência e utilidade, já não importa se o que está sendo desenvolvido é uma arma de guerra com potencial para destruir uma cidade inteira. A isso, os pensadores da Escola de Frankfurt chamaram Razão Instrumental. Nesse modus operandi, natureza e civilização convertem-se em objeto a ser dominado e explorado sem escrúpulos em nome do progresso e o Capital, nesse quadro, atua como o único sujeito verdadeiramente autônomo. A Guerra e o Nazismo são dois dos resultados desse excedente de material. Vale lembrar que não apenas a ciência passa por esse processo mas também a cultura e, portanto, a feitura das obras de arte. Cada vez menos autônomas, dão lugar à produção industrial de bens culturais para consumo rápido e que reificam comportamentos e subjetividades estereotipadas.Através da biografia fictícia e romanceada do designer do caça japonês, Hayao Miyazaki é um animador refletindo sobre o próprio ofício e sobre o destino muitas vezes sombrio dos empreendimentos humanos mais apaixonados. Toda a preocupação do filme com o detalhe e a minúcia, das lágrimas aos parafusos, está condensada e contém todo o embate desses grandes temas na retidão e disciplina de seu protagonista. Jiro tem em si um mundo de sentimentos e desejos que, sem explosões ou melodramas, são obstinadamente buscados. Quando as duas tramas se encontram sob a égide do Destino aos moldes da Tragédia Grega, é em sonho que seu mentor o convida para tomar vinho e sua amada o instiga a continuar a viver, repetindo a frase da epígrafe para concluir a jornada. Através de Jiro, experienciamos, a um só tempo, com profunda paixão e frieza estóica, nosso itinerário pelos conflitos da existência moderna coletiva. Mesmo após os mais contundentes fracassos, o espectador é guiado à catarse pela disciplina em celebrar a vida na construção insistente dos sonhos – seja o de voar ou o de fazer belas animações. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.

Um Lobisomem Americano em Londres (1981)

Críticas Um Lobisomem Americano em Londres (1981) Por Lucas Costa “Como assim, ‘Um Lobisomem Americano em Londres?’” é comum perguntarem quando menciono esse filme, muitas vezes, acreditando se tratar de alguma sátira ou algo mais “Lado B”. É curioso que essa obra hoje passe batida por muitos, já que não apenas foi um sucesso à época do seu lançamento, como se firmou, logo de saída, uma das mais influentes da cultura pop. Jack e David são dois amigos americanos viajando pela Inglaterra. Após não serem bem recebidos em uma taberna local, acabam sendo atacados por um lobo. Um deles acaba sobrevivendo mas começa a ter visões do amigo morto que o avisa que, em breve, se tornará um monstro e matará mais pessoas. Este é um filme singular por inúmeros motivos. Um deles é a junção de comédia com terror, que abriria caminho, por exemplo, para Sam Raimi e seu Evil Dead. O próprio diretor, John Landis, comenta que as pessoas implicavam tentando ora entendê-lo como assustador demais para uma comédia, ora engraçado demais para um terror, sem conceber como um filme poderia ser tanto das duas coisas. Terror e comédia compartilham uma proximidade por certas mecânicas como quebra de expectativa, exagero e associação que podem gerar riso ou susto a depender de tom e timing. Explorando as situações do ponto de vista do próprio personagem que se transforma em lobisomem, o título do filme entra em cena, já que tudo passa pelo estranhamento da sua condição de estrangeiro. Ao entrarem na taberna ou na cena do zoológico, temos a impressão de ver um norte-americano jogado em um esquete do Monthy Pyton. As piadas surgem com naturalidade do choque da visão dos garotos com os tipos propriamente britânicos e do absurdo que invade o dia a dia da viagem. Em nenhum momento, porém, o filme se torna uma sátira ou paródia. Não há nada de cínico ou irônico neste lobisomem. Ao contrário, há profunda honestidade e muito coração, de modo que caímos na gargalhada e, logo depois, estamos assustados ou, até mesmo, tristes e apreensivos por estes personagens. A abordagem original da mitologia deste monstro passa pela chave central do filme: a culpa. Não há balas de prata, tudo é muito mais mundano. Inclusive, os personagens tentam antecipar o que vai acontecer relembrando o clássico protagonizado por Bela Lugosi, mostrando a assimilação e superação conscientes do gênero. Voltando ao elemento da culpa, ele é dado no diálogo nos primeiros minutos da obra e retomado ao longo da narrativa. David não foi capaz de proteger Jack e tomou decisões que contribuíram para a morte do melhor amigo. Jack aparece cada vez mais decomposto e degradado avisando seu amigo que ele precisa tirar a própria vida para interromper a maldição e, enfim, libertar a sua alma. Ocorre a cisão que faz com que David busque contato com a sua família, tenha pesadelos, tente ser preso e entre num relacionamento com a enfermeira em que ela se atrai por sua fragilidade e, ele, por seu cuidado. David busca se agarrar nas formas seguras e estáveis que escapam irreversivelmente por suas mãos e, assim, o estranhamento/estrangeirismo é a raiz da bestialidade desde rapaz que já não suporta o fardo de ser um homem. Mais do que os méritos de um filme de monstro engraçado ou de um filme de comédia aterrorizante, Um Lobisomem Americano em Londres logra alcançar maior profundidade psicológica, emocional e existencial do que os filmes de terror e comédia haviam conseguido até então, abrindo novas possibilidades para tudo o que seria feito depois. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.

Superbad (2007)

Críticas Superbad (2007) Por Lucas Costa Às vezes é necessário se tomar uma distância adequada para ver as coisas como realmente são. Superbad, um tanto incompreendido à época de seu lançamento, é um desses casos e, quase vinte anos depois, firma-se como uma das comédias mais relevantes do século. Misturando o espírito de  A Vingança dos Nerds, Clube dos 5 e American Pie, o filme era exageradamente comparado a estes, sendo uma comédia de formação retratando protagonistas nerds e lançada num momento onde os filmes de festa em que homens virgens desesperados por transar, como Eurotrip ou Road Movie, estavam em alta. Toda essa filiação é nítida já que as obras de Seth Rogen e Evan Goldberg costumam ser cartas de amor ao cinema que prestam homenagem às suas referências, mas engana-se quem tenta encaixar Superbad em uma caixinha ou outra. Antes, a obra se vale das convenções desses gêneros para elevá-los a uma coisa nova: Suberbad é a obra prima e exemplo paradigmático da chamada Raunchy Comedy. Judd Apatow e sua trupe – Seth Rogen, James Franco, Jonah Hill, Evan Goldberg, Leslie Man, Rose Byrne – no início dos anos 2000, pegam carona no esgotamento das comédias românticas e tomam emprestados os seus principais tropos para explorar as dinâmicas da amizade masculina. Assim, a Raunchy Comedy planta seus pés em algumas máximas da RomCom: o personagem traça sua jornada através da vulnerabilidade e tira sua força, justamente, dessa vulnerabilidade; o compartilhamento da intimidade com o outro é o motor do conflito e o lugar da transformação interna. Suberbad acompanha Seth, Evan e Fogell na luta para comprar bebidas e impressionar (transar com) as garotas Jules e Becca em uma festa na casa de Jules. Prestes a se formar no colégio, os amigos inseperáveis não lidam bem com o fato de que irão para universidades diferentes e tentam aproveitar uma última oportunidade de se dar bem com o sexo oposto. São garotos deslocados, “goofy guys”, “manchild” que não tem nenhum traquejo para falar com meninas e nenhum prestígio com meninos populares. Jonah Hill e Michael Cera, aliás, já estão muito bem adequados aos tipos que vieram a desenvolver ao longo da carreira, sobretudo Cera, que se manteve no lugar do nerd bobão. Repetem falas e comportamentos machistas, sempre as colocando como objeto sexual. Vemos a obsessão com o pênis, frequentação excessiva de pornografia, bebedeiras insalubres e o check up completo de uma masculinidade abobalhada em formação. O conflito central se coloca quando a mãe de Evan pergunta se os dois vão sentir saudade um do outro e os moleques ficam sem jeito com a pergunta. “Não”, respondem. “We don’t miss each other”. Está colocado o estereótipo do homem que não mostra sentimentos. A genialidade se encontra no fato de que o próprio núcleo deste novo gênero de comédia, conservado das histórias de romance, a saber, a intimidade e a vulnerabilidade, são o problema a ser trabalhado em Evan, Seth e Fogell. Enquanto os dois primeiros partem numa jornada desastrosa, mergulhando nas suas falhas e inseguranças, Fogell encarna diretamente o alter-ego Mclovin quando dois policiais fanfarrões resolvem, o que o possibilita saltar direto para um novo tipo de comportamento. Por trás da perseguição a garotas bonitas e por encher a cara, entre usos de drogas e brigas em festa, a verdade do filme vem à tona primeiro quando os Seth e Evan são recebidos como heróis na festa mas acabam por não transar com Jules e Becca. Becca se joga pra cima de Evan mas ele percebe que o estado de embriaguez da menina torna a situação desfavorável. Ele próprio recusa o ato. Por outro lado, Seth planejava embebedar Jules para que ela se interessasse por ele e se surpreende quando a garota (primeiro papel de Emma Stone na telona) diz que não bebe e que se interessaria por Seth de qualquer forma, já que ele é engraçado e se divertido. A bebida faz com que ele abra o coração e exponha suas inseguranças consigo mesmo e diante dos outros pela primeira vez, antes de apagar “black-out-drunk”. O comportamento misógino e objetificador não é recompensado com a conquista do sexo. Depois, a verdade vem à tona quando os dois, em fuga da polícia, discutem a própria relação. Quando Evan confronta Seth por seu comportamento escroto, agressivo e egoísta, o amigo confessa que tudo se trata de ciúmes. Um ciúmes que, até então, o personagem não tinha ferramentas para expressar e botava pra fora em uma espécie de retorno do recalcado. O filme tem seu clímax quando, conscientes de si mesmos, enfim, os meninos se abraçam, bêbados e confessam um ao outro que se amam. A cena é pura catarse, como se tivessem descoberto uma nova palavra que agora desbloqueia uma nova maneira de estar no mundo, mais honesta e corajosa. O que possibilita, também, conversar normalmente com Jules e Becca e estabelecer, com elas, uma relação respeitosa e saudável. A maturidade é atingida quando se reconhece suas fragilidades e aceita-se o amor por seus iguais. Por fim, Superbad é um clássico hilário, uma aula de roteiro, que consegue capturar o Espírito de seu tempo e se firmar como obra atemporal. Em mundo em que se proliferam Incels e Redpills, a mensagem é simples, verdadeira e universal: respeite as garotas, expresse seus sentimentos, ame seus amigos. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.

Morte Morte Morte (2022)

Críticas Morte Morte Morte (2022) Por Lucas Costa Este é o filme que melhor faz jus, a meu ver, aos altos parâmetros estabelecidos por Pânico e isso não é pouca coisa. Desde o lançamento do clássico de Wes Craven e Kevin Williamson, em 1996, o Neo-slasher alçou-se a uma nova febre que não pôde se manter por muito tempo. Afinal, a fórmula do assassino mascarado que persegue um grupo de amigos jovens e mata um a um, geralmente, em um curto espaço de tempo, acabou se esgotando rápido logo após a inventividade de obras como Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado e Premonição. A década seguinte acabou marcada por remakes sem muito brilho de clássicos dos anos 80, por um lado, e a exploração ad infinitum da nova fórmula, de assassinos deformados na floresta a loopings temporais, por outro, pendendo ora para o cinismo da autoparódia pós-moderna, ora para uma seriedade estanque que dispensa elementos essenciais do gênero. Morte Morte Morte, primeira parceria da diretora Halina Reijn com a A24, soube trabalhar com esse esgotamento e conservar o coração do Neo-Slasher para espelhar o aspecto mais feio da Geração Z. Tudo começa quando Bee viaja para conhecer os velhos amigos de sua nova namorada, Sophie, que estão festejando durante a passagem de um furacão até que, claro, as coisas começam a dar errado. De cara, somos apresentados a tipos específicos: Gregg, o cara mais velho e “good vibes”; David, dono da casa, garoto mimado, invasivo e ególatra; Alice, uma podcaster falastrona e espalhafatosa; Jordan, conserva um ar contido e hostil como uma espécie de bastião da moral; Sophie tem problemas com drogas e esconde suas recaídas. Todos muito ricos e ociosos, com excessão da própria Bee. Está coreografado o jogo de forças que move a trama entre estas personalidades fúteis, às vezes impulsivas e explosivas, seus conflitos de relacionamento e a incapacidade de uma elaboração crua e honesta da linguagem. Fazem parte de uma geração deslocada do mundo dos adultos. A principal força do filme está aqui. O terror tem lugar privilegiado em condensar as angústias específicas de cada época e os demônios com os quais cada geração deve lutar, sejam eles as guerras, doenças venéreas, o consumo ou a sexualidade. É assim desde Nosferatu e sua detecção do antissemitismo, foi assim com os Giallo e a urbanização da Itália pós-guerra e também com Pânico e as metamorfoses das relações sexuais e de gênero na década de 90. Em Morte Morte Morte, os personagens fazem parte estão deslocados do mundo dos adultos sem ferramentas para lidar com a realidade. Estão crônicamente online e tiram das dinâmicas das redes sociais o padrão medida para a ética da própria vida. Por este mesmo aspecto, o filme é engraçado sem tornar-se, exatamente, uma comédia. Não é um “terrir”. Mas no simples retrato do conjunto de hábitos e valores faz com que seus personagens soem como caricaturas sem que o sejam. É uma certa imbecilidade indispensável para o terror funcione e, ao mesmo tempo, espelho ingrato de certa juventude. Entre acusações e inseguranças, todas essas máscaras que escondem coisas comuns e fúteis vão caindo, mas isso é demais para esses jovens. Há um Foreshadowing no começo do filme em que uma das personagens volta ao carro para usar o espelho e, depois que ela sai, vemos a câmera se aproximar do espelho com um adesivo de “Perigo” logo ao lado, mostrando que realmente as relações pautadas no culto e proteção da imagem serão determinantes para o caos. Pois, em Morte Morte Morte, o assassino é a própria fragilidade das gerações Z e Millenial diante de sua inserção particular na Sociedade do Espetáculo, essa geração que produz o Espetáculo de si mesma para não olhar-se verdadeiramente no espelho e que tem na cultura do cancelamento que reina na internet o palco para sua violência cega. No filme, as frases “ele tem a lua em libra, logo não pode ser o assassino” ou “eu me afastei de vocês porque vocês me dão gatilho” são realmente levadas a sério e isso soa verossímil porque nossa geração também leva isso a sério. Um filme tenso sem deixar de ser engraçado e levando a sério o seu elemento ridículo enquanto mantém os personagens verossímeis, Morte Morte Morte honra a tradição do terror autoconsciente ao elevar essa estupidez das redes sociais que esconde a nossa incapacidade de lidar com o mundo, em uma assassina implacável que nos mata pelas nossas próprias mãos. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.

O Cavalo de Turim (2011)

Críticas O Cavalo de Turim (2011) Por Lucas Costa Desde o longo plano-sequência de abertura somos absorvidos pelo mecanismo de lentidão e expectativa que compõe O Cavalo de Turim. Aqui, Béla Tarr usa de seu característico alargamento temporal para inverter a lógica hollywoodiana dos filmes de catástrofe e refletir a experiência contemporânea. A máxima de Mark Fisher acerca de ser mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo não cessa de ser confirmada pela grande indústria cinematográfica. Um imaginário alimentado pelo rápido avanço da crise climática e pelos crescentes diagnósticos de sua irreversibilidade. Assistimos a um “boom” dos filmes de desastres naturais, na década de 90, até a proliferação dos mundos pós-apocalípticos, em que reinam as produções de narrativas épicas e cheias de ação onde uma grande hecatombe marca o fim da vida na Terra como a conhecemos. Béla Tarr faz tudo ao contrário. Mergulhamos em um cotidiano insosso onde a narrativa é quase ausente. O apocalipse acontece ao redor daqueles personagens mínimos que mal conseguem percebê-lo, salvo por alguns estranhos sinais. O cavalo que se nega primeiro a andar, depois a sair do estábulo; os cupins que param de roer o telhado e deixam os personagens envoltos apenas pelo som da tempestade. Os elementos da natureza funcionam como signos precursores de uma tragédia sempre iminente, mas que nunca chega. A trilha original de Mihály Víg, consistindo na repetição hipnótica do mesmo tema, reforça este aspecto com maestria. As claustrofóbicas sequências interiores são preenchidas com lentas coreografias dos gestos cotidianos através atuações austeras e concisas dos protagonistas. Todo o clima de espera e manutenção da precariedade diante do absurdo vai de encontro às reflexões do filósofo alemão Günther Anders, um dos principais pensadores do que chamamos “tempo do fim” e pioneiro dos que vieram a ser conhecidos como “estudos do apocalipse”. Por esta chave, a invenção da bomba atômica marca, irreversivelmente, uma nova experiência de tempo. Ficamos sempre à iminência de uma grande explosão que pode colocar ponto final à vida humana e que está apenas a um botão de distância. Mesmo que ela nunca ocorra, sua mera possibilidade instaura uma existência em torno da expectativa, transformando o tempo presente em uma grande antessala do abismo, uma kafkiana espera perpétua que nos desmobiliza de transformar o próprio futuro já dado como inimaginável. Esta leitura, a meu ver, ganha força quando um personagem de fora, talvez um vizinho, em breve visita, cita Nietzsche para anunciar que a cidade já está em ruínas, pois os homens perceberam que já não são possíveis e resolveram acabar com tudo. Pois Nietzsche é quem fala de tomar posse da própria vida conectando-se com as forças que a atravessam, e o apocalipse profano contemporâneo não é uma grande catástrofe derradeira, mas uma existência em que se está despossuído de si mesmo e da autonomia, em uma repetição trágica de gestos cada vez mais esvaziados de sentido. O Cavalo de Turim recusa a espetacularização e nos infecta lentamente com seu ritmo arrastado e seus planos demorados. Já não há para onde ir. Percebe-se que, pouco a pouco, enquanto esperávamos, aquele mundo já estava acabado. Ao dilatar o tempo e converter a expectativa em linguagem, Béla Tarr nos devolve ao núcleo duro da experiência contemporânea de impossibilidade da elaboração do futuro. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.

Meu Primeiro Amor (1991)

Críticas Meu Primeiro Amor (1991) Por Mariana Moreira Na minha opinião, poucos filmes conseguem retratar as avalanches físicas e emocionais que passamos ao transitarmos da infância para a adolescência como “Meu Primeiro Amor”. Tanto para meninos quanto meninas, mas principalmente meninas, a maneira como os acontecimentos da narrativa tomam partido dentro da vida da personagem Vada não só traz delicadeza e cuidado ao retratar o cotidiano através dos olhos de uma menina que busca um porto seguro, como também autenticidade e coragem necessárias ao falar sobre temas como a inocência do primeiro amor e mesmo a primeira menstruação (o que infelizmente continua sendo um assunto alvo de tabus mesmo atualmente). Lançado em 1991, “Meu Primeiro Amor” retrata o cotidiano e as vivências de Vada Sultenfuss (Anna Chlumsky), uma menina de 11 anos vivendo em uma pequena cidade americana durante as férias escolares de verão. Sua vida não poderia ser mais fora do comum: seu pai Harry (Dan Aykroyd) é o dono de uma funerária, o que faz a menina desde cedo criar uma espécie de obsessão com a morte e, de acordo com sua percepção, achar que está sempre com algum sintoma. Sua mãe faleceu quando ainda era um bebê e ela encontra seu único refúgio diante de pessoas que não a compreendem totalmente ou lhe dão a devida atenção na amizade Thomas J. (Macaulay Culkin), um garoto doce, sensível e alérgico a quase tudo, mas que compartilha com ela momentos de descoberta e inocência. A chegada de Shelly (Jamie Lee Curtis), nova funcionária da funerária, e os sentimentos confusos de Vada por seu professor de inglês completam o mosaico de emoções. A produção teve direção de Howard Zieff e roteiro assinado por Laurice Elehwany. Seu título original “My Girl” se refere à música clássica homônima de 1964 do grupo The Temptations, tocada nos créditos finais. Sou suspeita, pois de fato a música é uma das que mais gosto dos anos 1960, mas acho que sua letra, arranjo e melodia se encaixam mais do que bem na atmosfera narrativa e visual que o filme entrega. Partindo para um lado mais psicológico da história, a mim não apenas o filme me parece demonstrar sem exageros os dilemas enfrentados por Vada durante as descobertas da infância. Também para aqueles que procuram uma obra audiovisual que contenha um retrato atencioso e verdadeiro com um charme a mais sobre temas que supostamente seriam considerados “adultos”, “Meu Primeiro Amor” é a escolha certa. Embora à primeira vista a personagem Vada possa parecer um tanto emblemática, se olharmos fundo veremos uma menina de coração puro começando a enxergar a vida em suas diversas nuances, que na falta de ter alguém com quem possa contar, busca aquilo que lhe falta dentro de casa na companhia de Thomas J. O fato de não ser um garoto popular e, de certa forma, ter alguma carência emocional entre outros de sua idade faz com que ele e Vada sejam companheiros de aventuras assim como preencham o espaço vazio um do outro nos pontos que têm em comum. Na falta de uma figura feminina na vida de Vada, a chegada de Shelly à funerária inicialmente ocupa este lugar, mas, ao mesmo tempo, mexe com os sentimentos adormecidos de Harry, que  depois de perder a esposa se afundou em suas mágoas e se fechou para o mundo ao seu redor. Ao mesmo tempo que a personagem de Jamie Lee Curtis se torna uma figura materna, acaba por ser tanto objeto de ciúmes em Vada quanto alguém que faça o pai vivido por Dan Aykroyd refletir sobre sua ausência na vida da filha e a falta que esta sente de sua atenção e carinho. Se tornou um sucesso de bilheteria nos Estados Unidos, superando expectativas e consolidando-se como um clássico do gênero dramédia. A crítica destacou a coragem da produção em tratar temas considerados “pesados” para um público jovem, sem perder a delicadeza. O filme retrata a transição delicada entre a inocência infantil e os primeiros contatos com a realidade adulta. Ao contrário de outras produções voltadas para jovens, “Meu Primeiro Amor” não evita o tema da morte, tratando-o de forma honesta e impactante. A relação entre Vada e Thomas J. é retratada com pureza, sem idealizações românticas, mas como um vínculo genuíno de afeto e descoberta. “Meu Primeiro Amor” é mais do que um filme sobre a infância: é uma reflexão sobre como aprendemos a lidar com sentimentos complexos desde cedo. Sua força está em mostrar que crescer envolve tanto descobertas encantadoras quanto perdas dolorosas — e que ambas moldam quem nos tornamos. O Projeto A Sala afirma que todos os textos do site são de responsabilidade do próprio autor.